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O “golpe” contado ao vivo e em cores no STF

Raimundo Borges - Bastidores

Em época dominada por tecnologias digitais e internet interferindo na vida de cada ser humano, a política foi transformada num laboratório de experiências em permanente transformações. O julgamento no Supremo Tribunal Federal do chamado “núcleo crucial” da trama golpista contra a democracia brasileira antes e depois da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no 3º mandato no Planalto, é mais do que a história contada ao vivo e em cores nas transmissões de tvs e portais de notícias. É o cara a cara do ex-presidente Jair Bolsonaro e a turma da linha de frente do golpe que deu errado, depondo diante do ministro Alexandre de Moraes que, por pouco, não foi preso ou até assassinado.

Não só Moraes, o alvo principal no Supremo Tribunal Federal dos arquitetos do golpe de estado contra a democracia entre o fim de 2022 e o começo de 2023. Também Lula não estaria à frente do governo, e Jair Bolsonaro seria o inquilino do Palácio do Planalto, dizendo que permaneceu no cargo porque agiu “dentro das quatro linhas da Constituição”. Só o fato de generais do Exército, almirante da Marinha, brigadeiro da Aeronáutica sentarem no banco dos réus como qualquer cidadão, para depor diante de um juiz civil é um fato não apenas histórico, como também exemplar para aqueles que sentem saudade da ditadura militar e não veem a democracia como o sistema de governo mais justo e participativo.

O processo em que a Justiça julga centenas de golpistas do 08 de janeiro de 2023, que agiram nas sombras e à luz do dia, financiando e dando sustentação ao pandemônio contra o Palácio do Planalto, as casas do Congresso Nacional e a sede do STF, está sim, desta vez, dentro das quatro linhas da Constituição de 1988. Muitos já foram condenados e outro tanto ainda passará pelo crivo dos ministros do STF.  Só agora os golpistas e os usados como “massa de manobra” nas depredações dos Três Poderes estão percebendo como funciona a democracia, garantida pelo voto popular num dos sistemas eleitorais mais seguro antifraude e mais admirado do mundo.

Ao depor novamente perante o STF, o ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro  e delator, ten. cel. Mauro Cid, confirmou que o ex-presidente discutiu e revisou minutas de documentos que lhe embasariam a decretação de Estado Sítio ou Estado de Defesa no país, antes da posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Cid também afirmou, na presença de Bolsonaro e demais réus do núcleo crucial, não ter conhecimento de que o ex-chefe do governo tenha se envolvido em ações preparatórias para os atos de 8 de janeiro, quando os bolsonaristas radicais invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes. O militar-delator negou também ter ouvido conversas sobre isso no núcleo do governo anterior.

No todo são sete réus do núcleo crucial na fila de depoimentos, chamados por ordem alfabética. A tentativa de ruptura democrática, segundo parecer da Procuradoria Geral da República, começou com a campanha contra o sistema eletrônico de votação e culminou nos ataques na intentona do 08 janeiro de 2023. Além de Cid e Bolsonaro estavam no auditório do STF cinco réus ao lado de seus advogados: Alexandre Ramagem, deputado federal (PL-RJ) e ex-diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Almir Garnier Santos (ex-comandante da Marinha), Anderson Torres (ex-ministro da Justiça), general da reserva Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa) e general Augusto Heleno (ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional).

A política, independentemente do partido ou ideologia, tem como uma se suas principais características, a manipulação da opinião pública e do apoio da grande massa da população. Nesse ponto, os estrategistas do golpe frustrado usaram não só as redes sociais, por seus influenciadores de extrema direita, como mobilizaram apoiadores nos acampamentos à frente dos quarteis do Exército por 40 dias. O que deu errado foi a falta de apoio do comandante do mesmo Exército, assim como a maior parte da população que havia votado no petista. É nesse ponto que o STF, com Alexandre de Moraes à frente do processo, está rescrevendo parte significativa da história do Brasil neste primeiro quarto de século 21.

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Raimundo Borges
Raimundo Borges Colunista