ESPECIAL MELÔS DA ILHA

Melô da Poliana: uma história de amor, arte da invenção

O reggae no Maranhão parecia estar passando por mudanças fortes em meados dos anos 1990. Foi nesse cenário que apareceu Donna Marie, numa combinação, como sempre, improvável de Canadá e Inglaterra

Foto: Reprodução

Stênio Kawasaki se ajeita na cadeira da rádio Cidade para mais uma edição do Moments of Love, um Tinder radiofônico de final de tarde que animava a cidade nos anos 80 e 90. É 95 e ele tem nas mãos a tradução do novo hit da cantora canadense Celine Dion, aquela que ficaria mundialmente famosa anos depois com a canção de amor naufragado My heart will go on. Mas ali, impresso numa matricial está Twink Twice. Composta pela dupla Andy Hill e Peter Sinfield. A baladinha melosa e sonolenta já havia papado, naquele mesmo ano, o Ivor Novello, um dos maiores prêmios musicais da Inglaterra, como melhor música e letra. A letra, que Kawasaki lê, arrepiando os pelinhos dos ouvintes, diz assim:

Não pense que eu não consigo sentir que tem algo errado

Por muito tempo você foi a parte mais doce da minha vida

Eu olho em seus olhos e há uma luz distante

E nós dois sabemos que hoje é noite de tempestade

Isso está ficando sério

Você está pensando em você ou na gente?

Eu não tava ouvindo o rádio naquela tarde. Ninguém estava. A letra é verdadeira, mas a história do Moments of Love eu inventei. É que essa é uma história sobre amor e desencontros; o amor, já me disseram, é uma arte de invenção. A canção, aliás, estourada na Inglaterra, sairia do rádio pras radiolas da Ilha um ano depois, com outra voz, a de Donna Marie, e outo nome: Melô de Poliana.

PENSE DUAS VEZES

Donna Marie nasceu em 1959 e começou a cantar ainda menina, na Jamaica. Veio de St. Elizabeth, periferia ao norte do país, mas cresceu em Kingston. Sua família era muito musical e em casa se ouvia muitas coisas, mas eram os reggaes dos Pioneers, Bob Marley, Eric Donaldson que faziam sua cabeça, “as influências eram infinitas”, disse. Começou a cantar em pequenas bandas e shows em Kingston, pulando em qualquer oportunidade de estar no palco, mas foi quando mudou para a Inglaterra que o canto realmente fez folia em sua vida, ao ingressar no coral da igreja, a coisa tava ficando séria. Marie continuou alimentando o sonho de ser cantora, até conhecer o Pioneer Sidney Crooks (que hoje mora em São Luís e é conhecido pela massa como Norris Cole). Deu certo e seus primeiros quatro álbuns saíram pela Pioneers Records, com produção de Crooks, mas os discos ainda não rendiam muita coisa e ela mudou para a Londisc Records.

Tinha acabado de gravar o seu quinto disco, o primeiro pelo novo selo, e estava casada com um músico. Parte do disco foi gravado em casa com ele, o casamento não ia muito bem e ela antevia um rompimento inevitável. Não era um tempo bom. O álbum já estava quase pronto pra ser prensado, encarte, lista, papelada impressa, quando a cantora trombou com uma canção da Celine Dion. Ficou desinquetinha, a balada de amor esfiapado parecia ter sido feita pra ela e ecoou forte. Marie correu para o dono da gravadora e falou: “escuta, tem uma música que a gente precisa gravar, mas tem que gravar rápido, agora, depressa!, e ele disse, ‘não, não, não, não, o disco já tá pronto pra prensar’ e eu disse ‘não!, essa é a canção que vai ser hit!’, acredite, foi isso mesmo que eu falei, ele disse ‘tem certeza?’, e eu falei ‘escuta, esse disco da Celine Dion tá no segundo lugar nas paradas britânicas, a gente precisa pegar logo, antes que chegue ao primeiro lugar, porque vai chegar no primeiro lugar!… ele não ficou muito feliz, então eu e meu marido nos adiantamos e gravamos a música. Quando terminamos de gravar ele começou a sorrir e falou ‘sabe de uma coisa?, tô com um excelente pressentimento sobre essa música, gostei dela. Então ele reimprimiu a informação do disco pra que essa pudesse ser a faixa de abertura”.

Não tardou pra previsão da cantora se confirmar. Lançada primeiro como um Single, Think Twice era o pau que rolava nas baladas, “vendeu feito água!”, me disse Marrie, “um dia eu tava num shopping autografando discos e vendo as pessoas comprando o disco como se elas estivessem comprando um pão fresquinho, entende”.

