Música

Entrevista com Caetano Veloso: dividindo o palco com os filhos

Cantor e compositor baiano fala sobre detalhes do show que faz com os filhos pelo país e também conta um pouco de sua trajetória

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Depois de cumprir o ciclo do Cê, entre 2006 e 2014, acompanhado por banda de jovens músicos, que gerou três discos, incontáveis shows e alguns prêmios — o Grammy Latino entre eles — Caetano Veloso participou de dois novos projetos. Comemorou o centenário de música, dele e de Gilberto Gil, com turnê pelo Brasil e exterior; e fez ainda uma série de apresentações, inclusive em países da Europa, Ásia e nos Estados Unidos, com a cantora Teresa Cristina. Agora, desde 3 de outubro, está ao lado dos rebentos no espetáculo Caetano Moreno Zeca e Tom Veloso.
Inquieto, o eterno tropicalista conta que há muito tempo tinha vontade de fazer música com os filhos publicamente e lembra que, na infância dos três, sempre cantou para eles dormirem. “Moreno e Zeca gostavam. Tom pedia que parasse. Indo por caminhos diferentes, todos se aproximaram da música a partir de um momento da vida. Quis cantar com eles pelo que isso representa de celebração e alegria”.
Após estrear no Rio de Janeiro e passar por São Paulo e Belo Horizonte, o show foi registrado em DVD, com lançamento previsto para 2018. Durante uma hora e meia, os quatro passeiam por um repertório de 28 canções. A maioria, obviamente, é de autoria do patriarca, mas há também contribuição dos filhos, por exemplo: Um canto de afoxé para o bloco do Ilê.
Há as sugeridas pelos filhos, outras remetem a momentos marcantes da trajetória artística e da vida de Caetano. A marchinha tropicalista Alegria, alegria, finalista do Festival da Record de 1967, apresentou o artista ao Brasil, foi solicitada por Moreno. Já, o pouco conhecido tema religioso Ofertório foi composto em 1997, a pedido da irmã Mabel, para a missa comemorativa aos 90 anos de Dona Canô, a saudosa matriarca dos Veloso.
No set list foram incluídas ainda a inédita Todo homem (Zeca Veloso), O seu amor (Gilberto Gil), Deusa do amor (Adailton Poesia e Valter Farias) e Tá escrito (Xande de Pilares, Carlinhos Madureira e Gilson Bernini). Reverente, Caetano destaca: “O show é dedicado às mães dos meus filhos e à memória de minha mãe”.

A ideia do Caetano Moreno Zeca Tom Veloso surgiu quando, como e por quê?
Faz uns três anos, comecei a pensar nisso. Há dois anos exatamente, era um plano em minha cabeça. Eu tinha feito aquele show com Moreno no Sesc de São Paulo e tinha sido maravilhoso pra mim. Zeca e Tom tendo crescido e começado a lidar com música também, quis fazer com os três. Primeiro não dava. Falei só com Paulinha (Lavigne), mas Tom estava começando na (banda) Dônica e ela não queria que eu criasse um projeto que podia atrapalhar. Passado um tempo, a Dônica já estabelecida, ela me disse que até poderia ser. Falei com Zeca. Ele me disse que não queria, que eu fizesse com Moreno e Tom. Eu: nem pensar. Um dia ele foi à casa da mãe dele e disse que estava pensando em aceitar. Quando ela me disse, fiquei feliz e pedi a ele que fosse à Bahia falar comigo. Só então falei com Moreno e com Tom. Aí tudo começou a andar. Quis isso porque eles são a coisa que mais amo no mundo e eu intuía que seria preciso um exercício de luz nesses tempos e na minha velhice.

Esse “nepotismo do bem”, como sugeriu Nelson Motta, provoca que tipo de sentimento?
Felicidade e aprofundamento da experiência da vida.

A jovialidade dos seus parceiros de palco — a exemplo do ocorrido na trilogia do Cê — com Pedro Sá, Marcelo Callado e Ricardo Dias Gomes — lhe instiga até que ponto?
Adoro estar com Pedro, Ricardo e Marcelo, mas estar com meus filhos não é só música. Ou melhor (porque estar com os outros três tampouco é só música), estar com meus filhos nem é música. É vida e alguma coisa mais.

Houve um consenso para a escolha do repertório?
Chegamos a um consenso. As possibilidades eram muitas. Mas terminamos escolhendo certo. Tem uma parceria minha com Tom que terminou não entrando e eu sinto saudade dos ensaios por causa dela. Mas o essencial está lá. Tem coisas que não estavam no meu plano, como Alegria, alegria, que Zeca insistiu em pôr no roteiro, ou O seu amor, que Tom pediu. Moreno tinha pedido Quando o galo cantou, mas as canções se centraram mais em temas de laços familiares, de história da origem da nossa gente, de convivência.

Qual foi o critério de escolha das canções?
O gosto e a adequação à situação especial.

Em recente participação no programa Altas Horas, você dividiu a interpretação de A luz de Tieta com Tatau, Ninha e Reinaldo, que estão reunidos no projeto Axé 90 Graus. Ao contrário de boa parte da crítica, que sempre viu a axé music como algo menor, esse gênero musical sempre teve a sua acolhida. Como vê o preconceito também nesse segmento?
Sou louco pela música de carnaval da Bahia. É uma história que vem desde os Filhos de Gandhi e Dodô e Osmar até os discos de Igor Kannario, os desfiles do Psirico e o Baiana Sistem. Com Danielas e Ivetes pelo meio. E Moraes Moreira no início de toda a nova fase que veio a ser apelidada de “axé”, primeiro pejorativamente por um jornalista idiota de Salvador, depois como afirmação em âmbito nacional da força soteropolitana.

No seu entendimento, o Tropicalismo, que comemora 50 anos, foi bem assimilado, bem compreendido?
Sim e não. Teve consequência irreversíveis. Conheceu vários estágios de sucesso e prestígio. Também sofreu agressões de vários lados. Muitas vezes foi bem compreendido, muitas vezes foi mal compreendido, muitas vezes nem foi compreendido.

Acredita que o movimento repercute até os dias de hoje?
Sim. Em vários níveis. Desde a reflexão acadêmica até a permanência de alguns temas na memória nacional, passando pelo reconhecimento por parte de artistas mais jovens da música global de ponta.

A ideia do prefácio atualizado da nova edição do Verdade tropical foi refletir o Brasil controverso de agora?
Não. Comecei apenas pensando que iria comentar o livro, seus erros e acertos, e narrar a história que se seguiu a seu lançamento. Mas fui escrevendo sem plano e entreguei um texto fragmentário.

Deste país de “perpétua convulsão” dá para extrair algo positivo?
Há de haver um meio, um jeito, um modo. Vamos ver.

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