Entrevista

“A tecnologia evolui, e nós acompanhamos”, afirma o presidente da Faema, Raimundo Coelho

Em entrevista a O Imparcial, o presidente da Faema/Senar, Raimundo Coelho, fala sobre a evolução do sistema no Maranhão com a promoção da metodologia de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) que estimula o crescimento do estado

Foto: Reprodução

Importante para o desenvolvimento da agropecuária no país, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) é uma instituição vinculada à Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e, no estado, à Federação de Agricultura e Pecuária do Maranhão (Faema).

Com a missão de realizar a educação profissional, assistência técnica e atividades de promoção social, contribuindo para os avanços sociais no campo, o Senar tem promovido a metodologia de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) com resultados reconhecidos nacionalmente e visionados pelo Banco Mundial.

Em entrevista a O Imparcial, o presidente da Faema/Senar, Raimundo Coelho, fala sobre a aplicação da ATeG e os bons resultados obtidos durante o Programa Mapito (Maranhão, Piauí e Tocantins), que recebeu uma avaliação positiva do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). A boa performance apresentada pelo Senar-MA na execução do Mapito culminou com a sua inclusão no programa ABC Cerrado e em uma parceria com governo do estado para atender 1.550 propriedades rurais em cinco cadeias produtivas: arroz, horticultura, carne e couro, leite e aquicultura, que aumentaram a produtividade e a rentabilidade dos produtores rurais.

O Imparcial – Como surgiu o Senar? De que forma ele atua?
Raimundo Coelho – A Faema/Senar Maranhão tem acompanhado a evolução nacional do sistema, que desde o início envolve as federações e os sindicatos de produtores rurais. Nos anos 90, decidimos prestar serviço aos produtores rurais, algo que foi discutido em assembleia geral no Brasil, na qual eu participei como representante dos produtores rurais do estado do Maranhão. E lá nos foi colocado o diagnóstico nacional que dos anos 90 para trás o Brasil ainda importava alimentos. De lá para cá, o país passou a exportar produtos agropecuários. Nessa assembleia, ficou decidido que iríamos criar um serviço para incluir cada vez mais produtores rurais e seus trabalhadores nesse sistema de conhecimento. Na maioria das comunidades rurais, dos estados mais distantes das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, onde está concentrada a maior área de produção da agricultura sem tecnologia, portanto de baixa produtividade, resolveu-se criar uma instituição para fazer transferência de tecnologia, e essa instituição chamamos de Senar.

O Imparcial – Como o Senar passou a ser vinculado aos estados?
Raimundo Coelho – A partir do Projeto de Lei que foi para o Congresso Nacional, nós tivemos a responsabilidade, cada estado, de instalar o Senar nas federações. No Maranhão, começamos com uma equipe pequena, um profissional na área de pedagogia e três instrutores que levariam conhecimento para as comunidades rurais. Ampliamos esse trabalho, que foi evoluindo ao ponto de hoje estarmos levando tecnologia e não mais só os instrumentos antes utilizados. A tecnologia vai evoluindo e vamos acompanhando essa evolução até o ponto de estarmos dando aula de agricultura de precisão como acontece na região de Balsas. Essa é a evolução do Senar na área de formação profissional.

O Imparcial – A instituição também passou a oferecer cursos técnicos no Maranhão?
Raimundo Coelho – Nós instalamos no Maranhão, de início, três polos de cursos técnicos em Agronegócio, que é bem concorrido. Na região de Balsas, tem em torno de 200 a 300 candidatos para 30 vagas/semestre. Desses cursos, este ano, nós já formamos as três primeiras turmas de Balsas, Chapadinha e Colinas. É uma formação mais completa que integra tecnologia e gestão para transmitir conhecimento nas propriedades rurais. Esses técnicos já estão habilitados e providenciando seus registros no Crea para que possam ser empregados ou empreender em todas as regiões do estado.

O Imparcial – Como está o andamento do Cadastramento Ambiental Rural. Quadro atual da agricultura no estado?
Raimundo Coelho – O Cadastro Ambiental Rural (CAR) no estado do Maranhão não é fácil, porque nós temos, segundo a classificação nacional, três biomas: cerrado, caatinga e Amazônia. O nosso cerrado está dentro da Pré-Amazônia e é diferente dos outros cerrados do país, que tem 20% de preservação e 80% livre para produção. No Maranhão, o bioma cerrado, que é o maior de todos e onde se concentra a maioria da produção de grãos, sua área de preservação é de 35%, o que é uma desvantagem em relação a outros estados, porque sobra menos área produtiva. Já o bioma Amazônia é o mais complexo, porque a área de preservação ambiental é de 80%. Então, em uma propriedade de 1.000 hectares onde já se produz 50% ou mais, o proprietário terá que deixar de produzir em 80% dessa área para produzir somente em 20%. É um caos social. É um prejuízo enorme para o estado e para os proprietários ao ponto desse fator desvalorizar as propriedades e muitos venderem as áreas por preços inferiores e investindo em áreas menos férteis e mais difíceis de produzir, mas que se possa cultivar em um espaço maior da propriedade.