Ela Havia achado a canção que lhe faria a carreira. “Logo após gravar essa canção eu me dei conta de que aquele capítulo iria acabar”, e acabou, como diria o Paulo Mendes Campos. Marie cantou a própria fossa com a verdade de uma Dolores Duran e, segundo ela, isso é parte importante do poder de sua versão de Think Twice, “essa música falou ao coração de muitas pessoas, de modo que elas se identificassem, porque tinham passado por situações parecidas. Não é engraçado como uma canção às vezes fala pra você?!”.

Think Twice é a canção que ainda a leva pelo mundo, “até hoje eu descubro lugares que eu não fazia ideia que já tivessem ouvido minha voz. Esse ano eu estive em Salt Lake City e lá me disseram que o pessoal cresceu com essa música!”

O reggae no Maranhão parecia estar passando por mudanças fortes em meados dos anos 90. A tecnologia tornava tudo mais acessível, as idas à Jamaica eram mais constantes e a ideia de exclusividade baseada no garimpo e rebatismo de velhas pérolas já não era assim tão simples. As grandes radiolas estavam consolidadas e a classe média lotava clubes de praia e bairros nobres, o reggae eletrônico estava ali na esquina e DJs usavam, por um breve período, o MD. Foi nesse cenário que apareceu Donna Marie, numa combinação, como sempre, improvável de Canadá e Inglaterra.

Mas para a massa, a canção caiu como uma bomba. Conversei com uma amiga, frequentadora de salões desde os anos 80. Perguntei qual o melô pelo qual ela mais tem carinho e resposta vem como um riff: Poliana! “No dia que lançaram esse reggae eu não fui, foi uma sexta feira, Antônio José que lançou. Ai a minha amiga foi no reggae, eu disse, ah, não vô, tô cansada e tal… aí quando foi no outro dia, quando ela chegou de manhã cedo, ela bateu na minha porta só pra me contar que tinham lançado esse raggae, o Melô de Poliana, eu disse ‘ah, é a filha de Ferreirinha’… ‘esse reggae é maravilhoso, não sei o que’, ela falou. Aí quando foi no dia seguinte, parece que ele ia tocar na praia, aí a gente foi pra lá só pra esperar esse reggae, a gente ficou escravo dessa festa, toda vez que tinha a gente tinha que ir pra ouvir esse reggae, que era muito legal”.

Não era possível andar pela Rua Grande sem ouvir o Melô de Poliana. A canção, de início exclusiva da Estrela do Som, se espalhava feito bicho geográfico no calor da ilha. Ao lado do Melô de Valéria, Poliana é o mais famoso reggae em homenagem a uma mulher no Maranhão. As duas personagens, contudo, são bastante distintas, assim como os sentimentos que seus melôs provocam. O Melô de Poliana tem uma doçura da versão original, que a conversão em reggae não nega, uma proeminência dos teclados, lembrando o reggae eletrônico, mais lento, cheio de vibratos, daqueles que não dá pra dançar só, com um refrão que pede um aprochego ainda mais coladinho. Se você passou algumas horas secando alguém numa festa de reggae, esse é o momento de chegar junto. Dizem que o amor atrai.

Enquanto Valéria é uma figura solar e explosiva, Poliana, filha do Magnata Ferreirinha, dono da Estrela do Som, é uma pessoa reservada. Tentei sucessivamente entrevistá-la, mas não tive sucesso. Ao telefone, ela ri envergonhada ao ser lembrada da música e diz que até hoje brincam com ela por causa disso, mas isso é o máximo que consigo. Pergunto a Donna Marie se ela conhece a dona do Melô e ela diz que não. No primeiro show da cantora em São Luís Poliana foi chamada ao palco, não subiu, Marie já tentou encontrar com Poliana várias vezes, sempre sem sucesso. Se a dona do Melô não encontra a dona do Melô, quem sou eu?…

Mas como que a canção chegou aqui? E por que Poliana?

Desde os anos 1980 os investidores do reggae apostavam na compra e venda e CDs importados. Figuras como Chico do Reggae, Junior Black, Dread Sandro e Jofran fizeram carreira e dinheiro negociando bolachas, mas o Melô de Poliana chegou quase batendo na trave.

