ROBERTO LESSA

Do ringue aos palcos, a luta continua

Cantor Roberto Lessa trocou os socos pelos acordes musicais. A briga pela melodia. As luvas pelo microfone. Uma pessoa que fala de luta com a sensibilidade de quem canta.

Se você conhece ou conheceu o cantor e compositor Roberto Lessa agora, nos últimos anos, talvez nunca tenha imaginado que ele pudesse ter sido um campeão nos ringues. A voz mansa, calma e baixa, em nada sugerem que o homem de 49 anos, começou, aos 17, uma carreira na luta livre sob o apelido de Demônio Louro.

Roberto Lessa nos ringues.
Foto: Arquivo pessoal

Hoje, os dias de luta corporal ficaram para trás, nas boas e fartas lembranças ilustradas por um álbum de fotografias que ele carrega, e que revelam os melhores momentos da carreira. Hoje, a luta é outra. A luta agora é para fazer nome na música, e tal como quando ficou famoso nos anos 1980, ganhar fama. Do lutador Demônio Louro ao cantor Roberto Lessa, a certeza que ele tem é de que a luta só mudou de forma. A vontade de vencer é a mesma.

“Comecei a lutar em entre 1988 e 1989. Minhas primeiras lutas foram preliminares de lutadores conhecidos como, Zulu, na Luta Livre, aí depois surgiu o vale tudo, competição inventada pela família Grace. Foi aí que comecei, no Vale Tudo, que, dentro das regras, era lutar com qualquer luta. Hoje tem mais de 300 regras. Fiz preliminares várias de lutas de Zulu, com James, Jota Cristo. Pegava minha mochila e ia de cidade em cidade desafiando qualquer um no meio da rua, no asfalto, sem estrutura alguma, ali a gente botava as cordas e assim comecei. O Zulu foi uma inspiração para mim”, lembra.

Ele viajou mais de 50 municípios, só ele e a mochila. As lutas eram patrocinadas pela prefeitura e o lucro vinha da bilheteria. A preparação física vinha da corrida (ele corria cerca de 20 quilômetros por dia), lutava karatê, judô e depois o jiu jitsu.

Segundo ele, participou de 70 lutas oficiais na época do Vale Tudo, até chegar o MMA (do inglês, Mixed Martial Arts, onde os lutadores fazem um mix de várias modalidades de luta). Ao todo foram 60 vitórias, 8 derrotas e 2 empates, em 20 anos de carreira.

A música veio antes

Roberto Lessa parou de lutar no ano de 2005, quando decidiu se voltar para a música novamente. Sim, a música já fazia parte da vida do lutador, mesmo antes de começar a frequentar os ringues.

“Aos 14 anos eu já cantava em bandas. Cantei na Brazilian Boys, Esquema Livre, Sinal Verde, cantava em boate… quando a polícia chegava eu tinha que me esconder porque era menor de idade. Eu já lutava karatê também e a noite eu cantava. Mas não estava conseguindo conciliar, pois chegava cansado e o cachê da música era muito baixo. Foi aí que decidi deixar a música para ser lutador. Eu via o sucesso que Zulu fazia e queria ser igual a ele”, diz.

Só que a veia musical continuava pulsando. Era comum após acabar a luta, eles irem jantar em algum restaurante ou lanchonete que tinha música ao vivo. E era lá que ele tirava o estresse.

“Chegava com a cara quebrada, mas dava uma ‘canja’, uma “palhinha” de alguma música da preferência. As pessoas ali não sabiam que eu já vinha da música, mas isso tá no sangue. Sempre tive vontade de voltar a cantar. Os outros lutadores até achavam graça e diziam “rapaz, tu é lutador e tu canta?’. E aí pediam para eu cantar, pensavam que eu era ruim, mas eu já era músico, afinado, com a cara quebrada, mas estava lá cantando”.

Ele decidiu parar porque analisou que a luta deu fama, mas não deu dinheiro. Hoje o MMA é um esporte de elite que realiza competições milionárias e está dentre os que melhor paga seus competidores. Roberto Lessa diz que se fosse hoje, ele estaria famoso e rico.

Roberto Lessa e Dragão Chinês.
Foto: Arquivo pessoal

“Se eu fosse lutador hoje, com meus 20 anos, eu já estaria fora daqui do Brasil. Porque sempre fui com muita raça, sempre vencedor, focado, eu tenho certeza que eu tinha me destacado, já estava com um bom dinheiro. Mas como minha época foi outra, os tempos eram outros, não há mais como voltar”, lamenta.

Depois da despedida Lessa ainda fez três lutas. A última que participou foi em 2013 quando Minotauro veio a São Luís.

O apelido de Demônio Louro

Roberto Lessa lembra como surgiu o apelido que deu fama a ele até hoje. Segundo ele, foi na luta contra Wilson Boi, que chegava para lutar em São Luís com Zulu, que o apelido chegou.

“Ele veio para lutar com o Zulu, só que o Zulu estava viajando. Aí ele saiu desafiando todo mundo. Ele tinha 140kg e 1,88 de altura e eu pesava 75kg, com 1,68cm. Era uma desproporção muito grande, mas eu aceitei o desafio. Foi uma repercussão e começaram a chamar a luta de Davi contra Golias. Ai a pessoa que estava com ele dizia que já tinha visto umas preliminares minhas e disse que eu parecia um demônio louro, porque eu era muito rápido. Aí no dia da luta ele disse que a luta era Wilson Boi contra Demônio Louro. O Ginásio Costa Rodrigues lotou. Entrei batendo, mas a diferença de peso era muito grande. Parecia que eu tava batendo era em um boi mesmo. Com três minutos de luta ele me deu um chute que eu apaguei, fui parar no hospital”, conta.

Mas pensa que ele desistiu? Ele queria uma revanche e para isso treinou, ganhou peso e o desafiou de novo. A luta foi no Circo Alakazan na Cidade Operária.

“Nesse dia foi diferente. Eu já tinha experiência e o peso dele não se sobressaiu. Ele cansou, quando ele cansou eu fui pra cima. Ganhei e aí que eu tive a certeza que eu era um lutador. Foi a partir daí que comecei a ir para o interior, Piauí, Belém Ceará, Alagoas, Pernambuco e fui ganhando todo mundo na categoria até 84kg”.

Roberto Lessa cantor

A buscar para ter o espaço de cantor começou logo após ter parado de lutar. Hoje ele já lançou 5 CDs, 2 DVDs e tem um CD a ser lançado com músicas da Velha Guarda, “O Melhor da Seresta”, com regravações dos cantores Núbia Lafaiete, Cauby Peixoto, Nelson Gonçalves.

Ainda não vive da música, espera o sucesso, que segundo ele, é uma estrada longa. “Como eu desviei para o esporte, interrompi a música, agora é começar de novo. O esporte tem um tempo e a música não. A gente pode ficar velhinho cantando. Fiz uma história no esporte e hoje tento fazer na música”, acredita.

O artista já se apresentou em palcos oficiais de festas oficiais realizadas pelo poder público, como carnaval e São João e em eventos particulares, como festas de aniversário. No carnaval que passou, foi um dos puxadores da escola de samba Mocidade da Ilha (Cohab).

 

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