Dia do Índio

Quais eram as 27 tribos indígenas da ilha de Upaon-Açu?

A canção de Humberto Maracanã foi inspirada nos versos de um francês e falava dos povos que habitavam a ilha antes da chegada dos colonizadores

Reprodução

Inspirada na composição do saudoso Humberto Maracanã, que por sua vez se inspirou nos relatos do frei Claude d’Abbeville, a escola de samba Turma do Quinto apresentou no carnaval deste ano o enredo Dos versos do Guriatã. O enredo canta as 27 aldeias de Upaon-Açu, nome dado pelos Tupinambás, que significa Ilha Grande e que, mais tarde, foi chamada Ilha de São Luís. Mas que aldeias eram essas? No que elas se transformaram? O que aconteceu com os habitantes delas? No dia do índio, ressaltamos que eram eles quem moravam aqui, antes dos franceses, dos portugueses, e aos poucos foram desaparecendo.

Quando Humberto Maracanã compôs Upaon-Açu, gravada em 2012 por Cláudio Pinheiro, falava que em alguns povoados moram seus descendentes. Na letra, deixou alguns nomes originais e outros conhecidos atualmente: Inhaúma, Taim, Tenda, Mojó, Cumbique, Uarapirã, Juçatuba, Iguaí, Tajipuru, Araçaju, Miritiua, Turu, Maracanã, Arapapa, Mapaúra, Itapicuraíba, Tibiri, Mocajituba, Itapera, Pirandiba, Parnauaçu, Maioba, Pindaí, Ubatuba, Uçaguaba, Panaquatira, Igaraú foram dos tupinambás, mais precisamente, 12 mil, segundo Claude d’Abbeville.

Aldeias pequenas que tinham entre 200 e 300 moradores e outras maiores, de 500 a 600. Hoje essas localidades ainda estão presentes no cenário geográfico da Ilha de São Luís, muitas cresceram e se adequaram ao desenvolvimento do perímetro urbano da cidade, se caracterizando como bairros, e outros como povoados ou comunidades rurais.

Os franceses

No final do século XVI, Daniel de La Touche obteve autorização real para realizar sua expedição para colonização do norte do Brasil, no intuito de fundar a França Equinocial. Para tanto, trouxeram 500 homens em três navios, as naus Regence, Charlotte e o patacho Sain’t Anne, missão comandada por Daniel de La Touche, senhor de La Ravardière. Junto com a missão vieram os padres capuchinhos Frei Ambrósio d’Amiens, Frei Ivo d’Evreux, Frei Arsênio de Paris e o Frei Claude d’Abbeville. Acompanhou a comitiva um francês que já residia na região, denominado David Migan, que serviu de intérprete e guia.

Aqui encontraram os primeiros habitantes da ilha, os índios maranhanguaras, um dos grupos da nação Tupinambá. Eles chamavam os franceses de ararujuba, o mesmo que “papagaios amarelos”, por serem louros e falarem muito.

Segundo Claude d’Abbeville (2002), a chegada dos Tupinambá à Ilha de São Luís ocorreu já em período histórico, conforme o relato a seguir:

Haverá sete anos que certo personagem, cujo nome e qualidade calarei por circunstâncias, vendo que os índios Tupinambás que antigamente moravam no Trópico de Capricórnio se haviam refugiado na Ilha do Maranhão e suas circunvizinhanças, evitando o domínio dos portugueses, saiu de Pernambuco com um seu companheiro, trazendo alguns portugueses, e oito a dez mil índios, entre homens, mulheres e meninos, todos da mesma nação aí existente

(citação da obra Os Tupis na Ilha de São Luís – Maranhão: Fontes Históricas e a Pesquisa Arqueológica, de Arkley Marques Bandeira,doutor em Arqueologia pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo)

Antônio Noberto mostra mapa que foi construído a partir dos registros de Claude d’Abbeville. Foto: Honório Moreira

Para o escritor Antônio Noberto, membro-fundador da Academia Ludovicense de Letras (ALL), ocupante da cadeira patroneada pelo francês Claude d’Abbeville e sócio-efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM), se não fossem os franceses Claude d’Abbeville e Ivo d’Evreux, talvez não se houvesse registros dessas aldeias de São Luís.

Os dois escreveram obras quando chegaram aqui. A obra de Claude d’Abbeville é História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e Terras Circunvizinhas. Essas 27 aldeias foram mapeadas, além de Alcântara e Guimarães. Dessas, a principal não era a maior. A segunda maior era a aldeia de Uçaguaba [que quer dizer lugar onde se come caranguejos] pela localização estratégica, era perto da entrada Ilha, do Rio Anil, próximo do reduto francês que era a Ponta d’Areia e o São Francisco (onde tinha o Forte Sardinha, hoje Basa). Uçaguaba [hoje Vinhais Velho] depois se tornou um misto de aldeia indígena com vila europeia liderada por David Mingan e era chamada de Minganville. Davi liderava os 12 mil índios da Ilha e foi morto durante a Batalha de Guaxenduba, uma morte considerada besta, depois de ter fugido 14 vezes da perseguição dos portugueses”, conta o pesquisador.

Na reconstituição hipotética da localização das aldeias indígenas em São Luís, no início do século XVII, quando da chegada dos franceses, tendo como fonte Antônio Noberto, há a descrição das regiões percorridas e a cartografia de algumas regiões na Ilha de São Luís, que correspondem à denominação indígena utilizada na obra do capuchinho, a exemplo de Maioba, Maracanã, Timbaú, Turu, Itapari, Iguaíba, Pindaí etc.

Mas, e como eles sumiram, como foram desaparecendo? Os contínuos conflitos para aprisionamento de índios e as desconfianças mútuas de colonos e nativos, favoreceu a redução da população indígena e, em muitos casos, o extermínio de tribos inteiras, já no século XVII.

O desaparecimento deles é citado na obra Crônicas do Maranhão, publicado pelo frei João Felipe Bettendorf (jesuíta que se destacou como missionário na Amazônia durante a época colonial. Entre 1669 e 1674 e entre 1690 e 1693, foi superior dos jesuítas em missão no Maranhão e Grão-Pará), por volta de 1680.

“Ele fala no livro ‘quanta deveria ser a maldade daqueles que por guerra e contendas dizimou tão grande gentilidade’. Ele disse isso porque das 27 aldeias, logo depois que os portugueses chegaram, duas décadas depois, só ficaram três. Foi uma dizimação e isso se prolongou. Até o rei Filipe III de Espanha mandou parar a matança, mas o governante da época, que era Bento Maciel Parente, continuou matando os índios. Ele matou e prendeu meio milhão de índios do Maranhão até o Amapá, e morreu nas mãos dos holandeses, dizem que eles fizeram justiça pelos índios. Em meados de 1820, os índios foram declarados extintos do Brasil. Exceção em alguns lugares do Maranhão ainda como Grajaú, Barra do Corda, Santa Inês, Bom Jardim, Jenipapo dos Vieiras”, diz Antônio Noberto.

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