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Potencial de energia eólica offshore aponta para nova cadeia produtiva no Maranhão

Estado reúne condições naturais e logísticas favoráveis, mas avanço depende de regulamentação, infraestrutura e formação técnica.

Divulgação/FIEMA
Divulgação/FIEMA

O litoral do Maranhão, com 640 quilômetros de extensão, aparece como uma das áreas mais promissoras do Brasil para produção de energia eólica offshore. Especialistas e empresários apontam combinação de ventos favoráveis e infraestrutura portuária capaz de reduzir custos logísticos na implantação de parques no mar. Pesquisadores estimam que a região tem potencial para gerar energia em escala capaz de atender múltiplas vezes a demanda doméstica do país, desde que investidores tenham acesso a medições locais confiáveis. A oferta de dados de campo e estudos de recurso eólico é uma das condições prévias para atrair capital e reduzir incertezas técnicas.

O Roadmap Eólica Offshore Brasil, produzido pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) em 2020, concluiu que o país tem um potencial técnico expressivo para a geração eólica no mar estimado em cerca de 700 GW em áreas com profundidade de até 50 metros, o que coloca a fonte como uma alternativa relevante para o futuro da matriz elétrica brasileira. O estudo-base para a exploração de energia eólica offshore destaca, porém, que esse potencial ainda é apenas indicativo, porque depende de análises mais detalhadas sobre restrições ambientais, navegação, uso do espaço marítimo e conflitos com outras atividades econômicas relacionadas ao mar.

No plano regulatório, o Brasil já dispõe de legislação sobre uso de energia no mar com a Lei 15.097/2025, mas precisa avançar na regulamentação infralegal para estabelecer critérios de outorga, licenciamento e compatibilização de usos. A falta de normas detalhadas e a multiplicidade de órgãos envolvidos aparecem como entraves que atrasam a realização de leilões de áreas e a execução de estudos exploratórios. Projetos offshore envolvem interesses de pesca, turismo, navegação e portos, o que exige planejamento espacial marinho claro e participação ativa do setor produtivo. Sem essa coordenação, o uso eficiente do espaço marítimo pode ser limitado.

Para Flávio Rosa, diretor da Barlovento Applus no Brasil, a regulação do uso do mar é bastante complexa por se tratar de um ambiente público e com múltiplos usos. “O anseio do setor, representado pelo Grupo de Trabalho de Energia Eólica (GT-EO) do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e integrado por mais de 20 instituições, é que em 2027 seja realizado leilão de área”, antecipou Flávio, acrescentando que o Maranhão já tem experiência com 15 parques de energia eólica onshore (em terra) e geração de 420 MW.

Eólica Offshore no Maranhão

Oswaldo Ronald Saavedra Mendez, professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Energias Oceânicas e Fluviais (INEOF), disse que o Maranhão tem enorme potencial de energia eólica offshore e que isso é uma oportunidade estratégica para a transição energética, a pesquisa científica e a formação profissional de novas gerações. Ele contesta a ideia de que o petróleo seja um “caminho sem volta” e afirma que a transição para matrizes mais limpas é, na verdade, um movimento inevitável e desejável a longo prazo. Para o professor, o cenário internacional de instabilidade geopolítica e energética aponta para a importância de investir em fontes renováveis e em soluções que reduzam a dependência dos combustíveis fósseis.

Oswaldo destaca que a universidade tem papel central nesse processo. Segundo ele, a UFMA e a rede de instituições ligadas ao INCT de Energias Oceânicas e Fluviais vêm trabalhando em conjunto para estudar o potencial da costa maranhense e desenvolver soluções para os desafios do setor. Ele ainda chamou atenção para o problema do curtailment – o desperdício de energia gerada, especialmente eólica, por falta de capacidade de escoamento ou de consumo no sistema – e afirmou que esse obstáculo precisa ser enfrentado com novas tecnologias de armazenamento.

“O litoral maranhense pode oferecer uma produção energética de grande escala. O potencial é tão expressivo que seria possível atender uma parte muito significativa da demanda brasileira por eólica offshore produzida aqui. Para tanto, há necessidade de medições locais e contínuas. O investidor só terá segurança para aplicar recursos se houver dados técnicos confiáveis sobre vento, profundidade, comportamento do mar e viabilidade de instalação. Por isso, é preciso apoio a pesquisas de campo, ainda que os custos de medições offshore sejam elevados. A energia eólica offshore pode gerar uma nova agenda de desenvolvimento para o Maranhão, com inovação, tecnologia, empregos e qualificação profissional”, explicou o pesquisador.

Economia do Mar

A Margem Equatorial aparece como uma área de enorme potencial para a geração de energia eólica offshore por ser varrida por ventos alísios constantes ao longo do ano. Com base em medições e estimativas do INCT, esse potencial seria capaz de atender em cinco vezes o consumo atual do Brasil, destacando a força energética do litoral entre o Rio Grande do Norte e o Amapá, com especial atenção ao Maranhão.

Sérgio Araújo, conselheiro de administração empresarial corporativo da BI Energia, diz que não basta reconhecer o potencial eólico do Brasil e do Maranhão: é preciso investir em tecnologia, cadeia produtiva e infraestrutura. Ele destaca o papel do Planejamento Espacial Marinho (PEM), que será decisivo para dar segurança jurídica aos projetos. O PEM, explica ele, orientará o uso do espaço marítimo e servirá de base para análises do Ibama e de outros órgãos e o setor produtivo deve participar ativamente das audiências e debates públicos.

A BI Energia tem projetos no Maranhão, no município de Humberto de Campos; no Ceará, no Piauí, e no Rio Grande do Norte. “A empresa já investiu muito em estudos ao longo de uma década e agora aguarda a regulamentação para avançar de forma segura. A distância das áreas offshore, a batimetria, a logística de cabos e a necessidade de estruturas como monopiles (tipo de fundação mais utilizada no mundo para fixar turbinas eólicas no fundo do oceano) influenciam fortemente o custo dos empreendimentos. Se as áreas forem definidas longe demais da costa, os projetos podem se tornar economicamente inviáveis”, antecipou Sérgio.

Para o conselheiro da BI Energia, o sucesso da eólica offshore no Maranhão depende de três pilares: regulação clara, engajamento com universidades e diálogo com comunidades locais. Esse alinhamento pode reduzir resistências, fortalecer a cadeia de suprimentos e criar um ambiente favorável para transformar o potencial do estado em investimento real.

O vice-presidente executivo da Federação das Indústrias do Estado do Maranhão (FIEMA), Luiz Fernando Renner, antecipou que está em negociação com a Fundação Aleixo Belov, da Bahia, a elaboração do diagnóstico da Economia do Mar no Maranhão, o que inclui atividades como a exploração de petróleo e gás na Margem Equatorial, energia offshore, pesca, turismo, entre outras.

João Leal, conselheiro da Associação Brasileira das Empresas de Economia do Mar (ABEEMAR), enfatiza que a economia do mar é vetor de desenvolvimento regional. “O Maranhão não se limita à pesca ou ao turismo, pois possui uma costa extensa, áreas de mangue relevantes e uma grande capacidade de articulação entre setor público, iniciativa privada e instituições de pesquisa. A nossa expectativa é de que o Maranhão possa se posicionar nessa nova fronteira energética brasileira”, frisou.