ENTREVISTA EXCLUSIVA

Matheus Nachtergaele: “Sou #EleNão desde que nasci”

O ator, homenageado na II Mostra de Cinema Internacional de SLZ, concedeu entrevista exclusiva ao jornal O Imparcial.

Matheus Nachtergaele em entrevista a O Imparcial. (Foto: Gustavo Rock)

A II Mostra Internacional de Cinema de São Luís, que acontece nessa e na próxima semana no Cine Praia Grande, homenageia, nesse ano, o ator Matheus Nachtergaele: filmes em que ele atua e que dirige serão exibidos ao longo da semana, seguidos de conversas com o ator e o público sobre cada um.

Multifacetado, Matheus é considerado um dos maiores atores brasileiros da contemporaneidade, tendo representado, com unicidade e graça, todos os tipos de personagens – desde pai de santo até travesti de rua. O Imparcial conversou com o artista, que falou sobre sua identificação com o Nordeste, a cobrança de posicionamento dos artistas e sobre política nesses tempos de crise. Confira a entrevista:

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Como é estar de volta a São Luís, para esse evento?

Estive aqui há cerca de 15 anos, pras gravações de Da Cor do Pecado, a primeira novela que eu fiz na Globo. Para a minha alegria, o personagem era maranhense, então gravei algumas cenas aqui e em Alcântara. Agora, tô absolutamente encantado por voltar, porque São Luís me marcou. As pessoas têm me recebido com um sorrisão, e parte desse sorriso faz parte do fato de eu ter representado o maranhense. Grande parte desse sucesso se deve a esse personagem pai de santo, o Pai Helinho, que representa com alegria a força religiosa do Maranhão, pois aqui a religiosidade afrodescendente é muito vívida. O personagem é brincante, de comédia, mas as casas de santo, os terreiros que conheci aqui me impressionaram muito. Agora, agradeço muito à Mostra de Cinema pela oportunidade de estar aqui outra vez.

Você foi escalado para ser Nauro Machado no filme “Nau de Urano”, dirigido por Frederico Machado, filho do poeta ludovicense. O projeto está de pé?

Já recebi o material todo, que Frederico me mandou, os livros do pai dele… E estamos num “namoro sério” com o filme, para que ele aconteça. Não tem ainda uma data de filmagem, mas pretendemos que aconteça. Do Maranhão, fiz também o Joãozinho Trinta. Minha identificação com o Nordeste é muito forte e longa. Mesmo antes de fazer o Auto da Compadecida, eu já tinha trabalhado em Central do Brasil, além de todos os filmes do Cláudio Assis, todos ligados ao Nordeste.

Ao longo de sua carreira, você personificou vários personagens, vindos de várias minorias – nordestinos, gays, travestis. Como é o processo de atuar com personagens tão distintos?

Pai Helinho, personagem de Matheus na novela Da Cor do Pecado. (Foto: Reprodução)

Engraçado… Eu sou paulistano; filho de um belga; branquelo, sardento; mas fui recrutado para ser, na TV e cinema brasileiros, um pesquisador emocionado do homem simples do Brasil. Talvez por causa do meu tipo físico mais franzino, a cabeça chata e grande e o amor que tenho pelo país, eu tenha sido reconhecido como um ator bom pra encarnar o tipo marginal de brasileiro. Me sinto muito feliz de ter sido encarregado de chafurdar o nosso povo. Fui travesti de rua nos anos 50 na TV, o amarelinho safado do Ariano Suassuna – João Grilo -, os bandidos e heróis nordestinos nos filmes do Cláudio Assis, as bichas, os traficantes do morro carioca… Sou muito recrutado para representar a aventura da brasilidade, o que faz com que eu tenha viajado muito pelo Brasil, não só geograficamente, mas emocionalmente. Espero ter feito com carinho e amor e sinto que, em alguns momentos, consegui representar algumas porções importantes do nosso homem simples, rindo e acusando quem nós somos de maneira consistente.

Além de personificar minorias, os filmes em que você atua normalmente têm teor político – como em “Febre do Rato”. Para você, o cinema tem papel político?

A arte terá sempre um papel político se você imaginar que ela vai ser a possibilidade de uma visão crítica e subjetiva da realidade. O cinema brasileiro ter a responsabilidade e alegria de representar quem nós somos é, em si, uma atitude política. Soma-se a isso o fato de nós sermos um país em construção, sempre ameaçados por sermos “eterna colônia” de países poderosos. Então, a afirmação de quem nós somos, seja rindo ou chorando, é muito importante para que a gente se veja, se reconheça e se afirme; se dome e se liberte. Cada ofício é político quando se faz com vocação: o médico, o advogado, o professor, o político, o ator e até o padre, quando vocacionados, são políticos, pois são bons para você e para todos ao seu redor.

Chicó (Selton Mello) e João Grilo (Matheus Nachtergaele) em “Auto da Compadecida”. (Foto: Reprodução)

E na situação política dos últimos tempos, que está um pouco confusa…

Menina! Mas a gente tá num pegapacapá danado agora com a nossa democracia, muito ameaçada a partir do impeachment da presidenta Dilma, temos a necessidade urgente da gente rever como é o sistema político no Brasil e no mundo. Estamos muito ameaçados, nesse momento, por esta sombra militarista e fascista representada pela figura do Bolsonaro.

Então você é adepto ao #EleNão?

Eu não sou adepto ao “Ele Não”, eu sou “Ele Não” desde que eu nasci. Se você olhar a minha obra, você vai dizer: ele não. Isso não significa que eu esteja ligado a ninguém específico. A parte que me cabe é continuar fazendo teatro, cinema e TV, trabalhando com pessoas que são vocacionadas que pensem no Brasil de um jeito sério, mesmo quando a gente faz comédia, e acreditar que um pouquinho do meu trabalho possa ser um elogio do que nós poderíamos ser um dia.

Ultimamente, fãs estão cobrando posicionamento político dos artistas. Você acha que os artistas carregam essa responsabilidade de se posicionar?

Não sei se é uma obrigação do artista falar sobre isso, mas acho que faz parte da obra dele a reflexão sobre quem nós somos. Não necessariamente você é obrigado a falar de política, mas você, necessariamente, vai estar refletindo sobre quem nós somos e quem podemos ser, pois o gesto artístico é sempre político. Como temos voz, tentamos falar delicadamente e amorosamente sobre o que temos achado disso tudo. Sou um homem posicionado mais à esquerda – e gostaria de encontrar uma terceira via que não nos dividisse ainda mais, para que pudessemos caminhar. Gostaria também que as pessoas que entendem que o trabalho que eu fiz foi de crítica e elogio ao homem do Brasil não votassem num candidato violento, fascista, que não suporta as minorias, mas acredito na livre escolha e opinião, pois a democracia acontece nas urnas. O impeachment turvou nossa visão das coisas e a gente tem que retomar o processo democrático. A parte que me cabe nesse latifúndio é continuar trabalhando focado em representar o homem do Brasil.

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