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No Nordeste, pesquisadores encontram planta carnívora rara que estava sumida há mais de 80 anos

Espécie Utricularia warmingii foi registrada pela primeira vez na região Nordeste e estudo alerta para o risco de extinção do ecossistema de lagoas temporárias

No Nordeste, pesquisadores encontram planta carnívora rara que estava sumida há mais de 80 anos

Uma descoberta botânica de grande relevância científica foi registrada no interior do Piauí. Uma espécie extremamente rara de planta carnívora aquática, a Utricularia warmingii, que não tinha novos registros em várias partes do Brasil há mais de 80 anos, foi encontrada pela primeira vez na região Nordeste. O achado ocorreu em uma área alagada conhecida como Lagoa do Bode, no município de Campo Maior.

O estudo que descreve o achado foi publicado na revista científica internacional Kew Bulletin, uma das publicações mais prestigiadas do mundo na área de botânica. A descoberta é fruto de uma pesquisa colaborativa liderada pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), com a participação de cientistas da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), da Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Funcionamento biológico e características da espécie

Diferente das plantas carnívoras terrestres mais conhecidas do público, a Utricularia warmingii é um organismo aquático que flutua livremente em águas calmas e rasas, não possuindo raízes verdadeiras. Para sobreviver em ambientes com solos e águas pobres em nutrientes, ela desenvolveu um mecanismo de nutrição altamente especializado.

A planta possui pequenas bolsas microscópicas chamadas utrículos. Essas estruturas funcionam como armadilhas de sucção sob pressão: quando um pequeno organismo aquático, como uma larva de mosquito ou um microcrustáceo, encosta nos filamentos gatilho da planta, a armadilha se abre e engole a presa em milissegundos, digerindo-a para absorver nitrogênio e fósforo.

Visualmente, a espécie é delicada, apresentando uma pequena flor predominantemente branca com nuances amareladas e uma sutil mancha avermelhada.

Alerta para conservação e lacuna de dados

Até então, os únicos registros da planta no território brasileiro estavam concentrados no Pantanal e em pontos isolados da região Sudeste. Contudo, muitas dessas populações antigas podem ter sido extintas devido à degradação ambiental. No estado de São Paulo, por exemplo, o último registro oficial da planta havia sido feito no ano de 1939. Fora do Brasil, a espécie tem ocorrências raras e fragmentadas em países como a Bolívia, Colômbia e Venezuela.

Com base nos novos dados de Campo Maior, os cientistas envolvidos na pesquisa revisaram o status de conservação da planta e propuseram sua classificação na categoria “Em Perigo” de extinção, seguindo os critérios globais.

O tamanho reduzido das populações conhecidas e o isolamento geográfico tornam a espécie extremamente vulnerável a impactos locais.

“As lagoas rasas e áreas úmidas onde essa planta se desenvolve estão entre os ecossistemas mais ameaçados do planeta”, apontam os pesquisadores no artigo publicado.

O avanço da fronteira agropecuária, o escoamento de fertilizantes químicos para os corpos d’água, a introdução de espécies exóticas invasoras e as alterações severas nos regimes de chuvas sazonais são as principais ameaças de curto prazo para a sobrevivência do habitat da planta no Piauí.

Para a comunidade acadêmica, o achado reforça que o interior do Nordeste, especialmente em suas áreas de transição ecológica, ainda guarda uma rica biodiversidade desconhecida pela ciência, demandando mais investimentos em expedições de campo e proteção ambiental.