COM M MAIÚSCULO

Mulheres guerreiras: de sexo frágil, elas não têm nada

Lucilene Miranda, Ildelene Andrade e Ilda de Jesus Seguins, autônomas, só algumas das muitas Marias, Anas, Terezas, Lúcias, Raimundas que travam uma luta diária na nossa selva de pedra

Foto: Reprodução

O cantor e compositor Erasmo Carlos disse em uma de suas composições o seguinte verso: “Dizem que a mulher é um sexo frágil/mas que mentira absurda…”. Rita Lee, compôs Cor de Rosa e cantou: “Sexo frágil/não foge à luta…”. É disso que vamos falar neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher: sobre ser forte e frágil ao mesmo, sobre coragem, honestidade, responsabilidade e orgulho. Orgulho de serem mulheres batalhadoras.

Para ouvir as histórias de algumas dessas mulheres que de sexo frágil não tem nada, fomos às ruas do Centro da cidade. Em meio ao cotidiano urbano, à correria, quase não as vemos, não prestamos atenção. Elas vão e vêm com sacolas, caixas, carrinhos de mão, suor, luta e resignação no rosto.

Confesso que quando comecei a produzir a pauta achava que ia encontrar mulheres trabalhadoras, mas sofridas, que iriam se lamentar pelas condições que a vida lhes tinha proporcionado. Mas, não. Encontrei mulheres simpáticas, fortes, decididas, orgulhosas de seus trabalhos, orgulhosas de suas independências. Mulheres que aprenderam que na vida nada vem de graça e que tiveram que se adaptar para serem o homem e a mulher da casa. Mulheres que nos deram uma lição de vida. Mulheres que são MULHERES, em maiúsculo!

Confira as histórias de Lucilene Miranda, Ildelene Andrade e Ilda de Jesus Seguins, autônomas, só algumas das muitas Marias, Anas, Terezas, Lúcias, Raimundas que travam uma luta diária na nossa selva de pedra.

“Tenho minha independência”

Foto: Honório Moreira

Quando falamos que a matéria era para o Dia Internacional da Mulher, a vendedora de água de coco Lucilene Miranda, de 38 anos, já foi logo arrumando os cabelos. Ao lado de guardanapos, canudinhos e cocos, seu material de trabalho, repousa uma bíblia, segundo ela, inseparável, pois é a ela que sempre recorre.

Sempre – eu disse sempre- com o sorriso no rosto, ela foi contando sua história. Tem quatro filhos, entre 24 e 17 anos, de pais diferentes. Mora na Cidade Olímpica e acorda às 5h da manhã. Leva uma hora e meia para chegar ao local de trabalho.

Quando chega, vai ao depósito onde deixa o carro de vender o produto. Sobe a Magalhães de Almeida até a Praça João Lisboa empurrando o carro. Depois de tudo pronto, começa a venda, às 8h. Lá fica até as 5h da tarde. Volta para a Magalhães de Almeida para deixar o carrinho e, finalmente, volta para casa.

Pergunto se alguém a ajuda. Ouço um tímido não. “Mas eu não reclamo não. Se tenho a oportunidade de trabalhar, se tenho um lugar para isso e se tenho quem compre, tá tudo certo (risos)”, diz Lucilene.

Ela, que já foi vendedora de salgados, cozinheira de restaurante e está há 1 ano vendendo cocos, diz que seu sonho é ter o próprio restaurante. “Comprei esse carro, trabalho para mim agora, para sustentar a família. Sempre sustentei com o meu trabalho. Sempre gostei de cozinhar. Ainda quero ter um restaurante e sei que eu vou conseguir. Sempre consegui as coisas e é só lutando que a gente consegue, e eu nunca fugi da luta”, afirma.

“Minha luta é honesta”

Foto: Honório Moreira

Encontramos Ildelene Andrade, de 27 anos, empurrando um carrinho. Dona de um corpo franzino, rosto e mãos calejados pela força de trabalho, a vendedora de produtos diversos descia a ladeira rumo ao seu posto de trabalho: a esquina de uma rua no Centro. Peço para ela parar um pouco. Ela dá um suspiro, um sorriso, enxuga o rosto com as mãos e fala da sua luta.

“Com prazer”, ela diz. “Tenho três filhos pequenos, de 11, 10 e 8 anos. Sou pai e mãe deles. Eu que sustento, dou de tudo. Há 5 anos trabalho na rua como autônoma e é de lá que tiro o nosso sustento. Preciso trabalhar e isso me dá muito orgulho”, conta.
Todos os dias, com chuva ou sol, ela acorda às 4h da manhã. Mora na Cidade Olímpica, precisa arrumar os filhos para a escola e os leva com ela. Por sorte, eles estudam no Centro também. Às 7h30, já está no seu local de trabalho, de onde só vai voltar com os filhos para casa às 19h30. “É uma vida dura, sofrida (desce suor da testa), cansativa, mas não reclamo. Considero-me uma guerreira por conseguir cuidar dos meus filhos. Tenho um trabalho digno, honesto, e é o que eu tenho, o que Deus me deu. Se não fosse o preconceito de algumas pessoas, porque sou vendedora e trabalho na rua, estava tudo certo. Mas a minha luta é honesta”, diz.

“Nada na vida vem fácil”

Foto: Honório Moreira

Há 17 anos dona Ilda de Jesus Seguins, 54 anos, vende café da manhã e lanches nas calçadas das ruas do Centro. O trabalho começou com a mãe e depois ela, que precisava de dinheiro para ajudar a sustentar os quatro filhos, também entrou para o ramo. Quando ela acorda para trabalhar, muitos ainda nem dormiram. É às 2h50 da manhã. Ela prepara as garrafas de café, leite, faz cuscuz, misto, bolo, beiju.

Arruma tudo, e às 5h pega o ônibus. 6h já está na rua com a barraquinha montada.
Dona Ilda diz que acorda todo dia disposta. E conta tudo isso com tanto orgulho…. “Eu gosto de trabalhar. Nada na vida da gente vem fácil. Comecei porque precisava pagar as contas, mas hoje tenho o maior prazer de fazer tudo isso. Eu tenho 54 anos, pressão alta, e se eu ficar em casa vai ser pior porque vou adoecer. Gosto de sair, de ver gente, de conversar… e isso eu encontro aqui no trabalho e agradeço muito a Deus por me dar essa oportunidade, de ter saúde e um lugar para trabalhar. Mesmo quando o dia é cansativo, eu chego em casa satisfeita porque sei que sou útil”, ensina.

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