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Geralmente escondidos entre os casarões dos centros das cidades, os sebos são portais para outros universos. Quem adentra nos emaranhados de livros, discos, gibis e outros itens de segunda – ou terceira – mão (sem, é claro, desmerecer o conteúdo), encontra ali um refúgio nos romances, contos, suspenses, Bossas, MPBs, Rock ‘N’ Rolls, ou na infinidade de gêneros contemplados pelos produtos encontrados nos estabelecimentos.

Josilene Silva é proprietária há 22 anos da Livraria Egito, localizada na Rua do Egito, no Centro. Ela, que sempre trabalhou com a compra e venda de livros didáticos, hoje expandiu o negócio para contemplar também livros de literatura e discos de vinil, medida tomada para contornar a crise e o baixo movimento da época. A alfarrabista – nome dado a quem comercializa livros usados – mostra com orgulho os produtos recém-adquiridos. Conta que os preços começam na faixa de R$ 4, o que pode variar de acordo com o estilo. São, em sua maioria, vinis maranhenses e de reggae. “Os discos de reggae são bem mais caros, os DJs procuram muito”, conta Josilene.

O sebo de Josilene contempla um mundo à parte na ilha. São vários os achados: o Sebo do Arteiro e Chico Discos, no Centro, Sebo do Adriano, no João Paulo e a Poeme-se, na Praia Grande, são apenas um aperitivo do que os empreendimentos – muitas vezes aparentemente modestos –, têm a oferecer.

O fato é que quem frequenta os sebos, o faz com fidelidade. É o caso do produtor cinematográfico Raffaelle Petrini, que “desde sempre” compra discos de vinil, livros e filmes – e faz questão de ressaltar: já encontrou produções em DVD, VHS, Blue Ray, película 35, 16 e 8mm, e em Super 8. “Eu comecei a me interessar porque eu via dentro do sebo uma oportunidade de encontrar coisas das quais eu nem sabia da existência. [Nas livrarias] a gente entra já sabendo o que a gente quer, e no sebo não, a gente passa um tempo maior, procura, garimpa, descobre coisas, então isso é o que mais me fascina”, comenta Raffaele.

O professor universitário Junerlei Dias segue uma linha parecida: não lembra com que idade começou a comprar em sebos, mas conta que passou a frequentá-los por influência do pai e em resistência à tia e à mãe, que diziam que “livros velhos, além da poeira, traziam cargas espirituais dos antigos donos”, recorda Junerlei. “Quase sempre procuro livros de contos, poesia, novela literária e romances”, comenta. Orgulhoso, o professor, que frequenta principalmente os sebos Poeme-se e Educare, revela o achado feito recentemente: a versão bilíngue do clássico Moby Dick, do estadunidense Herman Melville.

O que parece ameaçador pode impulsionar

O mundo digital talvez tenha desviado os olhares dos livros, discos de vinil e gibis, mas quem ‘vive’ os sebos, tanto nas compras quanto nas vendas, nega que a prática esteja sendo prejudicada.

A comerciante Josilene Silva não vê problemas nos chamados ‘sebos digitais’, como o site Estante Virtual, plataforma que direciona compradores para sebos ao redor do Brasil, que se colocam como opção para o comércio de livros usados online. “É uma ótima alternativa. Eu também estou nos grupos, eu jogo os livros nos grupos, consigo vender também. Trabalho com outros livros, com discos, que agora voltaram”, explica Josilene.

“Eu escuto música no Spotify, leio livro eletrônico, vejo filme pela Netflix, mas eu ainda vou ao cinema, ainda compro vinil, e também leio livro físico. Eu acho que a internet pode ser uma alavanca para o sebo”, opina Raffaele Petrini. O produtor audiovisual, no entanto, complementa em tom de alerta, fazendo menção à raiz dos empreendimentos: “[O sebo] tem o charme retrô. Tem sebos que têm ares de tempos passados, a gente entra e parece que está em um museu de verdade, mais que uma livraria”.

Junerlei Dias, que nunca leu um livro digital sequer, pensa que sites como a Estante Virtual “salvam vidas”, e que em um futuro distante os livros não serão mais publicados. “O virtual vai matar os alfarrabistas desorganizados e ajudar os que tiverem faro para novos negócios, penso que o modelo de venda da Estante Virtual aponta pra isso e não vai demorar o advento da venda de livros virtuais no sebo”, explana.

Sobre o futuro dos sebos, a comerciante Josilene mostra esperança e determinação. “Eu quero ampliar a loja, estou precisando de um espaço maior. E pretendo ficar no ramo, que é uma coisa que eu gosto muito”, finaliza.

Um pouco de história

A tradição, diz a história, começa na Europa do século XVI com a venda de papiros e documentos para pesquisadores. Os alfarrabistas – título que vem de alfarrábio, que significa livro velho –, também eram chamados estranhamente de ‘caga-sebo’. O nome peculiar conta com várias explicações: uma delas diz que os livros ficavam ensebados por permanecerem debaixo dos braços dos jovens fissurados por leitura de antigamente. Outra, no entanto, conta que as pessoas liam à luz de velas, que, feitas de gordura, escorriam sobre os livros deixando-os gordurosos.