Virou bordão desajuizado dizer-se que o brasileiro não tem memória, não exerce o seu direito à memória ou não cumpre o seu dever de memória. Em síntese: é um amalucado. Mas essa observação é meio vaga e só em parte tem algo de verdadeiro.

A memória histórica precisa de dinheiro gordo para ser preservada e ficar para gerações futuras. Quando ocorre um incêndio devastador do maior museu da América Latina, como o Museu Nacional, todo mundo dá opinião e aponta culpado pelo desleixo com a história e a cultura.

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Mas cadê a cultura impregnada na mente dos brasileiros? Por que tem mais brasileiros gastando milhões de euros todo ano para visitar o Museu do Louvre em Paris e nem a metade dessa curiosidade cara se volta para o Museu Nacional, transformado em cinzas, ontem? Os brasileiros vão ao Louvre tirar foto, mesmo que não entenda uma única peça do vasto acervo. Cultura é um intrincado grau de conhecimento e saberes sobre arte, crenças, lei, moral, costumes, hábitos e aptidões adquiridos pelo ser humano. Não é exagero dizer que o brasileiro ainda está longe de ser um depositário de cultura no sentido clássico.

Como imaginar que alunos incendeiem, nas periferias de São Luís, a própria escolar onde adquirem conhecimento, sem pagar nada por isso. Puro ato de vandalismo? Isso é tão grave quanto um desocupado se divertir soltando balões no Rio, que pode ter um sido o responsável pela destruição do maior museu das Américas, com 20 milhões de itens de valor histórico e cultural. Se a cultura é um balaio de conhecimentos clássicos e populares, não deixa de ser uma esculhambação geral, depois que o Museu Nacional virou cinzas, banqueiros e seus parceiros bilionários se reunirem para salvar o Museu que não existe mais.

Parece um deboche o governo federal destinar a verba de R$ 50 mil, em 2018, para manter o maior museu das Américas e depois lamentar o incêndio. Agora, a nata do baronato brasileiro quer fazer o Museu Nacional – como a fênix – ressurgir das cinzas. Só mesmo quem acha que a cultura destruída no Brasil é semelhante ao pássaro da mitologia grega que, quando morria, entrava em autocombustão e, passado algum tempo, renascia das próprias cinzas.