EDUCAÇÃO

Menos recursos para Filosofia e Sociologia

Presidente da República Jair Bolsonaro postou em suas redes sociais que o Ministro da Educação estuda descentralizar os investimentos em faculdades de Sociologia e Filosofia

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Presidente da República Jair Bolsonaro postou em suas redes sociais que o Ministro da Educação estuda descentralizar os investimentos em faculdades de Sociologia e Filosofia

“…alunos já matriculados não serão afetados. O objetivo é focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como: veterinária, engenharia e medicina”. A postagem do Presidente da República Jair Bolsonaro gerou insatisfação e contrariedade entre os profissionais da educação.

A postagem foi na manhã desta sexta-feira (26) em suas redes sociais, sugerindo que o Ministério da Educação poderá reduzir verbas para cursos de filosofia e sociologia. O assunto já havia sido anunciado na noite de quinta-feira durante sua transmissão ao vivo.

Aqui em São Luís, conversei com professores e especialistas na área que demonstraram toda a sua indignação a respeito desse indicativo do Ministério da Educação. 

“Nem Hitler propôs isso…”. Foi assim que o filósofo Marco Rodrigues, professor de filosofia nas redes pública e privada de ensino,  escritor, e Mestrando em Teoria Literária pela UEMA, começou o seu desabafo. “Eu queria realmente ser capaz de adentrar na compreensão da linha de pensamento dessas pessoas. Infelizmente não consigo, uma vez que as dimensões da burrice são tão profundas que quaisquer métodos hermenêutico, analíticos ou exegéticos sucumbem absolutamente. O ódio ao conhecimento é um sintoma grave de acefalia generalizada”, disse o professor. 

Para o professor de Sociologia da rede pública estadual e da rede privada, Rafael Carlos, os impactos dessa política de aversão ao conhecimento filosófico e sociológico, com a diminuição do incentivo aos programas de pesquisa destas áreas combinados com a proposta da retirada da obrigatoriedade das duas disciplinas do currículo da educação básica são preocupantes em muitos sentidos. “Desde a desvalorização das carreiras profissionais, a diminuição de espaço no mercado de trabalho para os profissionais e graduandos até a despolitização ou apatia política que seriam os aspectos mais danosos se quisermos construir uma sociedade mais justa e democrática”, apontou Rafael Carlos.

A professora do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão e Presidente do Fórum de Filosofia do Maranhão, Zilmara de Jesus Viana de Carvalho, diz que esse tipo de ação se configura como um retrocesso na educação brasileira. “Significa fazer o Brasil voltar no tempo, mas de um modo impensável, posto que mesmo apesar da retirada da filosofia do currículo do ensino médio pela ditadura militar, os Cursos de filosofia foram mantidos, ainda que não encontrando nesse cenário seus melhores dias. Entretanto, o obscurantismo, tiremos o chapéu, parece a cada dia encontrar formas novas de se reinventar, e sob o ardil de sua veemente caça aos ‘comunistas’ deparou -se com o que lhe soa como o seu reduto”, comentou a professora.

Os cursos não dão retorno imediato

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, também defendeu diminuir a verba para cursos de humanas. Ele afirmou que se espelha no Japão, que prefere investir em cursos como veterinária, engenharia e medicina.

Sobre isso, Rafael Carlos acredita ser  um indicativo de como serão as políticas públicas voltadas ao campo da educação durante o atual mandato. “O foco em áreas de ‘retorno imediato ao contribuinte’ e a descentralização de investimentos e consequente enfraquecimento das áreas de filosofia e sociologia denotam uma preocupação em promover uma educação tecnocrata que tem como objetivo central a formação de profissionais para o mercado, de forma instrumental, sem promover a formação crítica e cidadã ou estabelecendo tais aspectos como secundários”, disse o professor.

Para o filósofo Marco Rodrigues,  combater filosofia e sociologia é lesar o cérebro da nação, destituindo-a de instrumentos fundamentais para construção do pensamento crítico e reflexivo. “Apenas focar em retorno financeiro imediato, mas na ausência do pensar, coincide com o conceito de banalidade do mal da Hannah Arendt, porém numa dimensão ainda mais dolente pois a incapacidade de pensar não é apenas um projeto em construção dos que pensam em nome do domínio, mas a própria consumação dessa (des)mentalidade que, sem pensar, domina no reino do impensante”, disse. Zilmara de Jesus Viana de Carvalho disse que a filosofia e a sociologia não representam um sobrepeso ao orçamento do governo. “Na realidade a elas sempre coube as sobras, o sobejo caído da mesa de áreas mais privilegiadas, embora também carentes, pois educação neste país nunca foi prioridade, pesquisa nunca esteve na pauta do dia. Excluí-las, deixá-las a mercê de quem quiser e/ou puder pagar por elas é declarar abertamente, algo que ‘consciências’ menos desavergonhadas se punham a pensar em silêncio: ‘qual a vantagem afinal de deixar esse povo pensar?’. Sim, amordaçando a filosofia e a sociologia, amordaça-se o pensar, extirpando-as extirpar-se a incômoda, porém, necessária voz do pensamento crítico, a voz do diferente, do esquecido, do sem voz”, brada a professora. 

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