artigo

Eu e o Museu Nacional

Eduardo de Pádua Cruz Sousa é tabelião e Oficial Registrador de Vitória do Mearim/MA

Hoje, 19 de março de 2026, estava estudando história e geografia com meu filho Bernardo quando, na página do livro, me deparei com a foto do Museu Nacional, uma linda imagem à altura da imponência do prédio daquele que já foi o guardião do maior acervo de história natural da América Latina. Folheando o livro escolar do meu rebento, fui surpreendido com a forma com que o autor fez questão de mostrar para a geração de jovens estudantes do ensino fundamental o drama do incêndio do museu nacional no ano de 2018, tratando o episódio como a maior tragédia museológica do país.

Lendo a página do livro, fui interrompido com as seguintes indagações do meu filho:
— Pai, me leva pra conhecer esse museu?
— Pai, por que ele pegou fogo? Foi algum ladrão que jogou fogo no museu?

Nessa hora me lembrei do dia em que pude conhecer o museu nacional, lá pelo começo do ano de 1990. Lembro-me do grande meteorito Bendegó que repousava imponente no hall de entrada, das múmias que foram presentes dados ao imperador Dom Pedro II em uma de suas viagens ao velho mundo, e de tantas outras imagens que ainda guardo na minha memória de criança.

E foi justamente essa memória que me atravessou quando precisei responder ao meu filho. Porque não, não foi um ladrão. Não foi um ato isolado de vandalismo.

O incêndio do Museu Nacional foi, antes de tudo, o resultado de um abandono sistemático, prolongado e institucionalizado. O fogo consumiu não apenas um prédio histórico, ele trouxe à tona décadas de negligência com a cultura, a ciência e a memória nacional.

Como explicar a uma criança que um dos mais importantes museus do país funcionava sem investimentos adequados, com instalações precárias, dependente de remendos e improvisos?

Como traduzir, em linguagem simples, que aquilo que ardeu em chamas não foi apenas madeira, gesso e pedra, mas cerca de 20 milhões de itens — fósseis, artefatos dos nossos povos originários, registros linguísticos, coleções científicas insubstituíveis?

Talvez o mais perturbador não seja apenas a tragédia em si, mas a sua naturalização.

O fato de que hoje, poucos anos depois, o incêndio já aparece em livros didáticos quase como um capítulo encerrado, um evento histórico a ser memorizado, e não como uma ferida ainda aberta, que exige reflexão, responsabilização e mudança de postura.

O olhar curioso do meu filho não carregava indignação — carregava apenas ingenuidade.

Para ele, fazia mais sentido imaginar um ladrão do que conceber que um país inteiro pudesse, por omissão, permitir que um patrimônio daquela magnitude se perdesse. E talvez seja exatamente isso que mais nos acusa: o fato de que a explicação mais lógica para uma criança não é a verdadeira.

O incêndio do Museu Nacional expõe uma contradição profunda da sociedade brasileira: celebramos o passado, mas não investimos em sua preservação; exaltamos a educação, mas negligenciamos os espaços que a tornam viva; orgulhamo-nos da nossa história, mas falhamos em protegê-la.

Responder ao meu filho, naquele momento, foi mais do que esclarecer um fato — foi confrontar uma realidade incômoda. Disse a ele, com a simplicidade que a idade exige, que o museu pegou fogo porque não cuidaram dele como deveriam. E enquanto falava, me dei conta de que essa resposta, embora honesta, está longe de ser suficiente. Porque cuidar da memória não é apenas evitar incêndios. É reconhecer que sem ela não há identidade, não há pertencimento, não há futuro.

E talvez, no fundo, o que mais doa não seja o que o fogo levou — mas o que ele revelou. Além de saber que meu filho jamais terá a chance de conhecer o museu que eu conheci…..