Arte pública ameaçada

Protesto #VoltaPraCasa pede retorno da Mãe d’Água à Praça Pedro II

Ator e performer Uimar Jr está com uma nova campanha de alerta à preservação dos monumentos públicos da cidade por meio do protesto #voltapracasa

Reprodução

Os monumentos nas ruas e praças de São Luís que são de acesso livre à arte pública estão ameaçados. O alerta está sendo feito pelo ator e performer Uimar Júnior, que em todos os trabalhos que apresenta há quase quatro décadas sempre traz um cunho de consciência político-cultural que remete a uma causa, conceito ou uma situação cotidiana.

O ator que já viveu vários personagens inventados por ele, como, por exemplo, Catirina, Havaiana, Robô Celcenter, Homem Pedra, Estátua Revista Parla, Rato Passarela, A Bolsa Bofe, Jornal Racional, Crussificântara, Urubu Latino, 30 anos Guarnicê, Busto de Sousândrade, Cristo Vivo, O ET Gay, O Pássaro Rangedor, A Sereia Revoltada, Mulher Babaçu, Chernobil e o Foguete que nunca subiu, Louco Folia, Lagarto, Charles Chaplin, Feia Como Quê…, Manguda, Estátua Protesto, Cazumbá, Minotauro, Do São João ao carnaval…. Com uma parada no Natal…quer um panettone?, tem chamado a atenção em suas apresentações com protesto #voltapracasa, uma campanha para o retorno da escultura em bronze da Mãe d´Água feita por Newton Sá, que ficava na Praça Pedro II. Assim como os bustos das personalidades maranhenses que ficavam na Praça do Patheon foram retirados e que estão no Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM), sob a guarda da Academia Maranhense de Letras (AML), a escultura da Mãe d´Água ganhou o mesmo destino. Tanto a escultura da Mãe d´Água quanto os bustos imortais maranhenses apenas voltarão para seus lugares assim que as duas praças forem dotadas de segurança para receber os objetos.

Em entrevista a O Imparcial, Unimar Júnior lembrou que na época que a estátua da Mãe d’Água foi retirada a Prefeitura de São Luís justificou que a mesma havia sido levada para o museu para evitar atos de vandalismo. “Já ouvi vários argumentos sobre este assunto, inclusive do subprefeito do Centro Histórico de São Luís sobre os motivos que levaram o município retirar a escultura que embelezava a Praça Pedro II. Um deles é que a retirada foi para dar segurança à Mãe d´Água, pois ele percebeu que alguém poderia roubá-la. Outra versão que também ouvi é que estão esperando a execução do projeto do Programa de Aceleração das Cidades Históricas (PAC), e só depois da reforma ela voltaria para seu local de origem. Outra justificativa que foi dita por terceiros, é que a retirada pode ter sido feita por questões de ideologias religiosas etc”, disse o ator, explicando que estas foram alguma das razões que o motivaram a fazer o protesto #voltapracasa.

Unimar Junior afirmou ainda que se faz necessário repensar a política de preservação e cuidado com os momentos público de São Luís. Para ele, há muito descaso e não há o respeito que a arte pública merece ter. Segundo Uimar Júnior, os nossos monumentos não estão sendo tratados como deveriam ser. Ou seja, com respeito e segurança. E que não há manutenção em determinados monumentos da cidade. “Agora há pouco fui visitar o monumento no Vinhais, a estátua de Guaxenduba, e está preste a desabar. O Sabiá do artista plástico João Ewerton foi retirado do retorno do São Cristóvão sem que pelo menos informassem ao artista. Pior, nem o devolveram e nem sabem onde foi parar. Tinha uma outra escultura do Newton Sá na praça que fica perto da Capitania dos Portos e também foi retirada sem que ninguém saiba onde está. Os canhões da Pedra da Memoria estão jogados no pátio do Palácio dos Leões. Rles argumentam que não faziam parte da obra original e assim foram retirados. Os bustos da Praça do Phanteon foram para o museu da Rua do Sol. Bem o que se falta é colocar os nossos guardas municipais para vigiarem nossos monumentos. A função é deles e esta na constituição federativa que os guardas municipais foram criados para guardar nosso patrimônio. Não vemos nenhum circulando em nossas praças”, denuncia o artista.