O Imparcial – Mas existe uma saída para expansão da agricultura sem impactos ambientais?
Raimundo Coelho – Sim. Tudo isso tem solução e depende de se fazer o Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE), porque o Código Florestal Brasileiro é muito rígido com a Amazônia Brasileira, exigindo 80% de preservação, mas existe uma abertura para os estados que queiram fazer sua própria legislação e diminuir a área de preservação até 50%. Para isso, é necessário que se faça o estudo do ZEE que vai verificar as potencialidades e as fragilidades do clima, do solo e outras coisas dessas áreas para poder transformar isso em um projeto a ser encaminhado para a Assembleia Legislativa. Muita gente ligada ao setor ambiental, às vezes, resiste a isso, imaginando que se está autorizando o desmatamento de 50%, mas na verdade é a área já utilizada que será reaproveitada para produção. Os estados como Amazonas, Pará e Acre já utilizam 50% da área amazônica para produção, só falta o Maranhão. Então, estamos orientando os nossos produtores a aguardar a concretização do ZEE para depois ver se o CAR já sai com 50% de preservação no bioma Amazônia.

O Imparcial – Como tem sido a relação da Faema com o sindicato e o produtor rural?
Raimundo Coelho – Os produtores rurais que estão nas bases dos municípios se reúnem com o sindicato, que é responsável por resolver as questões de âmbito municipal. Quando o problema extrapola a alçada do município, ele é encaminhado para a Federação e nesse caso se articula com o governo e com os órgãos estaduais, com a Assembleia Legislativa, e essa é nossa função. Quando se trata de casos típicos de conflitos agrários do tipo que envolve etnias, se busca os órgãos federais. Temos atendido muitas demandas dos sindicatos, principalmente com a crescente busca por conhecimento em que as empresas e os produtores rurais procuram por cursos sobre a atividade exercida. Temos feito todo o esforço, apesar dos recursos não serem tantos, para prioritariamente atender aos sindicatos e seus filiados, os produtores rurais. Além disso, também trabalhamos em parceria com os governos municipais, estadual e federal.

O Imparcial – Como o Senar tem feito para atender a todas essas demandas?
Raimundo Coelho – Fazemos reuniões municipais, regionais, levando informação aos produtores das comunidades rurais que são os que mais necessitam de conhecimento e transferência de tecnologia. Por meio do programa Faema/Senar em Campo, fazemos palestras mobilizadoras e levamos esse portfólio de serviços que o Senar pode estar prestando para eles, e isso aumenta muito a demanda. Então, entram as parcerias com as prefeituras por meio das secretarias municipais de agricultura, os sindicatos de produtores rurais, e às vezes entram outros sindicatos de trabalhadores, associações e igrejas que são instituições que tem conhecimento dos serviços do Senar e que geram a demanda que temos conseguido atender. Temos várias parcerias também com o governo do estado.

O Imparcial – Quais são os programas mais impactantes desenvolvidos pelo Senar em 2017?
Raimundo Coelho – Um importante programa é o Saúde da Mulher que, por meio de parcerias com as prefeituras e os sindicatos onde reunimos cerca de 200 mulheres em uma comunidade rural, realizamos exames de câncer de mama e de colo de útero. Também tem a entrega do kit de beleza para incentivar as mulheres a realizar os exames, pois algumas ainda resistem. Além disso, promovemos cursos na área de educação ambiental e outros na área de saúde.

Na Formação Profissional Rural, abrimos a assistência técnica por meio da metodologia de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG), que é outro programa que se iniciou em 2016 de forma experimental e requer recursos para viabilizá-lo, então procuramos instituições que queiram fazê-lo. O programa que o Senar nacional chamou de Mapito (Maranhão, Piauí e Tocantins) é onde cada estado trabalha um número de propriedades. A primeira experiência foi feita em 1.000 propriedades em parceria com o Sebrae, que financiou 50% do programa para que pudesse pôr em prática a ideia de assistência técnica e gerencial. Avaliação do Senar e do Sebrae constatou que o programa foi um sucesso nos três estados, com destaque para o Maranhão, que teve a melhor avaliação. Essa forma de transferência de tecnologia chamou atenção do Banco Mundial, que procurou o Senar para desenvolver o programa ABC Cerrado para fazer uma avaliação nas propriedades localizadas no cerrado. Se for positiva, a instituição promete ampliar os convênios com o governo brasileiro para que se possa estar aumentando o conhecimento pela metodologia ATeG. Para o Maranhão, foram designadas 400 propriedades, nas quais já estamos em fase conclusiva. Esse programa também despertou interesse do governo do estado, que tinha eleito 10 cadeias produtivas prioritárias no Maranhão. O governo destacou cinco delas (arroz, aquicultura, carne/couro, leite e hortifruticultura) para aplicar a metodologia ATeG. Assim, a aplicação de conhecimento e tecnologia aumentou a produtividade e a rentabilidade dessas cadeias produtivas.

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