

Dois fatos me levaram a essa provocante questão existencial. Mas, de logo, afirmo: lutar pela vida sempre foi o meu propósito, até porque, algum tempo no passado, li uma frase do longevo Oscar Niemeyer que disse: “Amo a vida e a vida me ama. Somos um casalzinho insuportável.” E, nesse amor, rindo ou chorando, superou os obstáculos dessa convivência e viveu os seus cento e tantos anos, ainda que também tenha dito que “a vida é um sopro”, outra de suas frases espirituosas. Oscar Niemeyer não morreu. Ficou para história, por ele mesmo, sua vida, e as eternas e poéticas obras arquitetônicas que esculpiu e deixou para a humanidade, no Brasil e pelo mundo afora.
Os dois fatos que me levaram a essa provocante questão existencial do viver ou morrer consistem nas mortes assistidas do poeta, filósofo e compositor Antonio Cicero, que faleceu no dia 23 de outubro de 2024, aos 79 anos, na Suíça. Ele sofria da doença de Alzheimer e optou por um procedimento de morte assistida. Cicero, membro da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 27, deixou uma carta de despedida explicando que desejava morrer com dignidade. Diz a carta o seguinte:
“Queridos amigos, Encontro-me na Suíça, prestes a praticar eutanásia. O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de Alzheimer. Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem. Exceto os amigos mais íntimos, como vocês, não mais reconheço muitas pessoas que encontro na rua e com as quais já convivi. Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia. Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu mais gostava no mundo. Apesar de tudo isso, ainda estou lúcido bastante para reconhecer minha terrível situação. A convivência com vocês, meus amigos, era uma das coisas – senão a coisa – mais importante da minha vida. Hoje, do jeito em que me encontro, fico até com vergonha de reencontrá-los. Pois bem, como sou ateu desde a adolescência, tenho consciência de que quem decide se minha vida vale a pena ou não sou eu mesmo. Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade. Eu os amo muito e lhes envio muitos beijos e abraços!” É esse o desabafo libertador do poeta Antonio Cícero, que fez o suicídio assistido para encontrar-se em definitivo com a morte. Não amava mais a vida, nem esta o amava. A morte era único desejo a escapar do sofrimento de viver.
O outro caso foi o da colombiana Catalina Giraldo, com 30 anos de idade, que, por sofrer de incurável transtorno depressivo maior, grave e persistente, já tendo tentado de tudo para curá-lo ou amenizar a sua sofrência, e, sentindo-se exausta e sem forças para continuar – “Sinto que é um inferno (…) Para mim, chega.” – recorreu, com o mesmo fúnebre objetivo, ao suicídio assistido, que, esclareça-se, é um método legal, com vigência no sistema jurídico da Colômbia, que permite a quem o pede morrer de acordo com a sua vontade. A luta dessa inconsolável colombiana com a dor da vida teve início no ano 2022, tendo o seu pedido lhe sido negado. Mas, ela não se conformou e recorreu da decisão do juiz da instância inferior. Finalmente, em 9 de julho de 2025, após uma árdua luta nos tribunais da Colômbia, morreu, de morte assistida, numa clínica médica, com a calma da pureza de uma boa morte, querida e desejada, ao lado dos seus familiares. Para essa colombiana, de apenas 30 anos, a vida foi apenas um sopro; para o compositor, poeta e filósofo Antonio Cícero, de 79 anos, sofrendo os graves sintomas de Alzheimer, não foi bem assim, embora, antes de ter ido à Suíça, submeter-se à despedida da vida, passou por Paris, ao lado do seu companheiro, para dizer adeus ao mundo, e, quem sabe, hem?!, da própria vida, que, boa ou má, para muitos, entre os quais me incluo, vale a pena ser vivida.
Antes de chegarmos ao fim desta nossa conversa, faço referência a duas inteligentes e claricianas frases: uma de Eduardo Portella, enviada num texto para Clarice Lispector, que diz: “Nós somos o que nos falta.” E outra de Churchill, em discurso após a 2ª. Guerra Mundial: “Nunca tantos deveram tantos a tão poucos.” Claro que essas frases não têm nada em comum com a eutanásia e a morte assistida (a qual é o mesmo suicídio assistido), como esses dois nada têm em comum entre si. Um é um; e o outro é o outro. Mas o grande Gonçalves Dias já nos concitava a lutar pela vida. E, na Canção do Tamoio, o nosso poeta indianista nos exorta:
“Não chores, meu filho. Não chores, que a vida é luta renhida: Viver é lutar. A vida é combate, que os fracos abate, Que os fortes, os bravos, Só pode exaltar. Um dia vivemos! O homem que é forte Não teme da morte.”
Sem querer contrariar os adeptos da morte assistida ou da eutanásia, mesmo porque a vida é e será sempre um combate, e respeitando as opções da colombiana Catalina e do poeta Antonio Cícero, Jesus nos ensina a resistir a essas tentações, quando em Lucas mostra o caminho: “Se alguém quiser vir atrás de mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia sua cruz e siga-me.” Pois assim é. E deve ser. A alegria e o sofrimento fazem parte da vida. Por isso, a vida é um combate. Só os fracos abate.
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