artiho

A vida dentro de um saco

Osmar Gomes dos Santos é juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís (MA) e presidente da Academia Ludovicense de Letras

Todas as manhãs, ele circula pela mesma avenida, mas pouca gente o percebe. Alguns desviam o olhar; outros apertam o passo, como se a pobreza pudesse ser contagiosa.

Há quem segure a bolsa com mais força. Há quem mude de calçada. Entretanto, quase ninguém olha para o saco que ele carrega sobre os ombros.
É um saco comum, desses de ráfia, encardido pelas andanças de calçada em calçada. Dentro dele, há quem diga que não existe nada de relevante, além de trapos.

Ali estão algumas peças de roupas doadas, uma colcha para proteger do frio, uma caneca de plástico, uma colher torta e um pedaço de sabonete. Com sorte, resquícios de algum documento, que guardam uma frágil identidade.

Não há fotografias, nem nada que lembre o tempo em que havia casa, família e endereço. Isso está apenas na memória. No saco, resta somente o necessário para o dia a dia. Porém, isso não significa que haja nele pouca coisa.

Ainda que nada de muito concreto, o saco está cheio de esperança: a esperança de fugir do ciclo da falta de emprego, de um lar e de uma família. Uma engrenagem que parece girar e voltar sempre ao mesmo ponto, mas cujo tempo cobra um preço alto.

O sono, a juventude, a saúde e a confiança são roubados gradativamente, antes do tempo natural. O medo é a mais fiel companhia na vigília de cada noite, na tentativa de resguardar todo o patrimônio que cabe dentro daquele saco.
Fruto da desigualdade, essas pessoas carregam a sina de não terem conseguido acompanhar o ritmo de uma sociedade que parece sempre correr mais depressa do que elas.

São pessoas às margens. E não por acaso, a maioria dos rostos que encontramos vivendo nas ruas é preta ou parda.Desemprego, dependência química, violência doméstica: problemas comuns e mais presentes nas camadas mais pobres, historicamente marcadas pela cor da pele preta.

Talvez a maior violência não seja a fome, mas a indiferença, que impõe a pessoas que perderam um pedaço da própria existência o desafio de provar, todos os dias, que continuam sendo humanas.

Não se trata de coincidência. É o retrato da persistente desigualdade que atravessa gerações marcadas pela exclusão, pelo racismo estrutural e pela pobreza. Em uma sociedade em que o tom da pele ainda define o futuro, as ruas ganham cores acentuadas.
Muitos chegaram ali empurrados pelo desemprego. Outros, pela dependência química. Alguns fugiram da violência doméstica. Há quem tenha sido expulso de casa pela própria família.

A rua, não por acaso, é o lugar onde se configura mais um capítulo de uma sequência de ausências: de oportunidades, de políticas públicas eficientes, de educação, de saúde mental e de trabalho.

Dia após dia, essas pessoas seguem ali, invisibilizadas, indocumentadas, com dificuldades de acessar direitos e exercer a cidadania.

Certo é que nenhuma dessas histórias começa em uma calçada, sob uma marquise. Não deve ser ali, portanto, que elas se encerrem.

Voltando ao saco, ele seguirá pesando sobre os ombros, preso às mãos firmes de quem o carrega. Porque não se trata apenas de um saco com trapos, mas da importante bagagem de uma vida inteira.

Compartilhar
Osmar Gomes
Osmar Gomes Colunista

Juiz de Direito da Comarca da Ilha de São Luís. Membro das Academias Ludovicense de Letras; Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras