
A história política do Maranhão é rica em contradições, solavancos, revolta e reviravoltas. Desde a Independência do Brasil em 1822, o Estado tem mostrado o seu lado torto de ser. Resistiu por 10 meses e 21 dias aderir ao ato mais importante da história do Brasil ao se separar de Portugal pela bravura de D. Pedro I. As elites políticas e econômicas do Maranhão, formadas por portugueses, temendo perder seus privilégios, resistiram o quanto puderam à separação, ocorrida só em 28 de julho de 1823. Mesmo assim só foi possível após intensos conflitos e um bloqueio naval, liderado pelo mercenário inglês Lord Cochrane, que ameaçou bombardear São Luís, caso a província não se rendesse.
Passados 203 anos daquele episódio, o Maranhão permanece lutando pela independência econômica e social que o faz aparecer nas manchetes como “o estado mais pobre do Brasil”. Porém, por trás desse rótulo estão histórias, dados curiosos e situações em que se misturam potencial econômico, desigualdade extrema, migração em massa, educação longe da população pobre – de 79% de negros e apenas 10,5% com ensino superior completo, segundo dados do Imesc, de 2025. Na política, o Maranhão tem o seu cotidiano repleto de contrastes sociais, com o centro do Poder saltando de oligarquia em oligarquia.
Tais contrastes têm raízes nas elites urbanas interagindo com o coronelismo rural do latifúndio improdutivo, da grilagem violenta das terras públicas por fraudes cartoriais. Tudo isso voltou em novo formato: o agronegócio aprofunda o fosso social entre ricos e pobres no interior do Maranhão. Os imensos campos de soja, milho e algodão, operados com alta tecnologia, têm pouco aproveitamento de mão de obra local, enquanto a pobreza precisa se virar na secular quebra do coro babaçu, nas roças de toco cada vez menores e os jovens migrando para colheitas de uva, laranja e outras frutas no Sul do Brasil.
As oligarquias políticas foram a fonte do atraso maranhense. A de Vitorino Freire, chamada de período vitorinista, funcionou entre 1945 a 1965, quando José Sarney foi eleito governador, rompido com o seu passado político, passou no Maranhão e depois no Brasil. Apenas o médico Nunes Freire foi governador biônico, indicado pelos militares da ditadura, sem a benção de José Sarney. Em 2014, Flávio Dino derrotou Edinho Lobão, com Roseana Sarney na sua 4ª temporada no Palácio dos Leões. Num arranjo do PCdoB e PSDB de Aécio Neves, a vice caiu no colo de Carlos Brandão. O Maranhão ficou sob o dinismo até 2022, quando Dino foi eleito senador e Brandão, governador, os dois já no PSB.
Em 2026, o dinismo pulverizou sem se tornar uma nova oligarquia. Carlos Brandão e Flávio Dino (ministro do Supremo Tribunal Federal) estão rompidos, enquanto a disputa do governo entrou num episódio histórico inusitado. Brandão está sem partido, mas o irmão Marcus assumiu o comando do MDB maranhense e este o passou ao filho Orleans, candidato a governador na sucessão do tio. É uma situação parecida com a de 1965, quando Sarney rompeu do Vitorino Freire e derrotou Costa Rodrigues, apoiado pelo governador Newton Bello. Foi o último suspiro do vitorinismo e o nascimento do sarneísmo, mais longo período de domínio na história do Maranhão.
Como o vice Felipe Camarão é do PT, o partido está com a maioria de suas lideranças dentro do governo Carlos Brandão – hoje adversários. Até o presidente Lula apoia Camarão ao Leões, mas também não rejeita o palanque de Orleans, que pode ter Roseana Sarney compondo a chapa como candidata ao Senado. Dessa forma, o PT de Lula estará com uma perna no palanque de Camarão e outra no de Orleans. São vários PTs debaixo da mesma sigla, mas dançando conforme a música, tocada pelo seu pragmatismo eleitoral. Num Brasil dividido na eleição presidencial com Lula em guerra contra o bolsonarismo, tudo que vier acontecer no Maranhão não está escrito nos manuais da política.