Bem-vindos à Copa do Mundo de 2026.
Não, não à Copa do Futebol. Não ao encontro dos povos. Não à festa da diversidade cultural tão propagandeada nos comerciais emocionantes das grandes emissoras.
Bem-vindos à Copa do Império. A Copa onde a FIFA, essa entidade que adora discursar sobre inclusão, respeito e fraternidade entre as nações, resolveu ajoelhar-se diante dos interesses políticos e econômicos da maior potência capitalista do planeta. Uma FIFA tão preocupada em agradar governos, patrocinadores e investidores que parece ter esquecido completamente que administra o esporte mais popular da Terra, e não uma bolsa de valores.
Durante décadas, venderam ao mundo a ideia de que o futebol era capaz de unir povos separados por fronteiras, religiões, idiomas e ideologias. Em 2026, descobrimos que isso só vale quando o passaporte do torcedor, do jornalista ou do atleta é considerado aceitável pelos senhores do mundo.
Afinal, esta é a Copa realizada sob o olhar vigilante dos Estados Unidos, país que costuma dar lições de democracia para o resto do planeta enquanto constrói muros, impõe sanções, interfere em governos estrangeiros e define quem é ou não digno de circular livremente pelo mundo.
Nada mais simbólico. A mesma nação que apoiou golpes militares em toda a América Latina durante a Guerra Fria. A mesma que patrocinou ditaduras sanguinárias em nome do combate ao comunismo. A mesma que despejou duas bombas atômicas sobre cidades japonesas, transformando centenas de milhares de vidas em cinzas para demonstrar sua força ao planeta. A mesma que, até hoje, se apresenta como guardiã da liberdade enquanto mantém a maior máquina militar já construída pela humanidade.
Mas não sejamos injustos. Os Estados Unidos também exportam democracia. Da mesma forma que exportam mísseis, tanques, bases militares e guerras.
Coincidentemente, uma das indústrias mais lucrativas do país continua sendo justamente a indústria armamentista. Deve ser apenas uma feliz coincidência histórica que conflitos armados se multipliquem enquanto os lucros dos fabricantes de armas continuam crescendo.
E é nesse ambiente que a FIFA decidiu realizar sua maior festa. Uma entidade que gosta de se apresentar como neutra, mas que nunca demonstra a mesma neutralidade quando o assunto envolve bilhões de dólares em contratos de transmissão, patrocínios e direitos comerciais.
A FIFA fala em valores. O mercado fala em lucros e curiosamente, a FIFA sempre acaba concordando com o mercado. Que coincidência extraordinária.
A entidade que passou décadas afundada em denúncias de corrupção, compra de votos, favorecimentos e escândalos administrativos agora pretende convencer o mundo de que tudo o que faz é em nome do desenvolvimento do futebol.
Evidentemente. Da mesma forma que bancos existem para combater a desigualdade social e grandes corporações existem para promover a felicidade coletiva.
Enquanto isso, o futebol, aquele velho futebol dos trabalhadores, das periferias, das ruas e dos campos de terra, assiste a tudo do banco de reservas. Foi substituído por um produto global. Um espetáculo cuidadosamente embalado para consumo. Um show planejado por patrocinadores, plataformas de streaming, conglomerados midiáticos e fundos de investimento.
O torcedor virou cliente. O clube virou ativo financeiro. O jogador virou marca. E o futebol virou mercadoria.
Talvez essa seja a maior tragédia desta Copa. Porque o futebol já foi outra coisa. Foi espaço de resistência. Foi instrumento de afirmação popular. Foi palco de enfrentamento ao racismo.
No Brasil, quando muitos clubes ainda rejeitavam jogadores negros, foram justamente os negros, os pobres e os trabalhadores que transformaram o futebol no esporte mais amado do país. Foram eles que deram alma ao jogo.
Hoje, os herdeiros desse futebol popular observam uma Copa cada vez mais distante de suas origens.
Uma Copa construída para investidores. Planejada para patrocinadores. Administrada para acionistas. Vendida para anunciantes. E apenas consumida pelos torcedores.
A mídia corporativa, como sempre, fará sua parte. Produzirá campanhas emocionantes, comerciais inspiradores e narrativas épicas sobre união dos povos. Mostrarão crianças sorrindo, bandeiras coloridas e discursos sobre inclusão.
Pouco se falará sobre quem realmente estabelece as regras. Pouco se discutirá quem lucra com esse espetáculo. Pouco se perguntará por que uma entidade que se apresenta como representante do futebol mundial aceita tão passivamente as imposições dos poderosos.
A Copa de 2026 talvez seja a expressão mais acabada de um processo que vem ocorrendo há décadas: a captura do futebol pelo grande capital. Já não basta controlar bancos, governos, meios de comunicação e plataformas digitais. Agora também é preciso controlar os sonhos. Controlar os símbolos. Controlar as paixões. Controlar até mesmo o esporte que nasceu do povo.
Por isso, a Copa de 2026 não será lembrada apenas pelos gols, pelas defesas ou pelo campeão. Será lembrada como a Copa da submissão. A Copa em que a FIFA ajoelhou. A Copa em que o mercado apitou. A Copa em que o império recebeu o mundo em sua própria casa para celebrar não o futebol, mas o poder.
E, no meio de tanto marketing, tanto dinheiro e tanta propaganda, talvez reste apenas uma pergunta: Quem venceu o jogo antes mesmo de a bola rolar?