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Após elogio a Sarney, Lula visita o Maranhão com Dino

Sete anos depois, ex-presidente retorna ao estado que rendeu a maior votação proporcional ao Partido dos Trabalhadores (PT) nas últimas eleições

Paulo Malheiros

Sete anos após sua última passagem pelo Maranhão, quando ainda tomava café com Roseana e pregava o sonho de uma refinaria em Bacabeira, Lula retorna ao estado que rendeu a maior votação proporcional ao Partido dos Trabalhadores (PT) nas últimas eleições. A caravana “Lula pelo Brasil”, que durou 20 dias e percorreu 25 cidades, foi finalizada em um ato público na praça Dom Pedro II, Centro Histórico de São Luís.

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, já dizia Luís de Camões. Agora, com o cenário modificado, Dilma apeada do poder e a Lava Jato em seu encalço, o filho pródigo retornou à casa com novo anfitrião – desta vez com Flávio Dino.

Lula foi recebido na mesma praça onde, em 1966, Sarney tomou posse do Governo e discursou para as câmeras de Glauber Rocha em roteiro contra a fome, a miséria, o analfabetismo, a mortalidade infantil e a falta de indústrias e empregos no Maranhão daquela época. Em frente ao imponente Palácio dos Leões, foi a vez de Lula ser filmado por uma multidão de smartphones ligados.

O ato público – eu preferia chamar de comício pré-campanha – teve a animação da banda Mix do Brasil, com músicas como Rapunzel, de Daniela Mercury, e Princesa, de Amado Batista. Entre as trêmulas bandeiras da Une, CUT, CTB, Ubes, também existiam muitas placas de 4 cervejas por 10 reais. “Eu vim para olhar o Lula e vender também, né? Ele fez errado? Fez. Mas foi o único que fez errado, mas também ajudou o povo. Eu votei nele e vou votar de novo”, me confessou Raimundo César, de 52 anos, que aproveitou o movimento para vender seus produtos no local. Manifestações folclóricas regionais, como grupos de Bumba Meu Boi e Tambor de Crioula também se apresentaram.

O exausto protocolo político foi seguido. Antes de Lula discursaram vários outros políticos, ex-políticos e quem tem relação com políticos. A plateia esperava já sem paciência. Uma senhora ao meu lado gritou: “Cadê o Lula? Eu quero ver é o Lula!”.

Grupos de vários municípios do Maranhão marcaram presença. “Eu faço parte de movimentos sociais. A gente veio pelo partido. Nós estamos com ele. Ele é o melhor presidente do Brasil”, me disse Ana Cássia, que é de São Mateus, tem 40 anos, e ostentava uma camisa com a foto sorridente de Lula sobreposta de letras garrafais: “O Brasil precisa voltar a ser feliz”.

A professora Maria Cunha, de 62 anos, que veio de Rosário com mais 50 pessoas, estava eufórica quando perguntei o que falaria caso tivesse a oportunidade de trocar algumas palavras com o ex-presidente. “Ele é o único que trabalhou pelo nosso Brasil. Volta, Lula! Te esperamos”, disse gritando, com um sorriso no rosto.

Já passava das 19h quando o locutor chamou Lula ao palco. O povo gritava a ladainha já clichê da militância – “Lula, guerreiro do povo brasileiro”- quando um senhor de aparente 50 e poucos anos teve a pachorra de gritar em alto e bom som “Ele é um ladrão. Isso sim!”. Ele recebeu uma vaia e logo saiu das proximidades. Apesar das faixas que apareceram na cidade na véspera, não havia número considerável de pessoas contra o ato em frente ao palco.

Lula iniciou sua apresentação com pontuações sobre a Lava Jato e projetos que foram iniciados durante sua gestão. “Filha de empregada agora pode ser médica”. O discurso parecia um ctrl-c de um outro qualquer. “Um dia o Bonner vai me pedir desculpa. A Globo vai me pedir desculpa. A grande mídia não mostra a caravana”. Intermitente, Lula era interrompido por aplausos. “Eu serei candidato para ganhar”, “O povo pode, eu sei que o povo pode”.

Não houve citação ao elogio feito a Sarney, na mesma caravana, dias antes, na cidade de Pernambuco, quando o ex-presidente, após rasgar seda ao cacique do PMDB, disse que “Eu acho que você tem que medir essa decisão em cada momento. Você não precisa fazer um acordo definitivo. Você pode fazer acordos pontuais em cima de cada projeto”.

Ao final do evento Lula foi coberto por um mar de fãs com celulares em punho.

Como já dizia Camões: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.

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