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NEGÓCIO DA CHINA

Clubes maranhenses lucram com o jogador Dyego Sousa

A transferência internacional do atacante Dyego Sousa para o futebol chinês acabou se constituindo num grande desafogo na metade deste ano para três clubes maranhenses

Divulgação

Revelar jogadores nas categorias de base continua sendo um dos melhores investimentos dos clubes profissionais do futebol, grandes ou pequenos. Jovens talentosos existem em todas as regiões, nas periferias das capitais e no interior. Basta serem preparados com  paciência para renderem resultados técnico e financeiro positivos a médio ou longo prazo. Esta fonte de recursos é de enorme significância.

Quem lucra no Maranhão

A  transferência internacional do atacante Dyego Sousa para o futebol chinês acabou se constituindo num grande desafogo na metade deste ano para três clubes maranhenses por onde o jogador passou: MAC, Moto Club e Americano. Tudo aconteceu com a saída do atleta, agora  naturalizado português, do Sporting de Braga para o Shenzhen Football Club, da China, por 5,4 milhões de euros no ano passado. Descontados os valores pagos ao empresário do profissional, a saída ficou em torno dos 4,9 milhões de euros, segundo informou o clube luso. O processo  para chegada  dos recursos aos clubes locais é que foi demorado. O atleta, que chegou ao futebol chinês quando seu novo time já estava ameaçado de rebaixamento, não teve tempo de evitar a degola,  apesar do seu bom desempenho, tanto que acabou sendo emprestado ao Benfica, de Portugal, onde continua nesta temporada 2020.

O clube maranhense mais  beneficiado com a transferência de Dyego foi aquele onde ele  esteve por mais tempo nas divisões de base: o MAC. Descoberto durante a Copa Lítero e revelado pelo Americano aos 15 anos,  o jovem talento que passou pelo Moto esteve dois anos no Maranhão Atlético. Por esse detalhe,  o Quadricolor recebeu, no mês passado, R$ 600 mil, dinheiro que deu para pagar os honorários do escritório de advocacia  no Rio, e ficar com pouco mais de R$ 500 mil. Ao Rubro-negro restou a quantia de R$ 126 mil e ao Americano R$ 47 mil.

MAC paga dívidas  e reforça elenco

“Essa quantia chegou em boa hora ao Maranhão Atlético, num momento em que estávamos realmente necessitando. Afinal, somos cumpridores de nossos compromissos financeiros,  temos vários parcelamentos e aproveitamos para colocar as contas em dia. Pagamos boa parte, continuamos atualizando os pagamentos e, o que restou,  grande parte foi aplicada na contratação de reforços”, revelou o presidente atleticano Robson Paz ao confirmar os recursos oriundos da transferência de Dyego Sousa.

Há dívidas até com o Condomínio MAC Center, área do clube onde funciona um shopping. “É muito difícil manter um time de futebol, mas vamos levando e mantendo a tradição de ser um clube que cumpre aquilo que assume com seus atletas e credores. Foi assim que aplicamos o recurso recebido da transferência de Dyego”, informou.

Como ocorre com outros clubes, o Maranhão vinha funcionando de forma bastante deficitária. Com os recursos recebidos, conseguiu atualizar os salários dos atletas que permaneceram  neste período de interrupção do Estadual e trazer mais dez reforços.

Ainda sobre Dyego Souza, ele nem chegou a ser titular no Maranhão Atlético, mas sua transferência rendeu muito mais que outros jogadores  revelados pelo clube, que acabaram indo para grandes centros por valores muito inferiores. Há casos em que atletas até foram embora e o MAC não recebeu absolutamente nada. Agora, com a existência do Mecanismo da Solidariedade, o clube pretende fortalecer ainda mais sua política de valorização da garotada da casa. “Esse é o caminho. O Maranhão já é um clube que prestigia suas divisões de base porque mesmo sabendo que não é fácil montar uma estrutura,  a tendência é termos o retorno, seja negociando para outros estados ou reforçando nossa equipe principal. Ano passado conseguimos revelar bons valores no sub-19, sendo que quatro deles estão à disposição do elenco que vai disputar os jogos restantes no Estadual deste ano. Então, nosso projeto é dar sequência a esse trabalho”, concluiu.

