Indignação justificada

Nem mesmo o mau humor dos brasileiros diante da crise política, dos maus indicadores econômicos e sociais e do fosso incalculável entre os que ganham muito e os que sobrevivem do salário mínimo ou das migalhas do Bolsa Família, sensibilizam as castas de salários aviltantes nos três poderes da República. Ao tentar navegar contra essa […]

Nem mesmo o mau humor dos brasileiros diante da crise política, dos maus indicadores econômicos e sociais e do fosso incalculável entre os que ganham muito e os que sobrevivem do salário mínimo ou das migalhas do Bolsa Família, sensibilizam as castas de salários aviltantes nos três poderes da República. Ao tentar navegar contra essa corrente de insensibilidade, a partir do próprio Judiciário, que reajustou os vencimentos dos ministros em 16,38%, a presidente do STF, Cármen Lúcia, enfrenta desaforos de seus pares.

Ela foi derrotada na sessão fechada, que a maioria dos ministros votou pela concessão do aumento que faz o contracheque deles sair de R$ 33,7 mil e engordar mais R$ 5,5 mil. Só para comparar, o reajuste do salário mínimo de 2017 para 2018 ganhou míseros R$ 17, passando de R$ 937 para R$ 954. É suficiente para comprar um quilo de costela bovina na feira. Segundo matéria da revista Superinteressante,
“mesmo pobre, o Brasil tem um dos Judiciários mais caros do mundo”. Em troca, recebe um dos Judiciários mais ineficientes da Terra. Antes do reajuste, a média salarial dos 16,2 mil juízes em atividade no Brasil era de R$ 46 mil mensais.

No Executivo e no Legislativo é a mesma coisa. E assim, perto de passar o bastão do comando do STF para Dias Tófoli, Cármen Lúcia levanta a voz na defesa da consciência cívica. Ela acertou ao dizer que os desempregados devem estar “indignados” com o aumento que os ministros do STF se deram. “Eles compreendem que, mesmo havendo a defasagem dos juízes, não têm o mínimo, que é o emprego. Neste quadro socioeconômico, a gente deveria dar nossa contribuição”, apelou ela, sem ser ouvida. Agora é com o Congresso, que vai votar
a matéria, que vai beneficiar diretamente os parlamentares.

Por isso, o clima azedou no STF, cujo reajuste foi imediatamente acompanhado pelo Conselho Nacional do Ministério Público, num efeito cascata que atinge, em cheio, os três poderes já enfrentando gigantescos déficits. Vão atochar no orçamento um extra de R$ 4 bilhões nas folhas dos servidores públicos. A fatura, obviamente, será dividida entre os poderes da União e dos estados, mas terá como pagador o
contribuinte, já altamente indignado com as mazelas do cotidiano. Tudo isso, às vésperas de uma eleição geral que passa diretamente pelo humor de cada cidadão diante da urna.

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