A capoeira surgiu no período colonial como símbolo de resistência.

O som cadenciado do berimbau, do pandeiro e do atabaque e as cantigas encorpadas em coro anunciam: há uma roda de Capoeira por perto saudando as heranças dos antepassados de todos nós, por vezes ofuscados pelos ‘grandes feitos do homem branco’. De “paranauê” à “paraná”, a Capoeira é sobretudo símbolo de uma filosofia de vida e de saberes que resistem através do tempo.

“A Capoeira não é só um instrumento de defesa pessoal, ela é um sentimento de estar no mundo, de ser no mundo”, explica o Mestre Marco Aurélio, do Centro Matroá, que passou a dispensar o termo ‘capoeirista’ e a utilizar o título de ‘capoeira’ após um período de aprendizado na Escola de Capoeira Angola do Laborarte, do eterno Mestre Patinho. “O termo capoeirista era muito pequeno pra dimensão que a gente sentia dentro da Capoeira”, relata o Mestre, fazendo questão de frisar: “eu sou capoeira”.

A historiadora e capoeira Nila Michele aponta que na cultura afro-brasileira existem elementos carregados dos chamados valores civilizatórios afro-brasileiros: circularidade, religiosidade, corporeidade, ludicidade, oralidade, musicalidade, cooperativismo, memória, ancestralidade e Axé – energia vital. “Na maioria das expressões culturais afro-brasileiras vemos dois ou três desses elementos, mas é somente na Capoeira que todos estão presentes, e isso é fantástico”, pontua Nila.

Na história, resistência

Legado dos povos que construíram o Brasil desde a Colônia e genuinamente brasileira, sem tirar nem pôr, a Capoeira conta com diversas hipóteses sobre seu surgimento. Nila Michele explica: “para alguns ela é rural e miscigenada com indígenas, ora o próprio nome ‘Capoeira’, indígena, refere-se aos matos ralos que os escravos tinham que capinar para poder realizar a lavoura. Outros afirmam que a Capoeira é urbana, criada por escravos para se proteger e ainda resistir à escravidão”.

Para Mestre Marco Aurélio, a Capoeira não é africana em si, mas se configura através de matrizes africana, e é, sobretudo, miscigenada. Ela nasce, na concepção do Mestre, em Palmares, “das relações de diversos povos e nações africanas, principalmente, indígenas, e posteriormente europeias”, aponta.

De angola à regional: sabedoria

Existem dois tipos de Capoeira. A de Angola, termo dado em terras baianas para a Capoeira tradicional, segundo Mestre Marco Aurélio, é caracterizada pela forma rasteira de jogar e pela sonoridade mais cadenciada. Já a Regional surge como um método criado por Mestre Bimba e conta com elementos também de outras artes marciais, sendo jogada de forma um pouco mais ‘alta’, como aponta Nila Michele.

“A Capoeira tem como elemento a circularidade, e você tem basicamente três berimbaus, um atabaque e um pandeiro. Algumas rodas possuem também um agogô”, explica a historiadora e capoeira, em referência à instrumentação da manifestação.

Nila ressalta que cada grupo tem sua própria dinâmica e hierarquia: o Grupo Raça, do qual participa, por exemplo, conta com o Mestre, os contramestres, professores, formados e os demais alunos. A posição é definida pelo cordel, uma corda amarrada à calça que varia de cor de acordo com a graduação do capoeira. No Grupo Raça, os cordéis possuem as cores da bandeira do Brasil. “Ela começa com o cordel branco e termina também com o branco, pra provar que entre o iniciante e o mestre há um caminho longo a percorrer, mas a gente chega também ao mesmo elemento. O mestre é aquele que ensina, mas está em constante aprendizado”, destaca.

Apesar de existir uma Confederação Brasileira de Capoeira, não há regras firmadas que contemplem a diversidade da manifestação ao redor do Brasil, aponta o Mestre Marco Aurélio.

‘Coisa de malandro’

Por ter raízes africanas e indígenas, a Capoeira sempre foi marginalizada. Perseguida à ferro e fogo na época da escravidão, sua prática chegou a ser também proibida pelo Marechal Deodoro da Fonseca em 1890. Sua descriminalização só ocorreu em 1940, após a criação da Capoeira Regional de Mestre Bimba. O preconceito perdurou por muito tempo, e ainda encontra espaço nas mentes que seguem pobres de sabedoria, apesar da manifestação ter sido reconhecida pela Unesco, em 2014, como Patrimônio Imaterial da Humanidade por ser legitimamente brasileira e símbolo de resistência.

Nila revisita, ainda, uma triste atribuição dada ao capoeira: a de ‘malandro e vadio’. “[A ideia] foi largamente difundida e ainda não saiu do imaginário da população, mas felizmente iniciativas como a de promover um dia para a capoeira demonstra que a luta contra o preconceito permanece viva e que um dia teremos a valorização que ela merece”, comenta Nila, fazendo menção ao Dia do Capoeirista, comemorado no dia 3 de agosto, data que, apesar de não ser oficial – embora haja projetos de lei em tramitação no Congresso para tal –, passou a ser difundida em todo o Brasil.

As heranças de Patinho e Euzamor

Este ano foi de perdas para a Capoeira brasileira. Faleceram, com pouco mais de um mês de intervalo – entre junho e julho –, Mestre Patinho e Mestre Euzamor, grandes vetores da cultura maranhense, que deixaram como legado o que há de mais importante para a humanidade: sabedoria. “Eram griôs. Os griôs são quem detém saberes, conhecimentos profundos, que são fontes inspiradoras e são fontes alimentadoras”, relembra o Mestre Marco Aurélio com saudosismo, em referência a Patinho e Euzamor.

Euzamor (esquerda) e Patinho (direita) possuíam grande respeito mútuo, diz Mestre Marco Aurélio.

Marco Aurélio, que se tornou Mestre com os ensinamentos de Patinho, revela: “Eu não tinha visão do que o Mestre chamava de derredor. O mestre me fez ter uma amplitude na minha percepção. [Ensinou a] agir com simplicidade sobre as coisas, ver o mundo de uma maneira mais simples”.

“A morte de Patinho e de Euzamor foram de profundo pesar pra todo capoeirista ou mesmo pra toda pessoa que gosta da capoeira. Eles construíram pessoas”, saúda a historiadora e capoeira Nila Michele.

Genuinamente brasileira

A Capoeira é nossa, disso não há dúvidas. Mas, segundo os capoeiras, ainda há um longo caminho a ser trilhado para o reconhecimento da manifestação. “Talvez a Capoeira seja um dos elementos culturais que mais leva a língua nacional pro mundo. Nós estamos em quase 160 países, e quem canta, canta nossos cantos”, comenta Mestre Marco Aurélio.

O Mestre, no entanto, finaliza em tom de lamento: “A Capoeira é um instrumento pedagógico estupendo, mas os governos e a elite brasileira pela sua visão tacanha, obtusa, não conseguem dar valor. A Capoeira é um instrumento aglutinador de cidadania”.