Já é tradição: no final de semana do dia dos pais, Barreirinhas, a porta de entrada para os Lençóis Maranhenses, se transforma também na capital maranhense do jazz e blues. Um ótimo público se fez presente nessa sexta-feira, 10, para prestigiar a primeira noite da 10ª edição do Lençóis Jazz e Blues Festival. Além da fresca brisa que sopra do rio que margeia a avenida em que está montado o palco, a cidade respira boa música.

Para abrir os trabalhos, a plateia não deixou por menos. Aproveitaram a noite pessoas de todas as tribos e idades, em uma mistura festiva de moradores da cidade, turistas e artistas – vários dos que se apresentarão neste sábado, 11, na segunda noite, estavam prestigiando os que inauguraram o festival, ontem.

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Para hoje, a programação conta, a partir das 20h15, com Delcley Machado e Amaro Freitas (PA/PE), seguidos por Pablo Fagundes e Crystilez (DF/EUA) e Adriano Grineberg(SP), com discotecagem de Vanessa Serra nos intervalos.

Veja como foi o primeiro dia do Lençóis Jazz e Blues

Idealizador e produtor do festival, Tutuca fez as vezes de mestre de cerimônias e não escondeu seu orgulho e contentamento. Não é para menos: são 10 anos ininterruptos, o que colocou o Maranhão definitivamente no mapa dos grandes festivais do gênero no Brasil.

O pianista maranhense Renato Serra abriu a noite, com um repertório que uniu clássicos a músicas autorais e contou com a participação especial do também maranhense Marcelo Carvalho, em uma comovente homenagem ao conterrâneo Eliésio do Acordeom. Os três são figuras fáceis em fichas técnicas de discos e shows da produção musical no Maranhão ao longo das últimas décadas.

O repertório, de pegada jazzy, passeou por temas de nordestinos, entre os quais Dominguinhos (“Fuga para o Nordeste”), e a irmã brasileira inseparável do jazz, a bossa nova, sempre muito bem representada pela eterna “Garota de Ipanema”.

Clube da Esquina

Lô Borges era uma das atrações mais aguardadas desta edição do Lençóis Jazz e Blues Festival. O cantor mineiro, um dos artífices do Clube da Esquina, lança este mês um dvd em que refaz ao vivo boa parte de dois discos antológicos de sua carreira: “Clube da Esquina” e o assim chamado “disco do tênis”, ambos lançados em 1972.

A Barreirinhas o mineiro trouxe uma homenagem ao parceiro Milton Nascimento, carinhosamente chamado de Bituca. “Milton para mim é como respirar, beber água. É fundamental”, resumiu. O repertório passeou por canções autorais, algumas escritas em parceria por Lô e Milton.

Logo na primeira, Lô Borges colocou o público para cantar junto: a plateia vibrou aos primeiros acordes e versos de “Clube da Esquina nº. 2”: “por que se chamava moço”… Em sequência mandou “Quem sabe isso quer dizer amor”, gravada por Milton Nascimento. Não faltaram clássicos como “Nada será como antes”, “Cravo e canela”, “Travessia” e “Vento de maio”.

O irmão Telo Borges, que tocava teclado, também cantou, numa altura em que Lô deixou o palco. Tudo estava ensaiado e logo ele voltou para continuar desfilando um repertório que faz parte da memória afetiva de qualquer brasileiro que tenha ouvido qualquer destas canções pelo menos uma vez: “Trem azul”, “Fé cega, faca amolada” e “Um girassol da cor de seu cabelo”.

A comunhão entre palco e plateia era tanta que aos gritos de “mais um” o trio – que se completava com o guitarrista Henrique Matheus – voltou imediatamente ao palco. Simpático, Lô anunciou: “vamos fazer mais um, mais dois, mais três, tá muito bom!”, vibrou.

Cumpriu a palavra e disparou “Para Lennon e McCartney”, “Paisagem da janela” e repetiu “Nada será como antes”. Estava novamente pronto para se retirar quando resolveu ir além: espontaneamente o público começou a cantar “Equatorial”. O trio não se fez de rogado e juntou-se ao coro.

O Clube da Esquina, que sempre teve um pé na beatlemania, marcava, com o craque Lô Borges, um tento inédito no Lençóis Jazz e Blues Festival: em 10 anos, foi a primeira apresentação a ter quatro bises.

Uma dj que entende do riscado

Antes de tudo, a djVanessa Serra fez a cama, abrindo a noite com a interpretação do maranhense Papete para o clássico “Domingo no parque”, de Gilberto Gil. Tudo faz sentido: em determinada altura a letra fala em um passeio “perto da boca do rio”. À beira de um, público e artistas enalteciam, além da boa música, as belezas naturais de Barreirinhas.

Tirando sons de sua invejável coleção de vinis, Vanessa passeou por repertório brasileiro e estrangeiro nos intervalos entre os shows, sua discotecagem um show em si, longe, muito longe, de mero tapa buraco ou encher linguiça.

Blues all night long

Parceiro do Lençóis Jazz e Blues desde sua edição inaugural, o gaitista carioca Jefferson Gonçalves subiu ao palco acompanhado pelo guitarrista mineiro Gustavo Andrade. Sua apresentação contrariou qualquer um que um dia tenha dito que blues é sinônimo de tristeza. Botaram literalmente o público pra dançar.

Pela manhã, no Salão Paroquial da Igreja de Barreirinhas, Gonçalves já havia ministrado concorrida oficina de gaita, para estudantes do município. À noite, no palco, reafirmou sua felicidade em estar ali e, ao longo do tempo, acompanhar a evolução do festival.

Quem achou pouco atravessou a rua e ainda esticou a noite (que só acabaria quase de manhã) no Z-18, bar que acolheu a jam capitaneada pelo bluesman maranhense Daniel Lobo (guitarra), em companhia de Jeff Soares (contrabaixo), Ronald Nascimento (bateria) e Renato Serra (teclado), num repertório que passeou por Beatles, Pink Floyd e Talking Heads.

Jazz e Blues

Realização de Tutuca Viana Produções, o 10º Lençóis Jazz e Blues Festival tem patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, e do Banco do Nordeste e Potiguar, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet).