37 ANOS DE BUSCA

Gêmeas dadas à adoção em São Paulo procuram mãe biológica maranhense 37 anos depois

Juliana e Amélia foram entregues a uma família adotiva pela mãe, que foi do Maranhão até São Paulo para buscar uma vida melhor. Agora, uma das gêmeas busca reescrever sua história

Parece enredo de novela: duas irmãs gêmeas recém-nascidas que vieram ao mundo numa véspera de Natal são dadas à adoção pela mãe, que foi do Maranhão até São Paulo para tentar uma vida melhor. Crescem em uma família estruturada, estudam, constroem novos laços… E agora, 37 anos depois, uma delas busca, além de reencontrar a mulher responsável por carregá-la por nove meses no ventre, respostas.

Esta é a história real das irmãs Juliana e Amélia. Elas nasceram às 20h10 do dia 24 de dezembro de 1980 na maternidade Santa Joana, no bairro Ipiranga, em São Paulo. A mãe, identificada apenas como Olga, tinha na época 26 anos, e havia deixado já um filho de aproximadamente quatro com a avó, no Maranhão. Já em solo paulista, engravidou logo de gêmeas, e, sem condições de criá-las, comentou com a enfermeira que não queria as bebês.

“Essa enfermeira trabalhava em dois hospitais e comentou se alguém se interessava. Uma funcionária do outro hospital disse que conhecia uma família, então pegou o telefone e ligou para confirmar o interesse, intermediou com uma senhora chamada Dona Amélia, moradora de um bairro acostumada a fazer esse tipo de contato entre a mãe biológica e a futura família”, explica Juliana.

A mãe queria que as duas fossem adotadas pela mesma família. “Fomos criadas com conforto e carinho. Pudemos estudar nas melhores escolas e fazer faculdade, pós-graduação e MBA”, conta uma das gêmeas, Juliana, que se formou fisioterapeuta e trabalha como supervisora administrativa em uma empresa. A mãe, após dar as crianças, recebeu dinheiro e disse que voltaria para o Maranhão.

Juliana foi mãe cedo, aos 17 anos. Mas conta que nunca pensou em dar a filha, apesar das dificuldades enfrentadas após ser expulsa de casa pela gravidez. “Fui morar com meu namorado que era 11 anos mais velho. Passei muitas dificuldades, mas nunca nunca pensei em abortar ou dar minha filha para alguém. Pelo contrário, ela me fortaleceu para eu correr atrás dos meus objetivos e eu venci. Tenho casa, carro, um trabalho bom, condições financeiras e uma família. Tudo parece perfeito, não? Mas não consigo ser feliz por completo é como se faltasse uma peça de quebra cabeça”, comenta.

Descoberta e busca

Apesar de sempre saberem que foram adotadas, uma parte importante da história de Juliana e Amélia foi omitida. “Minha mãe adotiva dizia que éramos filhas do coração, que minha mãe biológica tinha morrido […] e rezava com a gente pra nossa mãe biológica nos proteger de onde ela estava“, revela. Foi aos 13 anos que elas descobriram, através de uma tia, que ela estava viva e as tinha doado. Na época, as gêmeas não entendiam a gravidade da situação.

A vontade de encontrar a família biológica e reescrever a história de vida sempre foi algo que esteve presente na vida de Juliana. A irmã, no entanto, é contra, o que sempre impediu a busca. “Essa história não é só minha. Hoje infelizmente não converso com ela por outros motivos e sinto que chegou a hora”, diz Juliana, que afirma já ter tentado esquecer, através do refúgio em Deus e ajuda psicológica. “Algo me prende, não sei explicar. É mais forte que eu […] Não me reconheço nesta família, sinto que vivo a vida de outra pessoa e não a minha própria“, completa.

Expectativas

Juliana diz que não cria expectativas de que a mãe biológica vá lhe aceitar como filha. “Acredito que amor é convivência mas não podemos negar que o DNA e o laço sanguíneo conta muito”, opina. Este ano, a gêmea contratou uma advogada, que entrou com um pedido no hospital Santa Joana para buscar os registros, mas até agora não obteve respostas, além de uma perita de documentos, que analisou alguns arquivos que pudessem ajudá-la a chegar até a mãe.

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