EDITORIAL

A fuga da poupança

No mês em que se comemora a maioridade (21 anos) do Plano Real, o brasileiro mais pobre vê com perplexidade e tristeza a sangria do mais tradicional e seguro esconderijo para o dinheirinho que sobrava do salário — a poupança. Simples, disponível a qualquer momento e isenta de impostos, a poupança se consolidou como a […]

No mês em que se comemora a maioridade (21 anos) do Plano Real, o brasileiro mais pobre vê com perplexidade e tristeza a sangria do mais tradicional e seguro esconderijo para o dinheirinho que sobrava do salário — a poupança. Simples, disponível a qualquer momento e isenta de impostos, a poupança se consolidou como a mais popular das aplicações financeiras para pequenas e médias quantias. Remunerava modestamente, mas com dignidade, o esforço e a prudência de quem evitou gastar tudo o que ganha para formar uma reserva.
Desde o início do ano, quando o lixo inflacionário, que tinha sido varrido para debaixo do tapete eleitoral, começou a bater no custo de vida, a poupança tornou-se mais uma vítima das trapalhadas do primeiro governo de Dilma Rousseff. O desrespeito ao sistema de metas de inflação e de geração de superavits primários nas contas públicas cobra seu preço. Os pilares do Plano Real não foram estabelecidos por mero capricho. São parte fundamental da política econômica que livrou o Brasil de décadas de hiperinflação e de endividamento público descontrolado.
Não faltaram avisos de que a troca frequente do centro da meta pelo teto e as estripulias com o gasto público (muitas vezes ocultas por manobras contáveis – pedaladas) colocariam em risco esses pilares. Os alertas eram tidos como profecias de mau agouro de oposicionistas de plantão. Milhares de pessoas que estão perdendo o emprego ou vendo o salário perder a corrida para a conta de luz, o preço da alimentação, dos remédios e do transporte comprovam hoje no dia a dia quem estava mentindo. Já sabem que a inflação é de 9%, o dobro da meta de 4,5% ao ano, e que não há sinal de que ela caia até o fim do ano.
Por isso mesmo, os que tinham poupado cancelam planos de viagem ou de compra de bens duráveis e, ainda assim, não conseguem mais poupar e são obrigados a sacar o dinheiro guardado. Ou seja, a inflação que Dilma guardou até ganhar a reeleição veio tão forte que acabou engolindo a poupança. No primeiro semestre, a diferença entre saques e depósitos mostra perda de R$ 38,5 bilhões, o pior resultado que a velha caderneta registrou em muitos anos. Não foi só a falta de dinheiro para as compras que levou a essa perda. A disparada inflacionária empurra os juros para cima, e muita gente que se deixou enganar pelas promessas de um Brasil paradisíaco e feliz se endividou. Agora, corre para quitar a dívida, antes que o bolo cresça demais.
É com o dinheiro da poupança que a compra da casa própria é financiada. A esperança de que essa fonte de recursos não perdesse tanto sangue estava nos poupadores que têm quantias maiores e, portanto, não precisam sacar. Nem isso a inflação permitiu, pois a velha caderneta não consegue mais concorrer com aplicações mais sofisticadas e que, mesmo pagando impostos, rendem mais. A poupança, infelizmente, é hoje apenas mais uma prova de que a inflação é o imposto do pobre e que governo sério é o que não brinca com o fogo da inflação.
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