Era só chover mais forte e lá corria vovó com um amontoado de panos velhos no ombro para cobrir todos os espelhos da casa. A cena me lembrava o espelho mágico da Branca de Neve e jurava – até apostei com meu primo – que talvez aparecesse algum ser magnífico em tempos de tempestade no meio daquela moldura retangular. Mas era só eu afastar um milímetro do pano para matar a curiosidade que ouvia minha vó gritar: “Larga isso, menino! Cuidado com o raio”.

Espelho, espelho meu

Eu fiquei com medo de espelhos durante tempestades, por muito tempo. Aliás, colocava todos os espelhos no sentido contrário ao da janela. Mas será que a preocupação da minha avó tinha fundamento? Fui averiguar. Descobri.

Primeiro, espelhos não atraem raios; segundo, a história pode explicar o porquê da minha avó achar que eles atraiam.

Tudo começa no Brasil Colonial, quando as pessoas usavam espelhos grandões. Para sustentá-los, as pessoas usavam grandes estruturas metálicas, com pontas que se sobressaiam. Isso realmente atraia raios para dentro da casa. Mas não por causa dos espelhos, mas pelas estruturas.

De acordo com Gunter Rescheke, do Núcleo de Geoambiental da Universidade Estadual do Maranhão: “Não. Cobrir os espelhos durante uma chuva não tem fundamento científico”.  Trata-se de um mito antigo, que tem origem no fato de o raio produzir uma luz forte que, refletindo-se no espelho, parece ter vindo dele.

Outros mitos semelhantes dizem respeito aos raios serem atraídos por acessórios como fivelas de cintos, pulseiras e colares. Na verdade, o que pode atrair um raio em sua direção são objetos metálicos grandes, como varas de pesca, tripés e tacos de golfe. Veículos sem capota, tais como tratores, motocicletas ou bicicletas, também oferecem risco, e a própria água atrai eletricidade. É recomendável ficar atento principalmente a objetos altos, como chaminés e árvores, em especial se estiverem isoladas.

Vale ressaltar que os raios são fenômenos imprevisíveis, tanto em relação às suas características elétricas como em relação aos efeitos de sua incidência sobre as edificações, as pessoas e os animais. Por isso, todo cuidado é pouco. Ouça sua avó.