dia dos namorados

Amor em tempos de notificações

Isabella Goulart - Jornalista

Crônica para quem ainda acredita — mesmo entre emojis e recibos de stories não visualizados.

Era uma quarta-feira chuvosa em uma ilha que, tal qual a de Carrie Bradshaw, não parava — São Luís. Daquelas tardes em que os guarda-chuvas brigam nas esquinas e os corações, silenciosamente, também.

Enquanto me equilibrava entre um cappuccino de baunilha na Rua Portugal e uma notificação no WhatsApp que, mais uma vez, não era dele, me peguei pensando: será que o amor mudou ou só virou emoji?

Nos tempos antigos, a gente deixava bilhetes em guardanapos de bar e esperava ligação no fixo. Hoje, deixamos stories com indiretas e rezamos por visualizações. Antes, os amores tinham tempo de marinar. Agora, queremos o match, o encontro, a química e o “relacionamento sério” — tudo no mesmo final de semana.

E então chega o Dia dos Namorados. As floriculturas florescem em lucros. Os restaurantes ganham filas. E os perfis no Instagram se enchem de legendas como “com você tudo faz sentido” ou com alguma trend romântica do TikTok.

Mas… e quem ainda está tentando entender o próprio coração?

Já me apaixonei por pessoas que li como capítulos errados. Já sublinhei promessas que jamais virariam finais felizes. Ainda assim, alguns — entre vírgulas — ainda acreditam nesse tal amor. O real. O que vive fora dos filtros. O que ainda pulsa, mesmo que às vezes disfarçado.

Cresci em uma era em que pedir em namoro era coisa de post-it com “sim ou não”, de bilhetinhos trocados na escola, de declarações ao vivo e nervosas. A tecnologia veio, claro, e o amor também aprendeu a se adaptar — mas a urgência virou regra.

Demos espaço a aplicativos que marcam encontros para ontem. Criamos relacionamentos relâmpagos. Fazemos promessas embaladas pela febre amorosa do Dia dos Namorados e talvez até aproveitemos o dia seguinte, de Santo Antônio, pra selar alguma promessa virtual. Mas será que essas também têm validade no coração?

A verdade é que, mesmo entre tantas atualizações de sistema emocional, ainda existem corações que acreditam. Porque o amor, por mais “vintage” que pareça, não sai de moda. Ele apenas muda de roupa.

Outro dia, uma amiga me perguntou:
– Quem é que a gente procura?
E completou:
– Os dates são tantos e a gente nem sabe direito o que quer.

Talvez o que buscamos não esteja nos buquês nem nos jantares com reserva. Talvez esteja num gesto banal: um “chegou bem?” ou “trouxe seu chocolate preferido”.

O amor, parece ser tão complicado para nós que nem nos damos conta quando ele chega, até porque qual o intuito de complicar o que tem que ser simples? Sendo que ele é uma carta escrita à mão ou uma playlist num dia de frio. Outras vezes, se esconde num toque sutil na cintura, num “Eu amei o filme ou livro que você me indicou” ou num olhar que diz baixinho: “vamos fazer dar certo”.

No fim das contas, talvez o amor seja como uma boa crônica: imperfeito, cheio de vírgulas mal colocadas, mas que — ainda assim — faz a gente suspirar na última linha.

E hoje, entre casais na rua e solteiros nas redes, só consigo pensar: Mesmo com todas as atualizações, o amor continua sendo o mesmo aplicativo que ninguém sabe usar direito?

E assim, entre uma notificação e outra, sigo digitando — e esperando.

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Isabella Goulart
Isabella Goulart Colunista