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Somente depois da ativista Luisa Mell compartilhar o vídeo da enfermeira flagrada atropelando dois cachorros para seus quase 2 milhões de seguidores do Instagram, o caso, que aconteceu em São Luís, tomou proporções nacionais e reascendeu-se a discussão acerca de maus tratos e direitos dos animais.

A carreira de Luisa na televisão foi marcada pelo programa Late Show, transmitido todo domingo pela RedeTV, onde abordava temas do mundo animal e ecoturismo. Hoje, é uma das maiores defensoras da causa animal do país, sendo conhecida por resgatar gatos e cachorros em situações de risco e mostrar todas as etapas do processo em suas redes sociais – desde invadir o local onde eles estejam presos até a campanha de doação, quando são entregues a novos donos. Nós d’O Imparcial entramos em contato com a ativista e conversamos sobre o vídeo, veganismo, política e meio ambiente. Confira a entrevista:

O Imparcial Quando foi que surgiu seu interesse pela causa animal? Luisa Mell Eu escrevi um livro esse ano chamado "Como os animais salvaram a minha vida", pela editora Globo. Nesse livro eu conto tudo, desde a minha primeira interação com os animais até virar minha missão de vida. Quando eu adotei minha primeira cachorra, em 2000, percebi a aversão que as pessoas tinham por ela ser vira-lata; desde então, me envolvi na causa. Os animais são massacrados em todas as esferas, desde o comércio de animais domésticos até os animais de consumo, da indústria alimentícia, da moda. O Instituto Luisa Mell é focado nas situações com cães, gatos e cavalos. A gente resgata, cuida e põe para adoção. O Imparcial Na última semana, o vídeo que flagrou uma enfermeira atropelando cachorros viralizou em São Luís. Você deu visibilidade nacional ao caso e se ofereceu para cobrir os custos veterinários. Como você ficou sabendo do caso? Luisa Mell Eu estava em Minas Gerais, gravando uma matéria; quando peguei o celular, o mundo inteiro estava mandando mensagem para o instituto. Quando assistimos ao vídeo, ficamos totalmente horrorizados com a cena de violência, de covardia. Quando descobrimos onde tinha acontecido, fizemos os contatos necessários para que ela seja punida. A gente sabe que é difícil... O Imparcial Quais são as medidas que devem ser tomadas em relação a esse e outros casos de maus tratos aos animais? Luisa Mell O ideal é que a pessoa seja pega em flagrante, nas primeiras 24 horas do boletim de ocorrência, porque assim ela pode ser presa na hora. Por isso que a enfermeira ficou escondida até o dia seguinte. Na maioria das vezes, o mais difícil é conseguir provas, então gravar o vídeo ajuda muito. Agora, a gente tem que ficar em cima para o caso não ser arquivado, como a maioria deles é. Normalmente o agressor paga uma multa ou uma cesta básica, mas o principal - baseado na minha experiência - tem sido a punição por parte da sociedade. Por causa da repercussão do vídeo, a moça foi demitida do trabalho, teve sua imagem manchada, então a pressão da sociedade tem sido maior, infelizmente, que a proposta pela nossa legislação. Ela era uma enfermeira, que teoricamente dedica a vida para cuidar dos outros. Você colocaria sua mãe, idosa, para uma enfermeira assim ajudar? É uma coisa muito séria. A gente sabe que uma pessoa que é cruel com animais também é cruel com uma pessoa. O Imparcial A época das eleições está chegando. Para você, qual o papel dos políticos na defesa aos direitos dos animais e do meio ambiente?  Luisa Mell Existe uma bancada ruralista que praticamente domina o congresso e manda no país. Então, a gente não consegue ter nenhum avanço na área ambiental, mesmo vivendo em um momento seríssimo de desmatamento total da floresta amazônica. O governo continua investindo bilhões e bilhões no agronegócio, mas enriquecendo só meia dúzia - o maior índice de trabalho escravo também é relacionado à pecuária. Vemos a bancada ruralista querendo liberar a caça de animais silvestres, fazendo a ANVISA não ter mais controle sobre os agrotóxicos... Muitos deles levantam a bandeira da causa animal, isso virou moda - mas quando você pesquisa seu passado, seus projetos aprovados, suas propostas, seu partido, se mostra o contrário. A gente precisa entender a importância do meio ambiente e estudar em quem vai votar, depois acompanhar, ficar em cima, cobrar. O Imparcial No seu ativismo, você é considerada "muito radical" por grande parte das pessoas. Por que existe essa aversão? Luisa Mell Infelizmente, vivemos na ignorância. Achamos que, para salvar o mundo, basta fechar a água da torneira - enquanto a água gasta em um só hambúrguer corresponde a três meses de banho. Ou que basta deixar de usar canudos plásticos para não poluir, enquanto a poluição provocada pela agropecuária é maior do que a de todos os meios de transporte juntos. A grande mídia omite essas informações porque elas não interessam aos grandes anunciantes, os donos de todo esse negócio. Nascemos escutando, na escola, na televisão, que temos que beber leite da vaca e que não dá para viver sem carne. Então quando se ouve que é preciso mudar, a primeira reação é a recusa, é me chamar de "louca", de "radical". Felizmente, hoje temos a internet. Podemos ir atrás da informação. Comecei minha luta pelos animais, sim, mas hoje entendo que é muito mais - é pelos humanos, pelo planeta. O Imparcial Seus vídeos de resgate sempre geram comoção. Você acha que o mundo está ficando mais consciente para as questões animais e ambientais? Luisa Mell Casos de cachorros e gatos sempre comovem. Vemos uma mudança incontestável no tratamento deles, com as campanhas de adoção de vira-latas e outras ações. Em relação aos outros animais, a mudança está acontecendo - o número de vegetarianos cresceu muito nos últimos tempos -, mas em velocidade muito pequena para o tamanho do problema. Estou sempre executando projetos onde possa transmitir minha experiência e informações para o maior número de gente, dedico minha vida a isto, e tenho visto resultados. A mudança está em nossas mãos, em escolhas que fazemos todos os dias. Sabe aquele ditado do efeito borboleta, que o bater de asas aqui pode causar um tufão do outro lado do mundo? É nisso que eu acredito: cada pessoa, cada atitude reverbera de alguma forma no mundo.