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Tambor de Crioula: Resistência, fé e identidade cultural

No dia do Tambor de Crioula, em pauta a salvaguarda desse que é patrimônio cultural imaterial do Brasil

A expressão cultural afro-brasileira é celebrada anualmente em 18 de junho, data instituída como o Dia Estadual do Tambor de Crioula (Foto: Reprodução)
A expressão cultural afro-brasileira é celebrada anualmente em 18 de junho, data instituída como o Dia Estadual do Tambor de Crioula (Foto: Reprodução)

Poucas manifestações culturais traduzem com tanta força a alma do Maranhão quanto o Tambor de Crioula. Com seus tambores vibrantes, saias rodadas e a energia contagiante das rodas, a expressão cultural afro-brasileira é celebrada anualmente em 18 de junho, data instituída como o Dia Estadual do Tambor de Crioula, uma homenagem a uma das mais importantes heranças culturais do estado.

Presente em comunidades urbanas e rurais, o Tambor de Crioula reúne música, dança, religiosidade e ancestralidade. A manifestação tem origem nas tradições trazidas por africanos escravizados e, ao longo dos séculos, tornou-se símbolo de resistência cultural, preservando saberes, memórias e formas de expressão transmitidas de geração em geração.

A celebração acontece tradicionalmente em homenagem a São Benedito, santo de grande devoção entre os praticantes. Durante as rodas, três tambores — conhecidos como grande, meião e crivador — marcam o ritmo que conduz as coreiras em movimentos circulares cheios de graça e significado. No centro da roda, a tradicional “punga” ou “umbigada” simboliza o convite para que outra dançarina assuma o protagonismo da dança.

Em cada toque de tambor estão presentes histórias de luta, de afirmação da identidade negra e de valorização da cultura popular maranhense.

Reconhecendo sua importância, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registrou, em 2007, o Tambor de Crioula do Maranhão como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. O reconhecimento fortaleceu ações de salvaguarda e contribuiu para ampliar a visibilidade dos grupos que mantêm viva essa tradição.

Atualmente, centenas de grupos estão espalhados pelo estado, especialmente na Grande São Luís, onde o Tambor de Crioula ocupa lugar de destaque nas festas populares, celebrações religiosas e programações culturais. Mestres, coreiras e tocadores desempenham papel fundamental na preservação dos conhecimentos associados à manifestação, garantindo sua continuidade entre as novas gerações.

O Dia Estadual do Tambor de Crioula também é um momento de reflexão sobre a necessidade de valorização permanente dos mestres da cultura popular. Muitos deles dedicam a vida à transmissão dos saberes tradicionais, formando novos brincantes e fortalecendo os laços comunitários que sustentam a manifestação.

A preocupação com a manutenção da tradição

Em bairros de São Luís, em quilombos, povoados e cidades do interior, os grupos seguem reunindo famílias inteiras em torno dos tambores. Muitos mestres começaram ainda crianças, acompanhando pais, mães, avós e vizinhos. Aprenderam os toques, os cantos e os rituais observando os mais velhos. Hoje, assumem a missão de transmitir esses saberes aos mais jovens.

Mas não tem sido tarefa fácil, e uma das problemáticas está no debate que inclui a presença de crianças em eventos noturnos, e ainda sobre a transmissão do patrimônio cultural imaterial. No caso do Tambor de Crioula, muitos mestres começaram a frequentar as rodas ainda na infância, aprendendo os toques, os cantos, a devoção a São Benedito e o significado da punga pela observação e convivência. Isso torna a discussão sobre salvaguarda especialmente relevante.

No início do mês, o Ministério Público do Maranhão realizou uma reunião preparatória voltada à “Salvaguarda do Tambor de Crioula e do Bumba-Meu-Boi”, marcando  o início de uma ação conjunta para conciliar a proteção infantojuvenil e o fomento das tradições culturais maranhenses. Diferente da audiência pública futura, que será totalmente aberta ao público em geral, a reunião preparatória reuniu um público composto por integrantes de brincadeiras, produtores e fazedores da cultura e religiosidade locais.

De acordo com Cláudio Rebêlo, promotor de justiça titular da 2ª Promotoria do Meio Ambiente, o cronograma entre a reunião e a audiência pública oficial contará com um rigoroso estudo técnico. “Antes da audiência pública, vai ter um trabalho que será feito por um antropólogo exatamente nas cinco mesorregiões do estado — com dois municípios em cada mesorregião. Ele fará a escolha para realizar a escuta qualificada da comunidade envolvida com esse tema”, explicou Rebêlo.

A mobilização do Ministério Público surgiu após a identificação de barreiras práticas enfrentadas por menores em festejos tradicionais. “Começamos a perceber que existem algumas limitações para a participação de crianças e adolescentes nesse tipo de evento, sobretudo no Tambor de Crioula e no Bumba-Meu-Boi. E aí percebemos um choque de direitos”, apontou Cláudio Rebêlo.

O promotor detalhou o dilema jurídico que o órgão busca solucionar:

“Por um lado, há a proteção da criança e do adolescente na participação de eventos noturnos, muitas vezes com uma carga de adulticidade muito grande. Por outro lado, há o direito fundamental de a criança participar das atividades culturais e religiosas do seu mundo, do ambiente ao qual ela pertence. A ideia é compatibilizar a limitação legal com o direito à participação.”

Para Simei Dantas,  idealizadora e coordenadora do Tambor de Crioula Arte Nossa, vive-se um momento de contradição. Se por um lado o Estado dá  tutela de patrimônio imaterial com projetos de salvaguarda, esse mesmo Estado limita a realização desse projeto quando por força de portaria, impede que crianças e adolescentes permaneçam em eventos de acordo com horários preestabelecidos.

“A salvaguarda inclui preservação e transmissão de saberes. Como que a gente vai transmitir esse legado que as famílias deixam, essa herança cultural,  como passar isso para outras gerações se a criança, o adolescente são impedidos de participar? Eu deixei o meu tambor mirim porque não conseguia lidar com tanta burocracia. Nós estamos localizados em área de risco e as vezes a criança é criada com avós, mas na documentação é exigido autorização dos pais. Então, tem que ter um entendimento entre as autoridades, entre os atores das políticas públicas para que isso seja alinhado e a gente possa realmente “salvaguardar” o tambor de crioula e outras manifestações culturais para que elas não se percam”, disse Simei.

Em um estado marcado pela diversidade cultural, o Tambor de Crioula permanece como uma das expressões mais autênticas da identidade maranhense. Seus tambores ecoam não apenas ritmos e cantos, mas a memória coletiva de um povo que transformou resistência em celebração e tradição em patrimônio vivo.

Neste 18 de junho, as rodas que se formam em diferentes comunidades reafirmam a força dessa herança cultural. Entre cantos, danças e devoção, o Tambor de Crioula segue cumprindo seu papel de unir pessoas, preservar histórias e celebrar a riqueza cultural do Maranhão.

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