São João

Conheça o espetáculo do tambor de crioula

Dança que tem uma combinação de som envolvente com dança inconfundível é uma das maiores tradições do período junino do Maranhão

Por: Da Redação
Foto: Reprodução

É São João no Maranhão! A programação cultural dos arraiais espalhados por todo o estado é longa. Tem bumba meu boi, quadrilhas, cacuriá e, claro, o tambor de crioula mostrando todo o gingado envolvente das coureiras.

O ritmo inconfundível dos tambores é uma das danças mais tradicionais do folclore maranhense e atrai sempre olhares com muita admiração. Presente em festas durante o ano todo, a dança traduz com simplicidade a força de uma cultura nascida nas senzalas e quilombos. Em Santa Maria de Guaxenduba, no litoral do município de Icatu, a 103 km de São Luís, ritmo saiu das senzalas e ganhou força. Icatu é considerado um dos berços da cultura maranhense. Nessa região, o tambor de crioula é sustentado pelos festejos, realizados nas comunidades. Na dança, temos a roda de tambor que mais parece uma luta e onde só entram homens que são popularmente conhecidos como os pungas. Eles mostram que têm tanto molejo e gingado quanto às coureiras do tambor de crioula.

Quem toca o tambor dita o ritmo da dança e a dançarina do meio da roda é quem escolhe a próxima mulher a ocupar o espaço através da “punga”. Quando a dançarina do centro quer passar o bastão para outra, ela se dirige até a escolhida e aplica-lhe a “punga”, que consiste em um toque com a barriga. Assim, começa um novo ciclo da dança.

A roda de tambor é um espetáculo repleto de cores e tecidos fluídos. Além das saias coloridas, normalmente produzidas de chita, as mulheres usam blusas brancas muito amplas adornadas por rendas, colares, flores nos cabelos e turbantes, uma explosão de cores e texturas. Já aos homens, responsáveis por tocar o tambor, cabe uma indumentária mais sóbria, apenas uma calça escura e uma camisa larga.

A lenda

Por trás da história, tem uma lenda muito importante, segundo o pesquisador e historiador, José Almeida. “No auge da batalha, quando os portugueses contavam que tavam perdidos, apareceu uma senhora radiosa apanhando a areia da praia e colocando nas armas dos portugueses, como se a areia virasse munição, daí a grande vitória. Houve um saldo de mortes muito grande na batalha, 150 franceses, 1.250 índios tupinambas e no lado dos portugueses só 11 mortes. Daí vem a lenda de ajuda da Nossa Senhora da Vitória”, conta.

A lenda permance até hoje na história dos moradores de Santa Maria, como também a paixão pelo tambor de crioula. “Através da dança africana que os escravos expressavam o seu sofrimento, adivindo da precariedado do exílio, principalmente quando saíam das senzalas”, adita o pesquisador.

Som envolvente

A dança fala mais que as notas da percussão. O som é envolvente e atravessa séculos para se manter único. As batidas do tambor de crioula ecoam para anunciar que, em São Luís, nasceu a tradição negra vinda dos tempos da escravidão. Ela encanta e também fascina.

Em reconhecimento à importância histórica do tambor de crioula, essa grande expressão recebeu, em 2007, o título de Patrimônio Cultural do Brasil. O registro tornou o tambor de crioula uma referência cultural a ser preservada, considerada fundamental na formação do povo brasileiro.

A roda de tambor

Uma roda de tambor é composta sempre por um conjunto de três tambores chamado parelha. São eles: tambor grande ou rufador, meião ou socador e crivador ou perenga. O meião é o tambor que sempre inicia os toques, possui um ritmo que deve ser muito bem marcado e definido. Seguindo o meião, vem o som do crivador agudo e repicado no contratempo. Por último, entra o tambor grande, o tambor da virada e dos improvisos marcando a punga. O crivador e o meião são tocados com o tocador sentado em cima dos tambores e o tambor grande é tocado entre as pernas do tocador preso por uma corda na cintura. Junto com os tambores é utilizada também a matraca, dois pedaços de madeira batidos no corpo do tambor grande.

A parelha de tambor de crioula pode ser confeccionada de duas maneiras, com a madeira tirada do mangue do “Burdãozeiro”, do “Soró”, da “Fava”, ou da “Siriba” brocada e queimada por dentro ou com PVC. O tambor de PVC tem a sua confecção mais prática, sendo um tambor mais leve do que o de madeira e menos custoso. Sua utilização aumentou muito nos últimos anos devido a proibição da retirada da madeira em áreas de proteção ambiental, porém a qualidade do seu som é inferior à do tambor de madeira e os mais tradicionais não os consideram original. Para encorar o tambor é necessário colocar ele de molho de um dia para o outro para que ele fique bem molinho. O couro utilizado pode ser de boi ou de veado, sendo o de boi de uso mais comum.

Curiosidade

As cantorias são improvisadas e as vezes até demais. A dança feita em São Luís é diferente da dança feita, por exemplo, em Icatu. Inclusive, se em São Luís tem mais as mulheres dançando, em Icatu, são os pungas, liderados por homens com movimentos ensaiados que precisam ter uma atenção redobrada.

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