
Ao assumir o cargo de primeira governadora eleita da história do Brasil em 1994, com 41 anos, Roseana Sarney sustentou a campanha com o slogan “Novo Tempo”. No discurso de posse, que realizou na primeira hora da madrugada de 1º de janeiro de 1995, ela prometeu transformar o Maranhão num “tigre do Nordeste”. Era referência aos chamados tigres asiáticos – China, Cingapura, Taiwan e Correia do Sul – que batiam recordes de crescimento investindo em tecnologia. Passados 31 anos daquela eleição em que Roseana se tornou a maior liderança política dos Sarney, com mais três vezes governadora, o Maranhão ainda se desdobra para sair do último lugar no país no ranking de pobreza social.
Roseana ganhou o carinhoso apíteto de “Guerreira”, pelas vitórias políticas incomparáveis a qualquer maranhense ou brasileira e pela capacidade de superação dos obstáculos que que enfrentou na saúde. Desde os 19 anos, quando passou pela primeira cirurgia de retirada de cisto no ovário, Roseana tem um histórico médico de 27 intervenções, sendo a última este ano sobre um câncer de seio. Está recuperada e já reassumiu o mandato na Câmara dos Deputados. Na última terça-feira, 19, o ex-presidente José Sarney reuniu a nata do sarneísmo na sua residência em Brasília, para trocar ideias e talvez o pré-lançamento de Roseana como candidata a senadora pelo MDB, sob a presidência de Orleans Brandão.
Se confirmada para o Senado, a deputada Roseana, 72, vai provocar reviravolta na eleição maranhense, obrigando os partidos aliados ao MDB a reorganizarem-se para um quadro em que o candidato a governador Orleans Brandão já tem como certos os nomes de Weverton Rocha (PDT), André Fufuca (PP), além aspirante Pedro Lucas (União Brasil). Também corre na mesma faixa do grupo brandonista, a deputada Iracema Vale (MDB), presidente da Assembleia Legislativa e muito próxima dos Brandão. Portanto, até Orleans terá que mudar a estratégia no grupo que o tem para concorrer ao Palácio dos Leões.
Nos bastidores, as informações que insistem em apontar Roseana como pré-candidata ao Senado são reforçadas com o nome do irmão Fernando Sarney na primeira suplência – tudo numa articulação montada pelo chefe do clã, José Sarney que, aos 96 anos, ainda não foi abandonado pela política. O jantar de terça-feira revela que ele é o principal incentivador e articulador dos alinhamentos partidários em torno da pré-candidatura da filha, na presença do presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, do ex-senador Edison Lobão, do governador Carlos Brandão e de Orleans.
José Sarney soltou a frase sobre a longevidade de político no poder, como ele: “A política só tem uma porta, a porta da entrada, não tem a porta da saída”. Para não ficar só nessa questão retórica, ele leva muito a sério as crendices que embalam o seu lado supersticioso quando o assunto é azar: sair sempre pela mesma porta que entrou; não rezar para santo de pau oco, não usar carro de cor verde, não guarda cocar e correr de gato preto. Ele se apega ao fator sorte que o acompanha ao longo de sua história política e literária. Se conseguir ver Roseana eleita senadora em outubro, estaria, ele próprio, encaixado na máxima que criou: “O político só deixa a política quando é por ela abandonado”.
Como são apenas duas vagas no Senado e cada candidato ao governo pode apresentar dois concorrentes, pelos menos uns 12 nomes já estão de prontidão para acompanhar o desdobro dessa novela dos Sarney, cujo enredo está apenas começando a ser escrito. Caso Roseana decida disputar o Senado, terá enorme responsabilidade com o MDB, com a família Sarney e com sua história de superação. A “Guerreira” não pode decepcionar o desejo do pai em vê-la novamente no Senado Federal, saída das eleições mais complexas do Brasil e da 27ª cirurgia que ela encarou de pé no chão e sem nada esconder de seu público.