ACIDENTE AÉREO

O dia em que um avião sabotado caiu no Maranhão

O Arcebispo de São Luís, uma freira, um padre, um juiz, um jornalista e o piloto de um monomotor, juntos, caindo de uma altura de 400 metros – todos ilesos. Conheça esta história!

Parece piada de mau gosto, mas não é. Trata-se de uma história real e curiosa, ocorrida no interior do Maranhão. O dia era 9 de outubro de 1978, uma segunda-feira. Seis pessoas, entre religiosos, um juiz, um jornalista e o piloto de um monomotor, caíram de uma altura de 400 metros durante a volta de uma viagem em missão de paz, de Turiaçu a São Luís. Hoje, o causo é contado por quem viveu e sobreviveu ao susto.

A história deu pano para manga. Foi capa da edição do dia seguinte de O Imparcial e é contada 39 anos depois por Raimundo Borges, atualmente Diretor de Redação do jornal e o único passageiro ainda vivo. “Eu acho que é um caso raríssimo um caso de um jornalista que cai de um avião, não morre, escreve a reportagem e fotografa todo o ambiente”, relata, num tom que até hoje beira a surpresa.

Raimundo Borges, Diretor de Redação de O Imparcial, relembra a edição do jornal que noticiou o acidente

No avião, o Arcebispo da capital, na época Dom Mota, o juiz de Codó, José de Ribamar Heluy, o padre e chefe da Comissão Pastoral, Victor Asselin, a irmã Luciana Di Foggia, o piloto Ivan de Sousa, e o então fotojornalista Raimundo Borges. Todos milagrosamente ilesos, após a queda que durou, segundo relatos, minutos.

O grupo havia visitado Turiaçu, a 152 km de São Luís, na tentativa de apaziguar conflitos agrários que ocorriam no município. O impasse ganhou força quando camponeses, incentivados pelo padre Antônio Di Foggia, passaram a defender suas terras e matar búfalos soltos em seus roçados pelos fazendeiros recém-chegados na região. Inconformados com a revolta, os agropecuaristas deram início a uma onda generalizada de violência, que culminou em ameaças ao padre durante a missa dominical.

Temeroso, o religioso comunicou o conflito ao Arcebispo de São Luís em busca de proteção. Raimundo Borges, na época repórter fotográfico de O Imparcial, acompanhava os irmãos e o juiz para fazer a cobertura do encontro – uma forma de aviso aos fazendeiros de que Deus estava ao lado dos camponeses. “A Igreja Católica toda se reuniu em Turiaçu para dar apoio ao padre e aos trabalhadores rurais”, relembra Borges.

O acidente

Missa rezada e recado dado, na manhã do dia seguinte o avião com a turma já partia de volta a São Luís. Poucos minutos após a decolagem, o susto: o motor paralisou e levou o táxi aéreo rapidamente ao encontro da terra. “Eu vinha do lado da janela e olhava pro chão, e sentia aquele pavor da proximidade. A terra se aproximava da gente e a gente se aproximava da morte”, conta Raimundo Borges. Foi por pouco. “Com a graça de Deus”, o piloto conseguiu fazer com que o monomotor caísse numa área pantanosa, em Mirinzal. “A freira ao meu lado se agarrou ao cordão de São Francisco, era freira Franciscana. A oração era ouvida mesmo com toda devoção, com toda força. O avião caiu e a gente não sofreu nada”, lembra o jornalista.

Já em terra firme – ou melhor, no lamaçal -, o momento foi de comemoração. “O Arcebispo nos convidou pra ficar em cima do avião, dar as mãos e rezar o Pai Nosso. No meio da oração ele perguntou ao piloto se tinha algum risco de explosão”, relata Raimundo Borges. Afirmativo. Havia o risco de explosão, e Dom Mota precisou parar a reza: “Olha, meu Pai, já estamos agradecidos. Vamos embora, cair fora daqui”. Os seis foram levados a cavalo, por camponeses, até a sede da fazenda onde caíram.

Sabotagem

Após o acidente, a perícia constatou que durante o pernoite em Turiaçu, o tanque de combustível do avião havia sido sabotado com areia moída e capim. “Foi uma sabotagem num voo que era pra matar todo mundo, e a gente escapou diante de muitas orações”, conta Raimundo Borges.

As práticas comuns de pistolagem, assassinatos e torturas ocorriam – e até hoje perduram, nos rincões nordestinos – por conta de disputas pela terra e um conflito de interesses aparentemente inconciliáveis. “A Lei da Terra do ex-governador Sarney possibilitou a vinda pro Maranhão de inúmeros fazendeiros, grileiros, agropecuaristas, latifundiários de todas as matizes que vieram por conta da facilidade de aquisição de terras públicas”, explica Borges.

Sobre os riscos corridos, o jornalista enfatiza: “Isso é coisa da profissão, de saber que tinha algum risco quando a gente se dedicava à questão da terra. Quem entrava numa área dessas sabia que estava correndo algum tipo de risco”.

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