

Deu-me a louca. Não só a mim, mas ao mundo. Neste momento de pandemia digital, em que a comunicação e processo educacional são feitos por meio de email, redes sociais, podcast, videochamadas, blog, sites, aplicativos de mensagem instantânea, entre outros instrumentos, os mais sofisticados, simples e complicados possíveis, resolvi, num surto de resistência algorítmica, enfrentar as mais de quatrocentas páginas de A noite do meu bem, de Ruy Castro, escritor polígrafo de nossas letras, que nos tem legado grandes obras, não só biográficas mas as que tratam literariamente dos temas mais variados da cultura brasileira, como ocorre com a temática dos livros Trêfego e peralta – 50 textos deliciosamente incorretos -, e mais recentemente as obras Metrópole à beira-mar: o Rio moderno dos anos 20 e As vozes da metrópole: Uma antologia do Rio dos anos 20, além da sua célebre biografia de Carmen Miranda, a Pequena Notável da música popular brasileira, e a de Nelson Rodrigues, O Anjo Pornográfico, não se devendo esquecer a história da bossa nova, um dos momentos mais férteis da música brasileira, com o livro Chega de Saudade.
Na leitura dessa obra – Chega de Saudade, Ruy Castro ora destaca as nossas grandes canções bossanovistas, ora, como um arqueólogo, escava a história e traz do passado o conhecimento de algumas tragédias necessárias, até que se chega ao Copacabana Palace, por volta de 1938, onde teve o início os suntuosos eventos musicais, bem produzidos, que reuniam a elite burguesa de um tempo de muita badalação, sob a luz opaca das boates e da apresentação de grandes artistas, que deixaram os seus nomes gravados na história da música brasileira.
Mas, uma das tragédias que Ruy Castro registra foi o fechamento dos cassinos em todo o território nacional, por ato do general-presidente Gaspar Dutra e por deliberação da sua mulher Santinha, cujo efeito catastrófico foi uma quebradeira geral. Foram milhares de desempregados. Relata Ruy Castro que “…quem mais sofreria com o fim dos cassinos seria o pessoal do palco e adjacências: diretores artísticos, diretores de cena, roteiristas, cantores, maestros, músicos, arranjadores, copistas, ensaiadores, coreógrafos, dançarinas, coristas, cômicos, acrobatas, locutores, mestres de cerimônia, costureiras, aderecistas, passadeiras, camareiras, maquiadores, cabelereiros”. Vicente Paiva, o compositor de Olhos verdes, Mamãe, eu quero e Disseram que eu voltei americanizada, vendeu seus bens e foi ser motorista de táxi. Uma tragédia pessoal, não por passar a exercer a nobre função de taxista, mas por ser obrigado a deixar a arte da composição da música popular e seguir outro caminho bem diverso do que vinha fazendo com êxito popular.
Novos caminhos tiveram quer ser percorridos, a partir do Copacabana Palace, cujo proprietário Otávio Guinle, homem muito rico, criou um espaço para shows, o Golden Room. Nos shows, surgiram os crooners, que se projetaram na canção brasileira, como Carmélia Alves, Marlene, Ivon Cúri, Nora Ney, Jorge Goulart, Dóris Monteiro, Luiz Bandeira, Helena de Lima, Marisa Gata Mansa, Emilinha e muitos outros cantores, cantoras, instrumentistas e compositores, como João Donato, que, aos quatorze anos, integrava uma orquestra tocando acordeão.
Nasceu uma nova linguagem musical. Dos chorosos boleros na voz do chileno Lucho Gatica passou-se aos intimistas sambas-canções, que acalentaram grandes amores e paixões desenfreadas, na voz de Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Nelson Gonçalves (Fica comigo esta noite), Orlando Silva (Carinhoso, de João de Barro e Pixinguinha), a eterna dor de cotovelo de Maysa (O meu mundo caiu), Nora Ney, Dolores Duran (Noite de meu bem; hoje eu quero a rosa mais linda que houver e a primeira estrela que vier… hoje eu quero a paz de criança dormindo), Elizeth Cardoso (a Divina). Bem, a lista de celebridades é longa. E os tempos são outros. A vitrola está no museu descansando dos grandes saraus. As vozes que cantarolavam a eternidade do amor adormeceram no silêncio estupefato dos requebros lascivos. Beijar a mão é uma ironia dos novos tempos do amor efêmero. Mas, ainda assim, eterno enquanto for possível durar. Vivamos essa eternidade passageira na narrativa de Ruy Castro, que, em recente lançamento, deu aos seus leitores O Ouvidor do Brasil – 99 vezes Tom Jobim. Vamos viver e conviver, nas páginas que Ruy Castro que nos proporciona, ao revisitar o maestro de tantas e eternas canções, compostas com o poetinha Vinícius de Moraes. Até porque, como diz a canção de Jobim e Vinícius:
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
Precisa que haja vento sem parar
Precisa que haja vento sem parar
Tristeza não tem fim
Por