Cinema Maranhense

‘Memórias de um Ladrão de Almas’ terá sessão hoje no Maranhão na Tela

O curta, documentário ficcional, narra a história do fotógrafo aposentado José Ribamar Lima ao longo de seus 30 anos de memórias

Reprodução

Roubar almas através da captura de uma fração de luz. Assim os mais antigos dão conta do ato de fotografar. É esta a temática que inspira uma das novas faces da produção audiovisual maranhense, Carolina Bruzaca, a produzir o curta-metragem “Memórias de um Ladrão de Almas”, que terá seus pouco mais de 26 minutos exibidos nesta sexta-feira (25), às 18h, na tela do Cine Praia Grande durante a Mostra Maranhão de Cinema do 10º Festival Maranhão na Tela.

O curta narra a trajetória do fotógrafo aposentado José Ribamar Lima, que guarda memórias de mais de 30 anos de registros. Carolina Bruzaca conta que a ideia de realizar a produção surgiu a partir de um encontro com Seu José num banco da cidade, no início do ano. O fotógrafo já era um conhecido de infância da produtora audiovisual, por fotografar eventos da escola onde estudava. “No meu tempo, sem câmeras digitais ou smartphones parceláveis nas lojas de departamento, a gente criava expectativa em torno das fotos que ele tirava da gente brincando, estudando ou nos eventos. Quando ele chegava com a maleta de fotos era uma algazarra, todo mundo revirava junto os montes de fotos atrás das suas, era sempre engraçado e de uma partilha estar ali com as outras crianças relembrando os momentos”, explica Carolina.

Carolina Bruzaca, entretanto, afirma que foi só a partir das entrevistas realizadas com Seu José que o filme começou a ser gestado, contrariando a pré-produção regada de expectativas de que o fotógrafo traria respostas ternas em relação ao seu trabalho e às pessoas que tinha fotografado. “Quando parti pras entrevistas me desiludi completamente pois vi como ele é material, como qualquer pessoa. Isso me levou a uma velha ideia sobre como todo mundo que trabalha com imagem acaba sujando as mãos de certa maneira, ao criar representações alinhadas naturalmente ao processo criativo de cada um”, relata a produtora.

Marcante, o título “Memórias de um Ladrão de Almas” surge a partir das vivências de Carolina Bruzaca em dois terreiros nos quais a produtora costuma filmar. “Dona Carol quer roubar a gente na máquina dela”, dizem as figuras que são personagens das filmagens. “O ladrão vem daí, e das minhas leituras sobre antropologia da imagem, onde nos primórdios da fotografia muito se especulava sobre o ato sombrio de congelar a vida das pessoas em papel”, relata Carolina. O “Memórias”, explica a produtora, vem do carinho pela palavra.

A produção, um documentário ficcional, mescla ainda a poética narrada pela atriz Karol Maverick, que faz uma série de reflexões que dialogam com os lugares e falas dos entrevistados. “O lance dessas pinceladas ficcionais são pra ilustrar toda essa subjetividade das memórias que continuam habitando lugares que já não existem, pessoas que já não existem, ou lugares que ainda existem mas não do mesmo jeito de outrora. E principalmente pra dar representação aos ladrões de almas”, pontua Carolina Maria. Contribuíram para a construção do curta, também, Adna Cardozo, na direção de arte, Jerlyson Hugo, na montagem, Ico dos Anjos, no som, Giovani Guterres, do Laboratório de Comunicação da UFMA (LABCOM), e Namybua Aick, no set.

Carolina Bruzaca, uma nova face

É impossível negar que a cena da produção cinematográfica maranhense tem deslanchado nos últimos tempos. Prova disso é a quantidade de material – com qualidade técnica relevante – apresentada em mostras e festivais no estado. Uma das figuras que fazem jus ao status do cinema local é Carolina Maria Bruzaca. A produtora cinematográfica e estudante de Serviço Social, de 22 anos, sempre trabalhou com o universo imagético em diversas vertentes artísticas. “Foi quase natural ter entrado nesse universo, assistindo as produções daqui. Lembro de ter assistido ‘Eparina’s’ do Dom, num Sebo no Chão de 2016 e ficar encantada, ou assistir produções de colegas e pensar ‘eu teria feito de outro jeito, e tô tão incomodada que farei'”, conta Carolina.

A produtora, que já possui outros curtas como “Jaguar“, com Lucas Maciel, e “Titia vai sair“, já teve produções exibidas em outras mostras. A participação no Maranhão na Tela, entretanto, é a primeira experiência num festival desta magnitude. “Pelos meus critérios o filme iria pra competitiva, mas parece que preciso comer mais feijão com arroz para tal”, comenta.

Para um futuro não tão distante – torcemos -, Carolina diz que espera achar o caminho das pedras preciosas e filmar suas crianças crescendo em outros documentários que tem feito. “Tem crescido a vontade de estudar fora. A primeira condição (no meu caso) pra ser uma cineasta maranhense é deixar o Maranhão, veja que tragédia. Mas ainda tenho muita coisa importante pra fazer aqui. Em outubro vou lançar outro doc, sobre religiosidade de matriz africana, mas no tempo certo falo mais sobre. Tô filmado várias coisas ao mesmo tempo, e vivendo pouco”, finaliza.

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