Religião · Nossa Senhora de Fátima

13 de maio: entre a liberdade e a fé, resistência e devoção

Data rememora o fim do regime escravocrata e o dia de Nossa Senhora de Fátima, uma das devoções católicas mais populares entre os maranhenses.

Festejo de Nossa Senhora de Fátima. (Divulgação)
Festejo de Nossa Senhora de Fátima. (Divulgação)

No calendário brasileiro, o dia 13 de maio carrega dois significados profundamente simbólicos. A data marca a assinatura da Lei Áurea, em 1888, que aboliu oficialmente a escravidão no Brasil, e também celebra o Dia de Nossa Senhora de Fátima, uma das devoções marianas mais populares do catolicismo. No Maranhão, esses dois marcos encontram eco em um estado moldado pela fé popular, pela ancestralidade africana e pelas memórias de resistência que atravessam gerações.

Presente nos livros de História, o 13 de maio provoca reflexões sobre liberdade, dignidade e esperança. Em cidades maranhenses como São Luís, Alcântara, Codó, Viana e Cururupu, heranças africanas permanecem vivas na cultura, na religiosidade e nas manifestações populares que ajudam a contar a identidade do povo maranhense.

Embora a Lei Áurea tenha encerrado oficialmente o regime escravocrata, pesquisadores lembram que a população negra continuou enfrentando exclusão social, pobreza e racismo estrutural após a abolição. No Maranhão, um dos estados brasileiros que mais recebeu população escravizada durante o período colonial, especialmente para o trabalho nas lavouras de algodão e arroz, os reflexos dessa desigualdade ainda são percebidos.

Ao mesmo tempo, o estado também guarda fortes símbolos de resistência negra. Alcântara, por exemplo, abriga dezenas de comunidades quilombolas que mantêm tradições ancestrais e preservam modos de vida herdados de seus antepassados. Em São Luís, o tambor de crioula, o bumba meu boi e as festas do Divino revelam a força da cultura afro-maranhense e a mistura entre fé católica e religiosidade de matriz africana.

Na cidade de Alcântara, o festejo do Divino acontece neste dia 13 com o mastro percorrendo as ruas da cidade. “Nesse dia o mastro sai levado pelos adultos passando pelas  casas dos festeiros. Isso tem um simbolismo muito importante para nós da cidade. Desde a busca da madeira, até os enfeites, o levantamento…”, disse Haroldo Jr., gestor da Casa do Divino de Alcântara e integrante da festa.

80,9% dos maranhenses são pretos ou pardos

O Maranhão está entre os estados com maior proporção de população negra do país. Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), com base na PNAD Contínua/IBGE, apontam que cerca de 80,9% dos maranhenses se autodeclaram pretos ou pardos.

O Nordeste é a região brasileira com maior percentual de população preta autodeclarada, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE).  O Censo 2022 mostrou crescimento da população que se autodeclara preta no Brasil: o percentual passou de 7,6% em 2010 para 10,2% em 2022.

No Maranhão, municípios quilombolas possuem índices expressivos de população negra. Em Alcântara, por exemplo, o IBGE aponta uma das maiores proporções de população quilombola do Brasil. Já Serrano do Maranhão aparece entre os municípios brasileiros com maior percentual de moradores autodeclarados pretos.

Missas e homenagens a Nossa Senhora de Fátima

Para muitos maranhenses católicos, o 13 de maio também é um dia de oração. Igrejas dedicadas à Nossa Senhora de Fátima recebem missas, procissões e homenagens em diferentes municípios do estado. Em bairros de São Luís, como o João Paulo, Fátima e Cohatrac, comunidades católicas costumam reunir centenas de fiéis em celebrações que atravessam a madrugada e seguem ao longo do dia.

Na Paróquia e Santuário Nossa Senhora de Fátima, no bairro de Fátima, acontece o encerramento do festejo, a partir das 7h com celebrações até as 17h quando ocorre a procissão e a missa solene.

“Damos início ou mês mais esperado de todo, mês mariano, mês da nossa mãezinha Nossa Senhora de Fátima, que a nossa trezena seja repleta de amor e alegria, Que este festejo seja um verdadeiro convite para abrirmos o coração, confiarmos na intercessão de Nossa Senhora de Fátima e permitirmos que sua mensagem transforme nossas vidas, aproximando-nos cada vez mais de seu Filho, Jesus Cristo”, anunciou a paróquia ao iniciar o festejo.

A devoção à santa portuguesa, ligada às aparições ocorridas em 1917, em Fátima, Portugal, encontrou no Maranhão terreno fértil entre famílias que mantêm a tradição do terço, das novenas e das promessas passadas entre gerações. Em muitas casas, a imagem de Nossa Senhora de Fátima ocupa lugar de destaque ao lado de fotografias de família e objetos de fé.

Para a servidora pública Maria Célia dos Santos, festejar Maria é tradição católica na família. Minha mãe fez uma promessa para Nossa Senhora de Fátima quando tinha 30 anos e até hoje, aos 75, ela veste branco e azul no mês de maio. “Eu acho muito bonito e acompanhamos essa devoção”, disse.

E talvez seja justamente nessa combinação entre memória e espiritualidade que o 13 de maio ganha um significado especial no Maranhão. De um lado, a lembrança de um povo que lutou pela liberdade e deixou marcas profundas na cultura brasileira. Do outro, a fé que acompanha milhares de pessoas em meio às dificuldades cotidianas.