TRAGÉDIA GREGA

“Mandala”, novela censurada, completa 30 anos

Transportada para o Rio de Janeiro do Século XX, a história começa nos anos 1960, onde a jovem comunista Jocasta se apaixona perdidamente por Laio, um rapaz rico e excêntrico

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Dias Gomes sempre gostou de desconstruir tabus. Carregado de consciência política e disposto a mexer em vespeiros sociais, ao longo de 30 anos de televisão, o autor falecido em 1999 tornou-se um ruído necessário na teledramaturgia. Após a morte da esposa, Janete Clair, em 1983, Dias pisou no freio. As ideias continuavam a surgir, mas o novelista agora se limitava a idealizar e implementar as novelas, para depois deixá-las nas mãos de fiéis escudeiros. No início de 1987, preocupado com a novela das oito que deveria entregar, Dias recorreu a “Édipo-Rei”, tragédia grega escrita por Sófocles por volta de 427 a.C, para criar “Mandala”, que completa 30 anos de exibição neste mês. “O Dias tinha uma visão muito particular. Ele realmente não conseguia conceber novelas de forma industrial como outros autores. A premissa dessa obra era extremamente ousada. A questão do incesto era e ainda é muito forte. Mas encarei a empreitada de assumir a trama depois do capítulo 26. Se eu tivesse sido um pouquinho mais esperto, teria recusado”, afirma Marcílio Moraes, co-criador do folhetim e responsável pelos 159 capítulos restantes.

Transportada para o Rio de Janeiro do Século XX, a história começa nos anos 1960, onde a jovem comunista Jocasta se apaixona perdidamente por Laio, um rapaz rico e excêntrico, papéis da estreante Giulia Gam e do então galã Taumaturgo Ferreira. Ao descobrir que a amada está grávida, Laio consulta seu Guru de confiança e fica desesperado com os presságios sobre o filho. Segundo os búzios de Argemiro, papel de Marco Antônio Pâmio, a criança iria crescer, matar o pai e ter um caso com a mãe. Desesperado, Laio some com a criança logo após seu nascimento. O menino é criado por estranhos e Jocasta torna-se uma mãe obstinada a encontrar o filho perdido.

“A temática da novela criava um misto de curiosidade e medo no público. Fiquei muito feliz quando o papel chegou até mim, mas não tinha ideia de como era estrear como protagonista em uma novela das oito. A minha vida mudou de uma hora para outra. Jocasta foi um furacão. Um papel difícil, mas que me abriu horizontes”, relembra Giulia.

Pouco mais de 25 anos depois, Laio, agora interpretado por Perry Salles, enveredou pelo universo do jogo do bicho e ampliou os esquemas ilícitos de sua família. Procurado tanto pela polícia quanto por seu principal rival na contravenção, o espirituoso Tony Carrado, de Nuno Leal Maia, ele está prestes a fugir. Em uma briga de trânsito, porém, encontra Édipo, de Felipe Camargo. Desnorteado, Laio começa a agredir o jovem. Durante a briga, Édipo não sabe que Laio é seu pai e acaba empurrando o bicheiro em um precipício. Criado em Brasília, Édipo se muda com a namorada, Letícia, de Lúcia Veríssimo, para o Rio de Janeiro. Acompanhando a amada em uma entrevista de emprego, ele conhece Jocasta, agora interpretada por Vera Fischer, a atraente diretora de uma grande empresa. A atração dos dois foi nítida e imediata. “Os bastidores da trama eram muito tensos, mas o personagem era incrível. Édipo sofria com os poderes mediúnicos que insistiam em se manifestar. Apesar de tentar, ele não conseguia fugir de seu destino”, explica Felipe.

Os bastidores de “Mandala” tiveram emoções dignas de um “novelão”. A novela sofreu com a censura militar desde a sinopse, que acusou a trama de subversiva e de fazer apologia a assuntos inadequados como uso de drogas, bissexualidade e incesto. A Globo prometeu que a história passaria por adaptações e conseguiu a liberação. No entanto, durante a exibição, os censores tentaram cortar diversas cenas importantes da história, como o primeiro beijo entre Jocasta e Édipo. “A cena só foi liberada depois que a gente justificou que os personagens não sabiam que eram mãe e filho”, relembra o diretor geral Ricardo Waddington. A audiência em declínio após a virada para a segunda fase e as críticas à novela foram abafadas pela paixão fulminante envolvendo os protagonistas Vera e Felipe, sendo que, até então, Vera era esposa de Perry Salles. “Ficamos muito envolvidos com toda aquela história e aconteceu”, assume Vera, sem grandes detalhes. Com gravações iniciadas em Brasília e fixadas nos estúdios e externas da Globo na capital carioca, “Mandala” teve grandes destaques em seu elenco, formado por nomes como Marcos Palmeira, Bia Seidl, Osmar Prado, Deborah Evelyn, Jayme Periard, além dos saudosos Walmor Chagas e Raul Cortez, mas ficou mesmo eternizada por conta da canção “O Amor e o Poder”, interpretada por Rosana, e que embalava o romance impossível entre mãe e filho. “Criei um final coerente com o desenvolvimento da história. Se os dois ficassem juntos, a morte dos personagens seria inevitável”, ressalta Marcílio Moraes. No final, mãe e filho acabam se afastando. Jocasta se entrega ao amor de Tony, enquanto Édipo decide ficar com Letícia.

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