
No momento em que a disputa pelas duas vagas de senador do Maranhão virou um campo de batalha entre pelo menos 13 pré-candidatos, não custa lembrar do jornalista, escritor, ex-governador, ex-senador e ex-presidente da República José Sarney. Além de tantos mandatos e posições jamais alcançadas por alguém na escala de poder, ele foi também o único político na história do Brasil a ser eleito cinco vezes para o Senado, quatro vezes a presidi-lo e, de quebra, por dois estados distantes um do outro: duas vezes no Maranhão e três no Amapá, que era território e Sarney o elevou a estado na Constituição de 88. Passou 40 anos na Câmara alta do país cuja função principal é representar os 26 estados e o Distrito Federal.
O Senado funciona como espécie de entreposto entre o governo do estado e o Congresso Nacional. O governador quase sempre termina no Senado e, depois, volta a concorrer ao governo do estado que representa. José Sarney foi uma exceção histórica. Como senador do PDS, partido originário da Arena no regime militar de 1964, migrou para o MDB e compôs a chapa de Tancredo Neves na última eleição indireta do Palácio do Planalto. Como Tancredo foi internado na véspera da posse e morreu dias depois, Sarney virou presidente do Brasil, num dos momentos mais tensos e decisivos para a democracia. Hoje, com 96 anos, Sarney ainda é consultado sobre a política nacional e decide muito sobre a estadual do Maranhão. A sua filha Roseana Sarney, única no Brasil a ser governadora eleita por quatro vezes e a primeira mulher nessa posição, pode ser em outubro candidata a um novo mandato no Senado Federal pelo MDB, na chapa liderada por Orleans Brandão. Os demais pré-candidatos às vagas no Senado são: Duarte Júnior (Avante), Weverton Rocha (PDT), Roberto Rocha (Novo), Eliziane Gama (PT), Lahesio Bonfim (Novo), André Fufuca (PP), Pedro Lucas (UB), César Pires (PSD), Hilton Gonçalo (Mobiliza), Antônio Cariongo e Franklin Douglas (PSOL) e Simplício Araújo (DC) – ou avulso.
Em 2022 aconteceu um caso curioso no Maranhão sobre a única vaga no Senado. O ex-governador Flávio Dino (PSB) foi eleito com a maior votação na história, 2,1 milhões. Em 2023 assumiu como ministro da Justiça do governo Lula até ser nomeado, em 2024, ministro do Supremo Tribunal Federal. Dino renunciou ao Senado, com escassos 21 dias no mandato, e deixou a cadeira para a suplente Ana Paula Nova Alves. Dino trocou oito anos no Senado por 19 no STF, até 2.043 quando estará com 75 anos, tornando-se ainda o único ministro a passar pelo Três Poderes do Brasil: Executivo, Legislativo e Judiciário.
Está provado que o mandato de senador tem algo muito mais especial do que o de deputado federal. No Senado o contracheque dos parlamentares vale R$ 46 mil mensal, mas eles têm o poder de julgar autoridades como o presidente da República (Impeachment), influência direta na política fiscal, aprovam indicações ao STF, PGR e Bacen, assim como revisam decisões da Câmara dos deputados. Além do alto salário, os senadores brasileiros desfrutam de extensa rede de benefícios que incluem verbas de gabinete para dezenas de assessores, cotas para passagens aéreas e transporte, auxílio-moradia, plano de saúde vitalício e cotas para reembolso de despesas diversas.
Logicamente que, dos atuais 13 pré-candidatos ao Senado, alguns vão sucumbir antes ou durante as convenções, entre 25 de julho e 5 de agosto. Esses sobrarão tanto nas chapas majoritárias quanto nas intenções de voto dos eleitores. Para não se arrepender depois das eleições, o que cada um deveria fazer era ouvir o ex-presidente José Sarney, um prodígio que ingressou na política em 1950, no jornalismo com 17 anos e na Academia Maranhense de Letras, com 22 anos. Em 1955 foi eleito deputado federal; em 65, governador do Maranhão; e em 85, presidente da República. Carrega no currículo ter comandado a transição democrática, promulgado a Constituição de 1988 e mandado no Maranhão por 50 anos. É um Pelé sem bola.