Além dos crimes

O lado de fora das celas do Complexo Penitenciário São Luís

Diariamente, famílias se deslocam até a penitenciária de São Luís para um gesto fraterno de abraço, carinho ou afeto com parentes aprisionados

Reprodução

Nas primeiras horas do dia, pessoas acordam, deixam o orgulho de lado, demonstram a tristeza no rosto, colocam algumas roupas e comidas em sacolas e seguem até o Complexo Penitenciário São Luís, para ajudar a quem eles mais amam: filhos, netos, sobrinhos, maridos e até mesmo amantes. Seja nas primeiras horas da manhã ou da tarde, lá está a figura de um parente levando alimentos, roupas ou um simples abraço.

Acompanhamos uma manhã de visitas, em que parentes enfrentam filas e a espera para poder chegar naquele momento em que laços se unem e o preconceito se rompe. As histórias são diversas, mas o propósito é o mesmo. Ao chegarmos na entrada do complexo, encontramos um senhor, José Raimundo, de 74 anos, que vestia uma camisa social já desbotada pelo uso, uma bermuda azul e tinha várias sacolas nas mãos. Meio desengonçado com tantas sacolas, ele ria de si mesmo. “Acabei de deixar a comida e os cigarros para meu neto, agora, vou deixar para minha filha”.

José Raimundo se considera um atleta de carregar sacolas com comida para os dois familiares que estão presos. A filha já está há um ano na cadeia, e o neto foi preso recentemente. Os motivos das prisões ele não quis informar.

“Minha filha foi presa há um ano e meu neto, há um mês. A coroa lá de casa não vem porque tem vergonha, e o pai do meu neto foi assassinado. Então, só resta a mim vir cuidar deles. São da família, não posso deixá-los só”, acrescenta.

Próximo ao bebedouro do complexo, encontramos Carli Nanda, de 19 anos, sentada em um dos diversos bancos do lado de fora do complexo. Com um vestido curto, amarelo, cabelo bagunçado e bem cabisbaixa, ela diz que sempre vai visitar o irmão, junto com a mãe, e confessa ter vergonha de entrar no local. Por isso, ela usa entorpecentes para ir na visita, como uma forma de amenizar a situação. “Cara, meu irmão preso, sacas? (sic) Isso dói pra caramba. Pra acompanhar mamãe até aqui, eu tenho que beber e usar algumas paradas, porque a vergonha e a dor são muito fortes. Prefiro nem entrar, não consigo imaginar meu irmão preso”, afirma.

O motivo da prisão do irmão de Carli foi o assassinato do pai, dentro de casa. O crime aconteceu ano passado, na região do bairro Cidade Operária. “Ele estava andando com uma galera meio estranha lá na Cidade Operária e começou a usar droga pesada. Um dia, ele chegou lá em casa armado e papai bateu nele, então, ele sacou a arma e o matou. Desde a morte de papai, tanta coisa ruim tem acontecido. Quando estou sob efeito da erva, tudo melhora. Ainda venho nesse inferno porque mamãe me pede”, pontua Carli Nanda.

Já F. L., de 35 anos, aproveitou a ausência do marido para visitar um dos detentos, com quem tem relações íntimas. A visita ao amante, no dia dessa entrevista não saiu como esperado porque ela ficou menstruada. “Meu marido está para o interior e resolvi fazer uma visitinha a um conhecido daqui e adivinha? Menstruei”.

No fim da manhã, Maria Victória, de 57 anos, sai da penitenciária com uma sacola de potes vazios, em direção à parada de ônibus. É a segunda vez que o filho dela foi preso em menos de um ano. A visita foi mais uma programação que ela teve que incluir na rotina e que nunca se acostuma. “Meu filho foi preso ano passado e passou 45 dias, agora, foi preso há mais ou menos um mês pela segunda vez. Acostumar ninguém nunca acostuma. O primeiro dia parece que você vai explodir de vergonha, é um constrangimento tamanho. Mas é filho, ele saiu da minha barriga e o amo. Se eu não estiver com ele, quem vai estar?”.

Mesmo amando o filho, ela afirma que, se pudesse, não voltaria, mas, enquanto ele estiver preso, será necessário, aproveitando assim o dia de folga para levar algo para o filho. “Todo dia, sonho com a sua liberdade. No fundo, não quero voltar, mas, se ele estiver aqui no próximo sábado, novamente virei para abraçá-lo e por algumas horas cuidar do meu garoto, confiante que um dia ele sairá dos caminhos errados”, finaliza Maria Victória.

Sistema de visitas

Uma Portaria Unificada padroniza o sistema de visitas dentro do complexo penitenciário. Atualmente, as unidades UPSL 1 a 5 contam com o bodyscan, raquete de rastreio, esteira, pórtico e aparelho de raios X, equipamentos que são utilizados para diminuir eventuais problemas. O método ajudou a identificar pessoas que pretendiam entrar com drogas e celulares nos presídios. Dados da Secretaria de Estado e Administração Penitenciaria mostram que, de janeiro até agosto, 17 pessoas foram presas, das quais, 49 com drogas e celulares. Neste período, foram encontrados cinco celulares e 1,563kg de entorpecentes.

Segundo a Secretaria de Estado e Administração Penitenciária, as visitas ao Complexo Penitenciário São Luís, acontecem sempre em salas especificas, exclusivas para os encontros ecomodidade das famílias. Elas só acontecem por meio de autorização judicial e é levado em conta também o grau de parentesco, como explica o secretário de Estado de Administração Penitenciária, Murilo Andrade de Oliveira. “Todas as visitas são autorizadas por meio da Portaria 206/2016, pelo Decreto 27.640/2011. Para fazer a visita, o solicitante tem que ter até 2º grau de parentesco ou ser companheiro (a) do preso. Caso não atenda aos dois pré-requisitos estabelecidos pela portaria, é preciso que o solicitante faça uma avaliação junto à Supervisão de Assistência às Famílias (SAF). É pedido o comprovante de residência, RG, comprovante da SAF e o requerimento se o preso aceita ou não a visita, sendo que este é encaminhado para ele responder. O visitante tem uma resposta em até oito dias, se pode ou não fazer a visita”.

Já as visitas íntimas têm o processo de autorização diferente, também devem ser apresentados documentos e é necessário um kit de higiene pessoal. Nesses casos, a revista acontece normalmente, atendendo a critérios que a portaria unificada estabelece e depois é levada a uma sala onde o preso está.“Depois de apresentado o certificado de união estável e os outros documentos que são solicitados durante uma visita comum, a visitante vai até a unidade no dia marcado de visita íntima e deve apresentar junto com a solicitação, documentos e o kit higiene pessoal”, pontua o secretário.

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