97 anos de atividades

Armarinho A Moderna mantém tradição na Rua Grande

Oferecendo artigos de artesanato e costura e, neste ano, a empresa foi homenageada pela Associação Comercial do Maranhão

Foto: Honório Moreira/ O Imparcial

A Rua Grande, tradicional comércio de São Luís, abriga diversas lojas onde antes era tomado por residências formadas por casarões e sobrados, alguns datados do século XVII.
No início do século XX, o coração do comércio de São Luís ainda era o bairro da Praia Grande com a atividade atacadista. A Rua Grande também tinha sua importância comercial, porém, em menor proporção, no segmento varejista. Com o tempo, a Rua Grande se esvaziou como área habitacional e virou referência no comércio varejista.
É nesse ambiente de grande aglomeração comercial e movimento diário de pessoas, que ainda podemos encontrar um antigo negócio familiar, o armarinho A Moderna, administrado por Samira Mattar Rahbani, 3ª geração a se dedicar à loja, que foi inaugurada em 1920.

Com 97 anos de atividades ininterruptas, a empresa Rahbani & Cia Ltda (A Moderna) foi mais uma vez homenageada pela Associação Comercial do Maranhão, na tradicional homenagem à empresa com mais de 50 anos de atividades com o mesmo CNPJ no Maranhão.

Samira Rahbani, de 60 anos, tem avós e pai nascidos no Líbano. Seu pai Mikhael Rahbani veio ao Brasil para dirigir a loja dos tios e casou-se com a prima em segundo grau, Mabel Rahbani. O casal teve cinco filhos.

Antes da Rua Grande, A Moderna funcionou na Rua Portugal, onde permaneceu até a década de 30, quando foi transferida para um sobrado na Rua Grande, residência da família. “Meus avós moraram aqui, minha mãe e meus tios nasceram aqui. Ainda na década de 30 a loja foi transferida para cá”, conta Samira.
O negócio foi administrado pelos seus avós até a morte do patriarca da família em 1964. A parir de então a loja foi assumida pela avó e pelos pais de Samira, Mikhail e Mabel Rahbani. Com o falecimento da avó, uma irmã de Samira entrou na sociedade com os pais. Com o casamento de sua irmã, quase ao final da década de 70, a médica passou a ser sócia dos pais e a conduz o negócio, paralelo ao exercício da medicina.

Foto: Honório Moreira/ O Imparcial

Mas a relação de Samira com a loja vai além de um negócio de família, trata-se de uma ligação afetiva construída desde a infância. Apesar de ter uma profissão e trabalhar como médica, a proprietária do armarinho tem 55 anos de vínculo com o negócio, pois desde os cinco anos ela ajudava nas tarefas da loja. “Nossas férias eram em algum lugar, como cozinha, arrumação da casa ou na loja. Eu preferia vir para a loja, onde eu vendia botão e outras coisas que uma criança de cinco anos podia fazer. Alguns clientes faziam questão de ser atendidos por mim. É a recordação que eu tenho da minha infância”.

Samira morou no casarão na Rua Grande até os oito anos. O local funcionou como ponto comercial e moradia até o final da década de 70. No início da década de 80, o casarão passou a funcionar exclusivamente como ponto comercial. A loja passou por ampliação na década de 80, com expansão no espaço de atendimento e estoque.
Como outros comércios da Rua Grande, o armarinho também sofreu com arrombamentos e furtos nos anos de 2012 e 2013. A situação forçou a proprietária a melhorar a segurança, todas as portas e janelas do antigo casarão foram reforçadas com grades e cadeados.

Tradição em artigos para artesanato e cultura

Dos diversos tipos de linha, botão, zíper, alfinete e outros artigos, A Moderna ainda tem como clientes habituais os alfaiates e costureiras. “Nós ainda temos o antigo hábito de trabalhar com alfaiatarias que abastecemos com linha, botão, zíper, entretela e ombreiras. Tudo que um alfaiate ou costureira precisam para fazer um terno, uma calça, uma camisa ou um vestido, nós temos”, aponta Samira Rahbani.

De acordo com a proprietária, A Moderna tem clientes tradicionais e clientes de ocasião que buscam a loja pela primeira vez. “A gente tem preço, produto e qualidade. Temos produtos, como os botões, que os fregueses fazem questão de nos procurar por saber que ele não vai descascar. Para o 7 de Setembro, nós fornecemos botões para uma banda inteira”, observa Samira.

Luzia Borralho, enfermeira, 67 anos, é cliente do armarinho desde a década 80. Vaidosa e simpática, ela diz que compra com regularidade alfinete, linha e botão. “O atendimento e a qualidade dos produtos são de primeira linha, por isso venho sempre aqui”, confessa.

A loja é tradicional em zíper. O local trabalha com zíper em metro, uma inovação da época do pai de Samira, ofertado por um fabricante. “Nós temos zíper de todos os tamanhos. Se uma pessoa quer comprar um zíper de dois metros, que não tem como encontrar pronto, aqui se prepara. Assim como um zíper de 5 centímetros”.
No armarinho também é possível encontrar artigos para bolsas, como cadarços e cordões, material para elaborar detalhes em vestidos e as tradicionais linhas que são muito procuradas. “Temos as linhas de crochês para fazer tapetes, vestidos, biquinis e sapatinhos. Tenho uma cliente que compra muito linha para fazer sapatinhos de crochê e eu compro dela para revender aqui”, afirma.

Sobre as dificuldades ao longo da existência negócio, a empresária relata que sempre se passa por instabilidades em tempos de recessão econômica, mas que também é uma oportunidade de crescimento no segmento. “A crise desse período, graças a Deus, não chegou muito aqui. Nós temos muito material para artesanato que acaba sendo uma alternativa usada para quem está desempregado e que busca confeccionar crochê, bordado, ponto de cruz e trabalhos com feltro. Hoje o forte mesmo é o feltro e as linhas para crochê”.

Atualmente, a loja possui quatro funcionários, mas já teve cinco. Samira conta que só há necessidade de mais colaboradores quando o movimento está muito grande no final do ano, quando se contrata trabalhadores temporários.
A empresária estuda algumas adaptações de mercado para seu negócio. Mas acredita que inovação precisa ser feita com cautela. “Fui aconselhada a fazer uma loja virtual, delivery e outras coisas. Mas não podemos abraçar tudo de uma só vez, tem que ser por partes. Isso exige certo estoque. Os fretes são caros, os impostos são altos, a carga trabalhista é alta e temos que considerar e superar tudo, antes de qualquer inovação”, conclui.

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