“Jovens e negros do sexo masculino continuam sendo assassinados todos os anos como se vivessem em situação de guerra”. Esse foi o comparativo feito pelo Atlas da Violência 2017, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em junho do ano passado. Uns dizem que é “coisa de preto”, mas não há como negar: o racismo exclui, desvaloriza e mata.

Hoje, 21 de março, é celebrado o Dia Internacional contra a Discriminação Racial. O tema voltou para o centro do debate nos últimos dias, após a execução da vereadora carioca Marielle Franco, brutalmente assassinada no dia 14 de março no Rio de Janeiro. Ela era reconhecida por atuar em múltiplas frentes de resistência e em defesa dos direitos humanos. Negra, mãe, feminista, bissexual, Marielle levou o que era coisa de preto da periferia para grandes espaços públicos.

Num país onde mais da metade da população (54%) é composta por negros e o número de homicídios é maior entre essa parcela (um negro tem 2,7 mais chances de morrer que um branco), o que a morte de alguém como Marielle representa? “Ela lutava contra intolerância, preconceito, ela era contra o racismo. Porque mataram ela? Por que ela era negra, por que ela era favelada, por que ela defendia os pobres, os negros, os homossexuais? Só tinham essa maneira de calar minha irmã. Só matando ela. Se não matam a Marielle, ela ia alçar hoje voos muito mais altos”, dizia o discurso da irmã de Marielle, Anielle Franco, em um ato público no centro do Rio, palavras que mais ecooaram desde da morte da vereadora.

Enquanto Marielles morrem todos os dias, o racismo segue dissimulado pelos espaços públicos, se abrigando em contextos familiares, educacionais e principalmente na internet, onde os ataques partem de quem se protege através do anonimato. A SaferNet, instituição que recebe queixas de violações de direitos na Internet recebeu e processou cerca de 115 mil denúncias de violações de direitos humanos online, envolvendo 39 mil páginas (URLs) distintas. Destas, 35 mil tratavam-se de racismo.

O racismo no cotidiano

No ano passado, um caso ganhou repercussão após a socialite Day McCarthy proferir ofensas raciais contra a filha adotiva dos atores Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank. A socialite divulgou um vídeo onde ela compara a menina à uma ‘macaca’, que “tem um cabelo horrível de palha” e chamou os seguidores do casal nas redes sociais de ridículos. O caso foi parar na justiça, Gagliasso entrou com ação contra McCarthy e disse “racismo é crime e tomaremos providências”.

“No nosso cotidiano, ela [a discriminação] se demonstra a partir do nosso comportamento. Então, quando você se dirige a uma pessoa sem conhecê-la e, por conta desse conjunto de saberes que você aprendeu, a coloca em um espaço de inferioridade, você está praticando a discriminação”, explica a professora Raimunda Machado, pedagoga e doutora em questões étnico-raciais nas escolas.

Segundo Raimunda, existem múltiplas razões para a perpetuação desse comportamento no nosso dia a dia. “O processo de colonização que nós vivemos propiciou à construção de uma monocultura voltada ao eurocentrismo. Tudo que é eurocêntrico é o que eu valorizo enquanto cultura, enquanto experiência de vida. Essa atitude, faz com que você construa uma mentalidade colonizada e tenha dificuldade de fazer ruptura com toda essa estrutura produzida na nossa cultura brasileira”.

O ponto de partida seria você se apropriar dessa tentativa de deslocamento com essa mentalidade colonizadora, com essa ideia de valorização de tudo que é estrangeiro, e tentar compreender como você se constitui como sujeito, valorizando as experiencias e potencialidades da ancestralidade africana. (Raimunda Machado, pedagoga)

Essa mentalidade, para a professora, é o que faz de nós sujeitos que constroem padrões de comportamento, de beleza, de valorização que sob essa ótica acaba desvalorizando manifestações culturais diferentes, de outras origens. “As consequências disso, são as mais diversas possíveis. Por exemplo, para um negro desenvolver uma ascensão social, ele precisa galgar por espaços com maior dificuldade, é como se uma escada estivesse livre para os brancos e quebrada para quem tem um fenótipo negro”, acrescenta ela.

 A saída é pela educação

Fomos ao I Colóquio de Pesquisadores das Epistemologias Étnico-Raciais e de Gênero na Educação, organizado pelo núcleo de pedagogia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) saber como é possível superar o racismo enraizado na nossa cultura.

A professora Lígia Alves, formada em Letras pela UFMA, ressalta que o sistema educacional atual ainda deixa muitas margens para a perpetuação de práticas discriminatórias entre os estudantes e os próprios docentes. “Hoje eu ser uma mulher negra, empoderada, participante de movimento negro, fez do racismo algo mais sutil na minha vida. Mas o ambiente educacional ainda é muito racista e isso se extende para as outras áreas da sociedade”, aponta.

Para a pedagoga Raimunda Machado, as altas taxas de analfabetismo no Brasil atuais fazem parte de uma produção pelo estigma de o Brasil ser o último país das américas a abolir o regime escravista. “Foi produzido quando a população afrodescendente ficou a margem da escola e resultado histórico que se perpetua ate os dias de hoje”, completa.

“Se você não consegue fazer uma ruptura com as ideias preconceituosas, você dificilmente terá condições de pensar estratégias que possibilite a criança negra que esta na sala de aula se sentir valorizada”, alerta Raimunda.