Nilson Asevedo é um cururupuense de 56 anos mais conhecido no meio do reggae como Sapo Marley. Veio pra são Luís aos dois anos e foi da primeira geração de regueiros da Ilha. Mora em Nova York desde 1996. Lá se empregou numa fábrica de móveis e, no único dia livre da semana, ia no Brookling e Bronx garimpar discos pra abastecer o mercado de radiolas da Jamaica Brasileira. Era um complemento importante de renda, um disco que comprava por 10 dólares poderia ser vendido por até 2000 reais. Nilson mandava os discos para a mãe, na Liberdade, já encomendados para Ferreirinha e Serralheiro; por suas mãos chegaram aqui pedradas como o melô de Marcado para Morrer, que até hoje toca. Era domingo e ele foi à caça. Deu de cara com a cara de Donna Marie num CD importado: “foi 13 dólares, era novidade”, me contou pelo Facebook. “Ouvi só a primeira e levei”. Era pedra!

Vendeu pra Ferreirinha num lote de discos. Era pedra mesmo, mas reza a lenda que Ferreirinha não botou muita fé na canção, e coube a Antônio José, DJ que tornava ouro tudo que tocava, a tarefa de lançar o melô, ainda sem nome: “ele não era como esses DJs que só pegam música que vai dar, ele fazia a música dar, trabalhava a música e foi assim com o Melô de Poliana”, completou Sapo Marley.

Poliana era adolescente quando a canção foi oficialmente lançada na sua festa de debutante. Maurício Capella, amigo de Antônio José e da família, estava presente: “essa festa, duas coisas marcou pra mim: a primeira foi uma festa que tocou muito pouco reggae no Espaço Aberto, uma festa de família, fui convidado. Primeira vez que eu vi Ferreirinha sem boné, ele é carequinha, então ele esconde a careca no boné, não tira o boné por nada. Mas nesse dia era uma solenidade tinha que tá de paletó, que eu nunca tinha visto também. E essa festa, um festão, terminou lá pras três, quatro da manhã”.

— Que ano foi esse?

— Noventa e seis. A radiola ficou ligada, mas prum DJ de dance que animou a festa, Antônio José tocou pra fazer essa homenagem, de botar o Melô de Poliana e tal, que foi um sucesso logo de cara!”

O pai da debutante lembra da festa, e de não botar fé na música: “… a gente tava testando essa música aí. Duas músicas que deram problema: essa eu botei o melô de não sei que. ‘Ah essa música é muito feia’. A Poliana veio e ‘Bota o meu nome!’. Aí tudo bem: Melô de Poliana. Aí foi a música que fez mais sucesso aqui no Maranhão porque ela fez sucesso, quando ela foi pra rua, em tudo em quanto era programa. Não só de reggae, todo programa eles pediam ela, de balanço, de…”

Uma outra versão diz que Antônio José, que não era besta, botou o nome da filha do patrão na música pra que ela fosse chancelada e pudesse tocar, mas isso tem a cara daqueles mitos que a gente reproduz pelo sabor de sorvete de creme com passas.

Donna Marie me falou que demorou pra entender essa onda de melô: “quando eu estive no Brasil e perguntei me disseram que era o nome da menina mais bonita, então deram o nome da canção em homenagem à menina mais bonita, Melô de Poliana, e isso é tudo que sei. Teve uma época que achei que tivessem me dado um nome novo, pensei que meu nome era Melô de Poliana”.

O que se tem certeza é que o melô de fato estourou e não teve outro jeito: Donna Marie tinha que vir ao Maranhão.

Think Twice é a canção que ainda a leva pelo mundo, “até hoje eu descubro lugares que eu não fazia ideia que já tivessem ouvido minha voz. Esse ano eu estive em Salt Lake City e lá me disseram que o pessoal cresceu com essa música!”

O reggae no Maranhão parecia estar passando por mudanças fortes em meados dos anos 1990. A tecnologia tornava tudo mais acessível, as idas à Jamaica eram mais constantes e a ideia de exclusividade baseada no garimpo e rebatismo de velhas pérolas já não era assim tão simples. As grandes radiolas estavam consolidadas e a classe média lotava clubes de praia e bairros nobres, o reggae eletrônico estava ali na esquina e DJs usavam, por um breve período, o MD. Foi nesse cenário que apareceu Donna Marie, numa combinação, como sempre, improvável de Canadá e Inglaterra.

