Um dos festejos religiosos e culturais mais tradicionais do Maranhão, a Festa do Divino Espírito Santo de Alcântara volta a movimentar a cidade histórica neste mês de maio, reunindo moradores, visitantes e devotos em uma programação marcada pela fé, pelos rituais simbólicos e pela preservação das tradições populares maranhenses, no período de 13 a 25 de maio.
Reconhecida como uma das manifestações culturais mais importantes do estado, a festa mistura religiosidade católica, heranças do período colonial e elementos da cultura popular afro-brasileira. Durante semanas, as ruas de Alcântara se transformam em cenário para cortejos, alvoradas, visitas cerimoniais, missas solenes e apresentações do chamado Império do Divino, estrutura simbólica que reproduz uma corte imperial com imperatriz, mordomos e séquito.
Levantamento do mastro
Embora a festa entre a comunidade do Império tenha começado desde o dia 2 de maio, a partir do dia 13 ela é extensiva a turistas e visitantes, segundo os organizadores. O destaque da festa é o levantamento dos mastros, realizado nos dias 13 e 15 de maio, acompanhado por passeatas e manifestações culturais pelas ruas da cidade. Os mastros ornamentados representam a devoção ao Divino Espírito Santo e reforçam o caráter simbólico da celebração.
“No dia 13, o mastro enfeitado, que para a gente é sagrado, sai levado pelos adultos com as crianças em cima, percorre as ruas da cidade, passando pelas casas dos festeiros. Vale destacar que os adultos fazem uma disputa para carregar o mastro. Isso tem um simbolismo muito importante para nós da cidade”, disse Haroldo Jr., gestor da Casa do Divino de Alcântara e integrante da festa.

A Quinta-Feira da Ascensão, celebrada em 14 de maio, é considerada um dos momentos centrais do festejo. A programação inicia ainda de madrugada, com alvorada no Mastro da Imperatriz. Ao longo do dia, acontecem encontros dos mordomos, missa solene na Igreja de Nossa Senhora do Carmo e a coroação da Imperatriz, seguida de cortejo pelas ruas históricas de Alcântara. Outro ritual tradicional é a chamada “prisão dos mordomos”, encenação simbólica preservada ao longo das gerações.
Durante toda a semana seguinte, as noites são marcadas por missas solenes na Igreja do Carmo e visitas oficiais dos mordomos e mordomas ao Império do Divino, fortalecendo os vínculos comunitários e a tradição familiar que atravessa décadas.
No dia 22 de maio acontece a “Subida do Boi”, manifestação cultural bastante esperada dentro do calendário festivo. Já no dia 23, a programação inclui a distribuição de esmolas a idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade social, reforçando o caráter solidário e comunitário da festa.
O encerramento ocorre no Domingo de Pentecostes, em 24 de maio, com missa solene, cortejo do séquito imperial pelas ruas da cidade e a tradicional Procissão da Coroa do Divino. O momento mais aguardado é a Leitura do Pelouro, cerimônia em que são anunciados os nomes dos festeiros responsáveis pela edição de 2027, garantindo a continuidade de uma tradição secular.
O império representado por uma mulher em 2026
Em 2026, o secto imperial é composto por uma Imperatriz, Graça Lacerda; uma Mordoma Régia, Maria de Fátima Furtado; e mordomas e mordomos baixos, totalizando 11 pessoas. Cada um deles tem as suas casas de festa onde recebem visitantes e população durante os 12 dias de festa, utilizam roupas de festa e realizam um verdadeiro teatro ao ar livre. A festa é coordenada por Antônio do Livramento Boaes Tavares, o seu Antônio Coló.

A programação será concluída oficialmente no dia 25 de maio, com a entrega dos postos aos novos festeiros. No ano de 2027 o representante do império será masculino, seguindo a tradição do festejo de alternância.
“A festa do Divino de Alcântara é a alma do povo alcantarense, as pessoas se doam inteiramente para ajudar e construir essa tradição para que ela não pereça. Elas se doam e doam também alimentos, bebidas, tarefas. O Divino faz com que essa força, essa união continue para que o festejo aconteça. A fé sempre está em primeiro plano”, disse Haroldo.
O festejo representa um patrimônio cultural vivo do Maranhão. A celebração atrai turistas, pesquisadores e admiradores da cultura popular, consolidando Alcântara como um dos principais destinos do turismo religioso e histórico do estado durante o mês de maio.