Moto esclarece sobre o valor recebido

O presidente do Moto, Natanael Júnior, ficou surpreso com os boatos que circularam dando conta de que o clube teria recebido cerca de R$ 1 milhão na transferência  de Dyego. Ele afirma que coube ao clube apenas R$ 126 mil. “Tivemos quer pagar os honorários do empresário e advogado Fifa e o que restou está sendo gasto em despesas para o retorno das atividades do clube na próxima fase do campeonato”, informou.

O dirigente reafirma que o Moto continua deficitário. “Administrar um clube nesse  tempo de pandemia é realmente desesperador. São muitas despesas e a cada dia o déficit vai aumentando. Só nos resta acreditar no apoio de nossa torcida, que não vai poder comparecer ao estádio, mas  espero que nos ajude nas transmissões on line dos jogos que deveremos fazer, ao preço de dez reais, individualmente. Nossa previsão é de que conseguindo oito mil telespectadores vamos alcançar a soma de R$ 80 mil”.

O Moto também pretende ampliar seu número de sócios. A meta é atingir um mínimo de dois mil associados a R$ 20, o que proporcionará uma arrecadação de R$ 40 mil. Mesmo assim, estas cifras ainda estão longe de zerar o déficit. O Papão, além de disputar a próxima fase do Campeonato Maranhense irá participar da Série D do Brasileiro a partir de setembro. “Nosso elenco é bom, mas precisará ser reforçado quando formos disputar a competição nacional. Só não estamos numa situação pior porque tivemos uma pequena quota de participação na Copa do Brasil e uma outra ajuda da CBF nesse intervalo provocado pela pandemia”, resumiu Natanael.

Americano continua exportando atletas

O vice-presidente do Americano, Valmir Pinheiro, confirma que  a pequena fatia que coube ao clube não retrata o trabalho que este teve com  Dyego desde quando o descobriu na Copa Lítero. Ele conta que antes de sair de São Luís o garoto mesmo tendo mostrado suas qualidades desde os 15 anos de idade,  teve de ser muito persistente para chegar aonde se encontra.  Indicado inicialmente ao Moto, não teve a  atenção que merecia. Por isso, foi parar no Maranhão Atlético,  onde também não teve muitas oportunidades. Nem chegou a ser titular no time principal,  mas pelo menos foi onde demorou mais tempo treinando, até “meter a cara no mundo” e tentar a sorte em outros centros. Passou por diversos clubes no eixo Sul/Sudeste,  cresceu e foi negociado  com o Sporting de Braga (Portugal), que vais tarde o transferiu para  o futebol chinês. “O Americano vai receber uma mixaria porque ele passou só três meses registrado no meu time, embora tenha ficado mais de um ano comigo. Não prestigiaram  tanto Dyego no Moto.  No Maranhão ele só ficou na base, nunca o aproveitaram no profissional. Eles nem sabiam da existência dessa venda e dos valores. Eu que os procurei e passei a informação. Estava tudo sendo feito na surdina entre o Sporting e o time chinês, mas como tenho amizade com  o pai de Dyego, então fui informado. Até o advogado quem conseguiu fui eu, de Recife. Não é fácil. Tem que ter escritório especialista nisso. O Moto se interessou logo e esperava uma quantia maior. Se futuramente Dyego tiver outra negociação, novamente os clubes onde ele esteve até 23 anos vão receber sua parte. Esse direito de solidariedade da Fifa é muito importante, até porque a entidade comunica logo à CBF. Já perdemos muito dinheiro por não procurarmos nossos direitos”, acrescenta.

Valmir informa que ao longo dos anos o Americano tem garantido sua sobrevivência com as transferências de jogadores para clubes maiores. “Agora mesmo tenho um garoto do bairro Bom Jesus,  que atua no time do Ceará, um atacante que já está no profissional. Rick Jônatas tem 19 anos, é atacante e pode ser negociado a qualquer momento”, prevê.