Seis perguntas para Uimar Jr

Sua trajetória é marcada por performances que tornaram-se polêmicas. Por quê?
É a mídia me chama de polêmico, ousado, irreverente. eu gosto. Queira ou não eu sou, acho que desde a Coletiva de Maio de 1991 quando fiz a escultura viva o homem nu com arte que sou chamado assim, na época um escândalo e queira ou não foi um marco nas artes plástica do Maranhão. A arte no maranhão está dividida em dois tempos: antes da Coletiva de Maio de 1991 e depois. Foi sem dúvida um grande marco nas artes. Ate então muita gente não sabia o que era performance, instalações .. eu apenas fiz um trabalho de estatuas para retratar as esculturas feitas pelos gregos aquela época do Século IV e V, que retratava nus. Quis fazer original. Mas foi um grande avanço na minha carreira. Hoje sou respeitado como um dos pioneiros do estatuísmo no Brasil

Como você analisa o seu papel nesse processo?
Eu faço o que muitos não tem coragem. Só sei que procuro sempre nas minhas performances dá recados quer seja social, político ou politico social e faço de frente. Sem medo mesmo que doa a quem doer! Recentemente fiz a Mãe d`Agua. Acho que era o que todos queriam fazer e recebi o apoio de todos. Me parece que todos estava engasgados. E eu dei esse grito de revolta de não aprovação da sua retirada. Esse grito era o que todos queriam dar também. A performance criou asas com repercussão a nível nacional e olha que nem precisei da imprensa lá de forma. Foi só as redes sociais que repercutiram em Curitiba, Belém, Rio, Fortaleza, São Paulo… Recebi apoio e tive matérias jornalísticas publicadas em vários blogs.

Quais foram as performances que tiveram mais repercussão?
Muitas performances repercutiram como por exemplo, O Pássaro Rangedor que foi protesto que fiz por canta da destruição de uma Área de Proteção Ambiental que fixa localizada dentro da Reserva do Rangedor, no Cohafuma onde os próprios deputados criaram a área e três anos depois foram lá e construíram a atual sede da Assembleia Legislativa do Maranhão. A Mulher Babaçu também foi à Assembleia Legislativa dizer não às derrubadas dos babaçuais em terras urbanas. Na época um deputado havia criado uma lei para aprovação. Felizmente a lei não foi aprovada. Além de outras como A Escultura Viva, O Homem Nú, O Netuno, quando retirado da fonte do ribeirão entre varias que também alcançaram repercussão…

A arte serve para?
Para mim a arte está a serviço da humanidade. Faço arte não para competir com ninguém. A minha arte é universal. Faço arte para melhorar o mundo. Conscientizar, e dizer que podemos ter vidas melhores. Minha arte é de protesto sim! Para buscar dias melhores…

Quais são os seus próximos projetos artísticos?
Em 2018 faço 40 anos de arte e estou com um projeto para uma exposição de arte – A Arte Camaleoa – Uimar Junior, o performance onde se vai ver muita coisa, fotos e matérias de jornais e premiações , críticas e etc. Estou montando o espetáculo – O Vãndalo e o busto, e um recital de poesias com 25 poetas maranhenses.

Uimar Júnior por Uimar Júnior…
Acho que quem dá a lição, dá o pão. Não tenho rabo preso em nada. Talvez isso me deixe falar o que quero. Acho que tenho a aprovação do público em geral em tudo que eu faço. Sinto que são meus maiores admiradores. Me sinto fortificado com isso… Acho que tenho os nãos declarados…

SOBRE UIMAR JÚNIOR

A trajetória artística de Uimar encarna pelos inúmeros prêmios que já recebeu. Nascido na cidade de Codó – MA Ele começou na arte cênica aos dezoito anos, movidos pelas orientações do professor Cosme Júnior, quando era aluno da tradicional Escola Técnica Federal do Maranhão. A partir de então, participou de inúmeras peças teatrais, dentre as quais: Incursão a Flor do Lácio, Reisado, ABC da cultura maranhense, Aves de Arribação, Professor Pardal e o Cachimbo da paz, Andar … sem parar… de transformar, A revolta dos Perus, Barrela. Durante sua passagem pelo Rio de janeiro em temporada com o monólogo – Mare Memoria do escritor José Chagas no Teatro da Praia atuou em: O Conquistador, Aprendiz de Feiticeiro e o Gato de Botas. Discípulo do eminente Professor Reynaldo Faray também deixou história na dança e na coreografia, quando atuou em: Marémemóris, Nordestinados e Chapeuzinho Vermelho. O criador da Escultura Viva foi classificado no 8º Festival Nacional de Monólogos em São Paulo. Na década de 1990 na Coletiva de Maio no Maranhão, recebeu prêmio pela performance Escultura Viva, que virou cartão postal. Uimar produziu também Chega de meio Ambiente, lute por um inteiro e Busto Vivo ou Atenas Brasileira, que recebeu os primeiros prêmios e foi destaque Nacional. No 14º Festival de Guarnicê de Cine-vídeo, atuou em Terra Sem Chuva, de Jorge Macau, interpretando um louco. Seus trabalhos tem sempre um recado a dar quer seja social , politico ou politico social com beleza e faz da arte sua frente de protesto.