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A poesia é sempre necessária

Aureliano Neto - Membro da AML

Rubem Braga, o poeta da crônica, tinha e continua tendo razão: a poesia é necessária. Sempre foi e será necessária. O ser humano pode viver sem o necessário, mas não pode viver sem a poesia, tanto que, conforme os biógrafos do Velho Braga, durante seus mais de 60 anos de cronista, em que fez da poesia o fundamento da beleza e imortalidade do que escreveu, criou uma página só para publicar poemas, sob o título A poesia é necessária, posteriormente, ainda em vida, transformadas essas cotidianas publicações em um belíssimo livro.

Em resumo, diz essa parte da história de Rubem Braga: “O livro A poesia é necessária, de acordo com Seffrin, trata-se de uma antologia da poesia brasileira selecionada por Rubem, que criou uma página, em 1953, para a revista Manchete, onde publicou semanalmente dezenas de poetas até 1956. Em 1979, retomou a coluna na Revista Nacional, tabloide que circulava encartado nos Diários associados, onde manteve a página até 1990, ano em que faleceu.

O que Rubem Braga acabou por realizar com essa obra, talvez sem plena consciência disso e sem um projeto prévio, foi uma espécie de antologia nacional do gênero lírico, que cobre os cinco séculos da história do Brasil, desde o Padre Anchieta até poetas que continuam em atividade até hoje.”

Eis, em síntese, essa bela história literária do Velho Braga, que cativou e adorou a poesia, não só fazendo as suas crônicas poéticas, mas dando a necessária divulgação em revistas que, naqueles tempos antigos, iam para as bancas e vendiam mais de setecentos mil exemplares, como ocorria com as revistas Manchete, O Cruzeiro, Realidade e tantas outras, que faziam o sucesso dos leitores, submissos aos seus excelentes textos de grande força literária. Eu, um desses, que, no curso da semana ou do mês, dependendo da circulação da revista, ia às bancas de jornais, para saber se já estavam à venda. Se tivesse, dava um jeito de comprá-las para lê-las no recôndito da salinha da minha casa. E como era prazeroso!

Alguns poetas e alguns cronistas me despertaram para a poesia e para esse agradável hábito da leitura. Drummond foi um deles. Ainda nos idos tempos do Rio de Janeiro, quando a violência estava embutida nas histórias do cangaço, participei de um curso sobre poesia brasileira, onde a temática a ser estudada eram os poemas de Carlos Drummond de Andrade, então também cronista semanal do Jornal do Brasil. Naqueles anos mais antigos do passado, como gosta de acentuar e repetir o cronista e romancista Carlos Heitor Cony, ouvia-se rádio e liam-se jornais, e os malfeitores, como sequer se sonhava na existência de celulares, eram meros e inofensivos ladrões de galinha, até porque as casas tinham quintais e criavam-se por hábito e necessidade galinhas.

Pois bem, deixemos as galinhas de lado. Um dos primeiros poemas de Drummond a me encantar foi o Poema de Sete Faces, aquele cuja primeira estrofe diz assim: “Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos!, ser gauche na vida.” A terceira estrofe mostra o cotidiano da vida: “O bonde passa cheio de pernas: / pernas brancas pretas amarelas. / Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. / Porém meus olhos / não perguntam nada.”

E a última estrofe fecha esse belo poema de Drummond: “Mundo mundo vasto mundo, / se eu me chamasse Raimundo / seria uma rima, não seria uma solução. / Mundo mundo vasto mundo, / mais vasto é o meu coração.” Não esqueçamos de Quadrilha, que faz parte do mesmo livro, Alguma Poesia: “João amava Teresa que amava Raimundo / que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili / que não amava ninguém. / João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, / Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, / Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes / que não tinha entrado na história.” Quadrilha ficou para história como um poema que enfoca uma temática modernista, mas que usa a metáfora da quadrilha, uma dança popular na qual os pares vão trocando entre si, e assim Drummond retrata o amor como um jogo de desencontros. E poeticamente deu certo, tanto que é ainda cantado em prosa e verso.

Ao lado de Drummond, tem a presença de um dos maiores poeta do século XX, Manuel Bandeira, pioneiro do modernismo. Dele destaco, entre tantos poemas que sempre me encantaram, Desencanto, de 1912, cuja temática se refere ao seu fazer poético, e tem alguma semelhança com o poema Motivo, do livro Viagem, de 1939, de Cecília Meireles, que transcrevo, em seguida, algumas de suas estrofes. Mas Desencanto traz este canto poético: “Eu faço versos como quem chora/ De desalento… de desencanto… / Fecha o meu livro, se por agora / Não tens motivo nenhum de pranto. / Meu verso é sangue. Volúpia ardente… / Tristeza esparsa… remorso vão… / Dói-me nas veias. Amargo e quente, / Cai, gota a gota, do coração. / E nestes versos de angústia rouca / Assim dos lábios a vida corre, / Deixando um acre sabor na boca. /
— Eu faço versos como quem morre.”

Já a grande e eterna Cecília Meireles, no poema Motivo, nos enfeitiça literariamente com esse canto, que proclama todo um sentimento poético, que se eternizou até todos os dias e noites de nossos tempos: “Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa. / Não sou alegre nem sou triste: / sou poeta. (…) Sei que canto. E canção é tudo. / Tem sangue eterno a asa ritmada, / E um dia sei que estarei mudo: / – mais nada.”

A poesia que sai de um poema e poderia sair de uma crônica. E muitos – e quantos? – diriam, sem conter a sensibilidade poética: “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo / Perdeste o senso!” E eu vos direis, no entanto, / Que, para ouvi-las, muita vez desperto / E abro as janelas, pálido de espanto…” Imaginem, como cantou Raimundo Correia, “Se a cólera que espuma, a dor mora / N’alma, e destrói cada ilusão que nasce, / Tudo o que punge, tudo o que devora / O coração, no rosto se estampasse;”  Mas ”Se se pudesse, o espírito que chora, / Ver através da máscara da face, / Quanta gente, talvez, que inveja agora / Nos causa, então piedade no causasse!”

O Velho Braga continua certíssimo: a poesia é sempre necessária.

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Aureliano Neto
Aureliano Neto Colunista

Membro da AML e AIL