

Há coisas que não começam na vida da gente. Apenas continuam. Junho é uma delas. Não sei em que momento ele me escolheu, mas sempre tive a impressão de que ele chegou primeiro dentro de mim, antes mesmo que eu soubesse dar nome às coisas. Cresci numa casa onde junho não era apenas um mês. Era uma espécie de respiração descompassada da cidade. A gente contava os dias com uma ansiedade, dessas que se espalham pela casa inteira sem fazer barulho, perguntando quanto ainda faltava para ele chegar.
Mas sempre me atrevo a dizer que, no Maranhão, junho não cabe só no calendário. Ele se organiza como tempo de santos que caminham juntos. Os Santos Joaninos.
Santo Antônio abre os caminhos. São João chega anunciando o batismo dos bois e espalhando alegria pelos arraiais. São Pedro recebe promessas, velas e orações enquanto prepara a madrugada que amanhece entre brincantes, caboclos e devotos na capela. E São Marçal reúne os bois em seu grande encontro, encerrando um ciclo que, ano após ano, parece recomeçar.
Junho vira, então, uma casa aberta. Cada santo encontra seu lugar, cada tambor encontra seu compasso, e a gente, sem perceber, vai se reconhecendo nisso tudo.
Antes da festa, damos espaço a um outro tempo mais baixo, mais antigo — as ladainhas. As vozes dos mais velhos se levantam devagar, como se chamassem algo que não se vê. Velas acesas, altares improvisados, o silêncio respeitoso que
antecede a alegria. E, talvez por isso, nunca tenha me parecido estranho que a oração encontrasse o tambor.
São João, para mim, sempre teve também algo de Xangô. Não como explicação, mas como sensação antiga, dessas que a gente não aprende — reconhece. Como o cheiro da chuva no asfalto quente, como o som das matracas chegando antes do cortejo virar a esquina. Algumas coisas não se separam dentro da gente, só convivem.
Algumas coisas não se separam dentro da gente, apenas convivem. A fé, a festa, a rua, a família. Talvez seja por isso que minhas lembranças de junho nunca caminhem sozinhas. Quando penso nos santos, lembro das ladainhas. Quando ouço uma toada, volto às ruas da infância. E, entre uma lembrança e outra, há sempre alguém que retorna primeiro.
Meu avô. Nasceu no dia de São João. Chamava-se José Ribamar, mas um dia virou José Batista. Dizia isso como quem conta uma travessura de Deus. Homem de conversa longa, de rua e de porta aberta, sentava-se para ver o movimento como quem assiste à vida passar sem pressa. E, quando chegava junho, a rua parecia caber inteira ao redor dele.
Dancei muitas vezes ali, vestida de índia, com penas maiores do que os meus próprios braços e uma alegria que eu não sabia nomear. Achava que aquilo era só festa. Depois entendi que era pertencimento antes de virar palavra. Há vozes que não ficam no passado. Elas aprendem a voltar. “Morro branco de areia na praia do Carimã, de lá avistei a sereia na baía de Cumã…”
E então junho muda de lugar dentro da gente. Já não é mais um mês, é um jeito de lembrar. Há canções que não passam. Elas ficam. Moram na pele, chamam nomes antigos e devolvem a gente, sem aviso, para dentro daquilo que nunca deixou de ser casa. Talvez crescer seja isso: descobrir que o mundo muda de forma, mas não apaga certas presenças. Elas apenas aprendem a ficar em silêncio — como as velas depois da ladainha, como a rua depois da festa, como a fé, quando ninguém está olhando.
E como junho. Que todos os anos volta sem pressa, como quem nunca foi embora — só estava esperando a gente lembrar.