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Para que serve falar na psicoterapia?

Rênan Ferreira - Psicólogo

Antes de mais nada, vamos contar uma história. Viena, no final do século XIX, Sigmund Freud — você, com certeza, já ouviu esse nome. Na Áustria, do século XIX, a medicina não compreendia a origem e como resolver a demanda da histeria. As pessoas, sobretudo as mulheres, estavam ficando cegas, apresentando movimentos involuntários, estavam sem andar, sem se movimentar, e sabia-se que não era físico. Então, qual era o problema? A medicina da época não conseguia resolver. Freud ficava intrigado com essa realidade. Conheceu Charcot, um médico francês que usava práticas fora da medicina, que a ciência não aceitava na época, e ele dava resultados com essa prática. Que prática era essa? A hipnose. Ele reunia várias mulheres e pessoas que estavam padecendo com esse mal e, para seus pares médicos, demonstrava a indução hipnótica.

E o que você acha que acontecia com uma pessoa que estava cega, ou paralisada, ou com movimentos involuntários durante a hipnose? É isso mesmo, pasmem: regulavam os sintomas. Quem estava cego, enxergava; quem estava sem andar, andava; e quem estava com movimentos involuntários, regulavam. Freud, mais uma vez, ficou muito surpreso e fascinado com aquela experiência e decidiu se tornar aluno de Charcot. Depois, ele conheceu um outro médico chamado Josef Breuer, que avançou um pouco mais. O caso clínico mais emblemático atendido por Josef Breuer foi o da paciente Anna O., de dezembro de 1880 a junho de 1882. A morte do pai dela, em abril de 1881, causou um agravamento do quadro, manifestado por mudez e recusa alimentar, fatos que foram publicados apenas em 1895, em “Estudos sobre a Histeria”.

É importante pontuar que Charcot, em 1878, utilizava a hipnose na Escola de Salpêtrière com foco na investigação nosológica. Por outro lado, Josef Breuer, em 1880, aplicava a técnica no Método Catártico, com objetivo terapêutico. Vale lembrar que Sigmund Freud só iniciou seus estudos sobre hipnose com Charcot em 1885. Breuer avançou e conseguiu conversar com aquelas pessoas. Mas, na frente, Freud usou um pouco a hipnose, depois a abandonou e começou a trabalhar a escuta.

Anna O., paciente que Breuer foi médico assistente, não comia, ela se isolava, ela não falava. Até que um dia, Anna O., aos berros e aos gritos, falou conteúdos profundos. Adivinha o que aconteceu? Anna O. melhorou de quadro. Neste ponto, uma grande “virada de chave” mudou a história de toda a humanidade. Entendeu-se que falar ajuda no processo de melhora de quadro. Hoje no século XXI, em 2026, todos nós já ouvimos em algum momento. Está com um problema emocional, tem até uma expressão: desabafa com alguém. Porém, era século XIX, lembra, Viena, final do século XIX. Naquele momento histórico, a medicina teve uma reviravolta e foi um início, um marco. Freud se torna o pai da psicanálise.

No momento, quando Anna O. (paciente de Josef Breuer), aos gritos, aos berros, fala de conteúdos profundos, chama-se catarse; importou-se do grego antigo, que fazia as suas peças teatrais nas encostas das colinas, e o espectador ficava envolvido emocionalmente àquela apresentação e se conectava, catarse era essa emoção colocada para fora. Limpeza de chaminé, simbolicamente, e instalando, começando o que seriam mais tarde acontecimentos importantes para o início da psicanálise. Logo, para você, que está querendo entender o processo da psicoterapia, falar, se expressar, rir, chorar, faz sentido nesse espaço terapêutico por quê? Porque nós precisamos elaborar, organizar, colocar para fora, por vezes, conteúdos que às vezes estão nos sufocando, nos fazendo mal, e precisamos dar nome, organizar tudo isso para que a gente consiga ter um pouco mais de saúde mental e regulação emocional.

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Rênan Ferreira
Rênan Ferreira Colunista