Valmir encerrou o papo com a reportagem informando que o Benfica tem três maranhenses no seu elenco: Carlos Vinicius (artilheiro), Elano e Dyego Sousa. Lembrou que outro atleta daqui (Derlei), que esteve no Madureira, deixou no ano passado o Marítimo (Portugal) e foi para a Turquia. Lindoso, do Internacional-RS, é outro bom exemplo.

Jogador Dyego Sousa. Foto: Reprodução

O Mecanismo de Solidariedade

O Mecanismo de Solidariedade da Fifa, também chamado de Mecanismo de Solidariedade por Formação de Atleta, é um dispositivo previsto no Regulamento de Transferências da entidade, criado no inicio dos anos 2000 com o objetivo de incentivar os clubes a formarem atletas. Permite que até 5% do valor total de cada transferência internacional seja dividido proporcionalmente a todos os clubes pelos quais aquele atleta passou até completar 23 anos.

Os 5% são divididos da seguinte forma:

  • Temporada do 12º ao 15º aniversário: clube leva 0,25% da compensação total em cada ano.
  • Temporada do 16º ao 23º aniversário: clube leva 0,5% da compensação total em cada ano.

Como funciona

Para ter direito ao mecanismo de solidariedade, o clube precisa atender de forma concomitante aos seguintes requisitos:

– Fornecer programa de treinamento nas categorias de base;
– Fornecer complementação educacional;
– Estar com o atleta em formação inscrito por pelo menos um ano;
– Comprovar que utilizou o atleta em competições oficiais;
– Garantir assistência educacional, psicológica, médica, odontológica, bem como alimentação, transporte e convivência familiar;
– Manter alojamento e instalações desportivas em condições adequadas;
– Manter corpo de profissionais especializados;
– Ajustar o tempo destinado a efetiva formação (nunca superior a quatro horas diárias) ao horário escolar, exigindo do atleta presença e satisfatório aproveitamento;
– Ser a formação gratuita para o atleta, ou seja, às expensas do clube;
– Comprovar que participa, anualmente, em pelo menos duas categorias de campeonatos oficiais.
– Cada vez que ocorrer uma transferência de um jogador que se encontre ainda em contrato com o atual clube, cabe a negociação de valores onde o clube contratante paga ao clube de origem.
– Tratando-se de uma transferência internacional, cabe o direto do clube formador em pleitear o seu proporcional. A comprovação desse direito deverá ser feita mediante a apresentação do Passaporte do Jogador.
– Nem sempre o clube formador tem informação sobre as subsequentes transferência de um jogador depois que ele sai desse clube. Esta informação pode chegar ao clube formador através do próprio jogador, notícias veiculadas pela imprensa ou sites como o mecanismo de solidariedade da FIFA.
– A CBF certifica os clubes que atendem os requisitos citados como “Prática Desportiva Formadora”. – No momento da transferência, basta o clube formador apresentar este certificado para que possa fazer valer o direito a este dispositivo.
Quem é Dyego

Dyego Wilverson Ferreira Sousa tem 30 anos e nasceu em São Luís. Seus familiares moram na Vila Embratel,  região do Bacanga. Começou a carreira no Americano, aos 15 anos, passou pelo Maranhão Atlético e Moto. Depois, transferiu-se para o Andraus, do Paraná. De lá, para o Operário Ferroviário-PR, por empréstimo, mas não chegou a jogar.

Na temporada de 2010/11, no Leixões, de Portugal, Dyego Sousa se tornou o primeiro clube profissional do atacante no país. Ele entrou em campo 15 vezes e anotou três gols. Em 2012, o Interclube, de Angola, o comprou por 150 mil euros, mas o jogador nunca entrou em campo pelo clube. Dyego voltou para Portugal na temporada de 2012/13 para vestir as cores do Tondela. Marcou quatro gols em 30 jogos. Um ano depois, transferiu-se para o Portimonense, no qual somou sete bolas na rede em 31 ocasiões.

Em 2014/15, começou a defender o Marítimo e ficou lá por mais tempo (três anos, até 2016/17). Jogou 80 partidas e fez 25 gols. No Braga, o maranhense  fez sucesso e por ser naturalizado português vestiu a camisa da Seleção. Foi negociado com o futebol chinês e agora está emprestado ao Benfica.

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