Dia do Médico

Uma mulher forte e persistente. Conheça a história de Maria Aragão

A médica maranhense que deixou um legado de coragem, desprendimento e determinação, em época de fortes preconceitos e discriminações

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Em 1942, Maria José de Camargo Aragão, formada em medicina, começa a atuar na área pediátrica, especialidade que exerceu por dois anos, até ser devastada pela notícia de morte da filha, vítima de epidemia. A dor da perda afastou Maria do atendimento a crianças e a fez seguir carreira de ginecologista. Ainda no mesmo conturbado ano de 1944, entre perdas e mudanças, passa a frequentar reuniões do Partido Comunista. Ao participar do histórico comício de Carlos Prestes, fica encantada com a figura e a fala do líder comunista. Ali mesmo, decide se afiliar ao partido.

Retorno ao Maranhão

Desde 1934 no Rio de Janeiro, a maranhense de Pindaré-Mirim voltou ao seu estado 11 anos depois, com objetivo de organizar e fortalecer o Partido Comunista no Maranhão. Ela desenvolve intensa atividade política, com muitos comícios, escrevendo e distribuindo jornais e panfletos, além de manifestações nas portas das fábricas, conseguindo a marca de 2.600 filiados ao partido.

Com a notoriedade, as perseguições surgiram. Padres a chamavam de “besta fera” e mandavam tocar o sino a dobre de finados, símbolo da morte de alguém, quando Maria Aragão chegava aos municípios em suas muitas viagens ao interior.

Mesmo durante o período em que vigorou a Ditadura Militar, de 1964-1985, ela não abandonou a medicina, fazendo desta uma bandeira de luta. Foi presa pela primeira vez em 1951, durante a revolta popular contra a política de Vitorino Freire. Na época, Maria Aragão dirigia o Jornal “Tribuna do Povo”, que fazia duras criticas a Vitorino. Em maio de 1973 foi presa mais uma vez, levada pela Polícia Federal para Fortaleza, onde foi brutalmente torturada e solta em 08 der março de 1978.

Em São Luís, a Praça Maria Aragão foi projetada por Oscar Niemeyer e foi inaugurada em junho de 2004. Foto: Reprodução

Como médica, Maria Aragão, durante muito tempo atendeu de graça. Fazia atendimento nas casas dos pacientes e estes só pagavam sua despesa de transporte. Montou um consultório em sua residência, mas recebia pouco retorno financeiro pelas consultas. Em 1970, conseguiu uma vaga na Liga Maranhense de Combate ao Câncer, hoje Fundação Antonio Jorge Dino, que abriga o Hospital Aldenora Belo. Além disso, atendia também no Posto de Saúde do bairro do João Paulo.

Maria Aragão deixou um legado de coragem, desprendimento e determinação, em uma época de fortes preconceitos e discriminações. Maria José Camargo Aragão, faleceu em São Luís aos 81 anos de idade, em 23 de julho de 1991. Milhares de pessoas participaram do velório e enterro, durante o percurso entre a Assembleia Legislativa – onde o corpo foi velado – e o Cemiterial do Gavião.

Sua história familiar

Maria José de Camargo Aragão nasceu em 10 de fevereiro de 1910 em Engenho Central, no Pindaré-Mirim, interior do Maranhão. Ela era a terceira filha, em uma família de sete irmãos.

Seu pai, Emídio Aragão, descendente de africanos, trabalhava como guarda-fios da Companhia de Telégrafos. Uma profissão arriscada, mas que era realizada com empenho. Sua mãe, Rosa Camargo, mesmo sendo analfabeta, foi decisiva na educação e formação dos filhos. “A fome só vai desaparecer desta casa, se vocês estudarem”, dizia a matriarca.

Foi sua mãe quem decidiu ter uma residência fixa em São Luís, com a preocupação de oferecer um estudo de qualidade para os filhos. Maria Aragão cursou o primário, hoje ensino fundamental, na capital e fez exame admissional para estudar no Liceu Maranhense. Em geral, nessa época, todas as meninas cursavam o ‘Normal’, que era a formação para professoras. Mas, Maria, já sentia o desejo de cursar Medicina. Cursou o ‘Ginasial’, que dava o direito de prestar vestibular.

Mesmo com a Medicina em primeiro lugar, Maria Aragão fez o curso ‘Normal’, conforme a vontade de sua mãe. Foi aprovada como aluna brilhante e de destaque. Em 1927, a partir de lei que permitia a estudantes de 17 anos cursar o ‘Ginasial’ em dois anos, ela consegue fazer o curso em uma espécie de supletivo e recebe certificado.

Quando se torna médica

Com sua mãe doente, precisando de cuidados médicos, se mudam para o Rio de Janeiro, na tentativa de começar um tratamento indicado pelo Dr. Carlos Macieira. Em julho de 1934, Maria chega ao Rio com a mãe, que morre pouco tempo depois.

É após a morte de dona Rosa que Maria decide começar o curso de Medicina na antiga Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sem recursos, passa por vários sacrifícios e, por pouco, não desistiu do curso, seu grande sonho.

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