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Cuidar da terra é cuidar das pessoas

Cricielle Muniz - Ex-diretora geral do IEMA

Sempre acreditei que não existe separação entre a luta social e a luta ambiental. Falar de meio ambiente nunca foi, para mim, tratar de uma pauta distante ou restrita aos especialistas. O que está em jogo é algo muito mais concreto: a saúde das pessoas, a qualidade da água que chega às nossas casas, a comida que produzimos, o futuro das próximas gerações e o direito de viver com dignidade.

Talvez por minha própria trajetória, marcada pela militância social e pela defesa das populações historicamente invisibilizadas, aprendi cedo que os impactos da degradação ambiental não são distribuídos de forma igual. Quando um rio é contaminado, quando uma floresta desaparece ou quando eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes, são os mais pobres que sentem primeiro e com maior intensidade. São as comunidades negras, quilombolas, indígenas, ribeirinhas e periféricas que carregam o peso mais duro dessas desigualdades. Por isso, é preciso nomear aquilo que muitas vezes tentam esconder: existe racismo ambiental, e combatê-lo é uma questão de justiça.

Defender o território também vai muito além da proteção de um pedaço de terra. Território é pertencimento. É onde estão as memórias, a cultura, os saberes ancestrais, a fé, o trabalho e a identidade de um povo. Quando uma comunidade perde suas referências, perde também parte de sua história e de sua capacidade de permanecer. Por isso, não consigo enxergar a questão ambiental dissociada das questões sociais e raciais. Não existe justiça climática sem justiça territorial.

Nos últimos anos, tenho acompanhado avanços importantes nessa agenda. No Maranhão, o governo Carlos Brandão vem consolidando políticas voltadas à preservação e ao desenvolvimento sustentável. A criação do Programa Maranhão Sustentável, por meio da Lei nº 12.716/2025, representa um passo importante ao incentivar a conservação, o reflorestamento e o uso responsável dos recursos naturais. Somam-se a isso iniciativas como o Maranhão Verde, voltado à recuperação de áreas degradadas e à promoção da qualidade de vida das populações mais vulneráveis. Em um estado que abriga parte da Amazônia, do Cerrado e dos ecossistemas costeiros, proteger os biomas é também preservar a própria identidade maranhense.

Essa compreensão dialoga com um movimento mais amplo que vem sendo reconstruído no país. Com o presidente Lula, o Brasil voltou a recolocar a pauta ambiental entre as prioridades do Estado. A retomada do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a reativação do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal e a criação de estratégias voltadas ao Cerrado representam mais do que ações administrativas. Representam a retomada de uma visão que entende que desenvolvimento e preservação não são caminhos opostos.

Tive a honra de integrar o Grupo de Trabalho de Meio Ambiente durante a transição do governo do presidente Lula, contribuindo para a construção de propostas voltadas à sustentabilidade e à justiça climática. Foi uma experiência que reforçou em mim a convicção de que as respostas para a crise ambiental precisam ser construídas com participação popular e com o olhar voltado para quem historicamente ficou à margem das decisões.

Em 2021, assumi a coordenação da Escola Ambiental do Maranhão, uma experiência que marcou profundamente a minha trajetória. O Maranhão tornou-se o primeiro estado brasileiro a contar com uma escola dedicada exclusivamente à pauta ambiental, e ali ficou ainda mais evidente algo em que sempre acreditei: educação ambiental só faz sentido quando transforma a vida de quem mais precisa.

A Escola Ambiental do Maranhão nunca teve a missão de apenas transmitir conhecimento. Ela nasceu para formar pessoas capazes de agir e produzir mudanças concretas em suas comunidades. Dessa experiência surgiu o Agente Jovem Ambiental, programa que mobilizou cerca de quatro mil jovens em 217 municípios maranhenses. Mais do que números, eram milhares de jovens desenvolvendo projetos socioambientais dentro dos próprios territórios, compreendendo que cuidar do meio ambiente também é cuidar das pessoas, da cultura local e das oportunidades para as futuras gerações.

Essa experiência reforçou em mim uma convicção antiga: não existe transformação ambiental sem educação. Foi também carregando essa compreensão que recebi do governador Carlos Brandão a confiança para assumir, anos depois, a direção-geral do Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão. Enquanto diretora-geral do IEMA, tive a oportunidade de acompanhar de perto a potência da educação pública na formação de cidadãos conscientes de seu papel na sociedade e comprometidos com o desenvolvimento sustentável.

Ao longo desse período, testemunhei o crescimento de iniciativas que aproximavam ciência, inovação e responsabilidade ambiental. A participação do IEMA em ações voltadas à bioeconomia na Amazônia Legal e experiências como o ECOLAB mostraram que a sustentabilidade deixa de ser um conceito abstrato quando chega à sala de aula e se transforma em prática cotidiana. É no encontro entre a ciência, os saberes tradicionais e a realidade das comunidades que os jovens compreendem que preservar a natureza é também defender a vida.

Talvez seja por isso que, quando penso em desenvolvimento, não consigo imaginar um futuro construído às custas da destruição. Crescer economicamente é importante, mas isso só faz sentido se ninguém for deixado para trás e se os nossos biomas continuarem vivos. O Maranhão precisa avançar, gerar oportunidades e fortalecer sua economia, mas sem abrir mão da riqueza natural e humana que faz do nosso estado um lugar único.

No fim das contas, falar sobre meio ambiente é falar sobre vida. É falar de pertencimento, de memória e de responsabilidade com aqueles que vieram antes de nós e com aqueles que ainda virão. E talvez seja essa a principal lição que aprendi ao longo da minha caminhada: a defesa da natureza não é um obstáculo ao desenvolvimento. Ao contrário. Ela é a condição necessária para que possamos construir um futuro mais justo, mais humano e verdadeiramente sustentável. Porque cuidar da terra, no fundo, sempre será uma forma de cuidar das pessoas.