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O gênio da bola e a tal da coragem

Marcelo Pinto - historiador e advogado

Lionel Messi transformou a bola numa língua que só ele fala. Seus pés escreveram poemas que nem Homero ousaria imaginar. Diante dele, a física pede licença, o tempo desacelera e o futebol parece pedir perdão por jamais ter produzido outro igual. Quanto maior o gênio, mais ruidoso se torna o silêncio. Enquanto Maradona transformou a camisa em bandeira e a fama em trincheira, Messi escolheu transformá-las em marca registrada. Fez do silêncio uma estratégia, da neutralidade um patrimônio e da ausência de posicionamento um ativo financeiro. 

Vive num mundo onde crianças morrem sob bombas, povos são expulsos de suas terras, imigrantes são tratados como ameaça e o racismo volta a desfilar com a arrogância dos velhos impérios, mas o maior jogador do planeta parece acreditar que a História é um jogo do qual se pode pedir substituição. Curiosamente, esse silêncio desaparece quando a fotografia é ao lado do líder da extrema direita, Javier Negre, quando é recebido glamourosamente na Casa Branca por Donald Trump. Talvez não seja por acaso que o atual presidente da Argentina disse recentemente que era um orgulho dividir o palco com Messi. Aí o silêncio se transforma em sorrisos para quem concentra poder, para quem representa a ordem estabelecida. O drible que nunca aplica é justamente contra os opressores.

Talvez isso seja ainda mais simbólico quando se observa a própria Argentina. Poucos países da América Latina investiram tanto na construção do mito de uma nação branca e europeia quanto a Argentina das elites do final do século XIX. O país que promoveu a imigração europeia como projeto civilizatório também apagou deliberadamente a memória de seus negros, exterminou povos indígenas em campanhas militares e vendeu ao mundo a fantasia de uma Europa transplantada para o sul do continente. A ideia da superioridade branca deixou de ser apenas política de Estado para tornar-se parte do imaginário nacional, sobrevivendo em preconceitos, discursos e também nas arquibancadas. Não por acaso, episódios de racismo envolvendo torcedores argentinos repetem-se com inquietante frequência. E justamente o maior símbolo do futebol argentino jamais encontrou palavras suficientemente fortes para confrontar essa herança. O silêncio nunca derrubou preconceitos, mas quase sempre ajuda a conservá-lo.

Messi parece representar essa Argentina que prefere celebrar a própria excelência técnica enquanto evita encarar seus fantasmas históricos. Um país capaz de produzir um gênio da bola, mas também incapaz de ouvir desse gênio uma palavra firme quando o assunto é racismo, desigualdade ou injustiça. Não se exige que um atleta resolva os dramas do mundo, exige-se apenas que não transforme a omissão em virtude. Quem possui centenas de milhões de admiradores não fala apenas por si. Quando cala, também se emite opinião e o silêncio acabam soando como aplausos discretos. É por isso que Maradona continua inalcançável. 

Não porque jogasse mais, essa é uma discussão infinita, mas porque compreendeu que talento sem coragem é apenas entretenimento de luxo. Maradona brigou com presidentes, enfrentou impérios econômicos, tomou partido dos derrotados da História e fez da própria biografia uma permanente declaração de insubmissão. Errou muito, exagerou quase sempre, mas jamais terceirizou sua consciência. San Martín atravessou os Andes para libertar povos; Che Guevara atravessou continentes perseguindo uma revolução; Mario Roberto Santucho enfrentou a ditadura pagando com a própria vida. Nenhum deles acreditava que a neutralidade fosse uma posição honrosa.

Messi será lembrado pelos dribles, pelas Copas, pelas Bolas de Ouro e pelos gols. Mas a História costuma ser impiedosa com quem confunde grandeza técnica com grandeza humana. A bola o transformou num deus, o silêncio insistiu em mantê-lo como apenas um excelente funcionário do espetáculo. Talvez seja esse o maior sarcasmo de sua biografia: o homem que fez o mundo inteiro levantar da cadeira nunca encontrou coragem para levantar a própria voz contra a opressão e injustiça.

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Marcelo Pinto
Marcelo Pinto Colunista