Mas, para a massa, a canção caiu como uma bomba. Conversei com uma amiga, frequentadora de salões desde os anos 1980. Perguntei qual o melô pelo qual ela mais tem carinho e resposta vem como um riff: Poliana! “No dia que lançaram esse reggae eu não fui, foi uma sexta-feira, Antônio José que lançou. Aí a minha amiga foi no reggae, eu disse, ah, não vô, tô cansada e tal… Aí quando foi no outro dia, quando ela chegou de manhã cedo, ela bateu na minha porta só pra me contar que tinham lançado esse raggae, o Melô de Poliana, eu disse ‘ah, é a filha de Ferreirinha’… ‘Esse reggae é maravilhoso, não sei o que’, ela falou. Aí quando foi no dia seguinte, parece que ele ia tocar na praia, aí a gente foi pra lá só pra esperar esse reggae, a gente ficou escravo dessa festa, toda vez que tinha a gente tinha que ir pra ouvir esse reggae, que era muito legal”.

Não era possível andar pela Rua Grande sem ouvir o Melô de Poliana. A canção, de início exclusiva da Estrela do Som, se espalhava feito bicho geográfico no calor da Ilha. Ao lado do Melô de Valéria, Poliana é o mais famoso reggae em homenagem a uma mulher no Maranhão. As duas personagens, contudo, são bastante distintas, assim como os sentimentos que seus melôs provocam. O Melô de Poliana tem uma doçura da versão original, que a conversão em reggae não nega, uma proeminência dos teclados, lembrando o reggae eletrônico, mais lento, cheio de vibratos, daqueles que não dá pra dançar só, com um refrão que pede um aprochego ainda mais coladinho. Se você passou algumas horas secando alguém numa festa de reggae, esse é o momento de chegar junto. Dizem que o amor atrai.

Enquanto Valéria é uma figura solar e explosiva, Poliana, filha do Magnata Ferreirinha, dono da Estrela do Som, é uma pessoa reservada. Tentei sucessivamente entrevistá-la, mas não tive sucesso. Ao telefone, ela ri envergonhada ao ser lembrada da música e diz que até hoje brincam com ela por causa disso, mas isso é o máximo que consigo. Pergunto a Donna Marie se ela conhece a dona do Melô e ela diz que não. No primeiro show da cantora em São Luís, Poliana foi chamada ao palco, não subiu, Marie já tentou se encontrar com Poliana várias vezes, sempre sem sucesso. Se a dona do Melô não encontra a dona do Melô, quem sou eu?…

Foto: Reprodução

FICANDO SÉRIO

 

Um carro de som circulava pelas ruas do São Cristóvão numa tarde de agosto de 97, nos alto-falantes um locutor avisava a vizinhança que a cantora jamaicana Donna Marie estava chegando e que quem quisesse vê-la poderia ir ao aeroporto. Entre uma chamada e outra, o Melô de Poliana corria solto.

Donna Marie se preparava para a primeira descida no Brasil, com dois shows agendados, um em São Luís, outro em Belém. Para ela, seria mais um show com Think Twice, trazia a banda completa, com seis músicos, além do empresário Jeffrey Peart, dono da Londisc records. Nada mal para quem começou no coral da igreja.

O voo da Transbrasil chegou com uma hora de atraso, o que só serviu pra que a massa se avolumasse ainda mais no Tirirical, muitos uniformizados do trabalho ou fã clube de radiola, o melô rolava no volume máximo em vários carros, ao mesmo tempo, uma maçaroca românticossonora. Marie fala com um forte sotaque britânico, limpo e sem gírias. Poucos dias antes do Natal ela me contou como foi a chegada:

— Eu não fazia ideia que era um hit e que os shows seriam tão grandes, então a coisa mais estranha que aconteceu foi quando pousei no Brasil e vi aquela loucura no aeroporto, sabe… o fato de que tanta gente apareceu só pra chegada era impressionante. Eu lembro de descer do avião… e eles esperaram que todo mundo saísse do avião, e deixaram somente eu e a banda, que veio da Inglaterra, e então eu pensei “por que a gente tá esperando”, era o Natty naquele tempo, Natty que veio e nos trouxe pra São Luís, eu disse: “Natty, porque tu tá me fazendo esperar?”, ele disse “Donna Marie, muita gente espera você”, mas eu não entendi o que ele quis dizer, pensei que ele tivesse tentando dizer que dessa vez você poderia esperar, porque na vida as pessoas também esperam por você. Eu disse ok, sentei e deixaram a banda sair. E eu fale “por que você está me fazendo esperar”, e ele disse “Dona Marie, eu falei, muita gente espera você”, daí a banda saiu do avião, um por um, e aí ele me chamou, era a minha vez, e eu desci do avião, ainda na escada eu ouvi aquela barulheira, gente gritando, vibrando e eu olhei pra Natty e sorri, falei “ó, parece que vocês estão esperando alguém importante aqui hoje”. Ele olhou pra mim, gargalhou e falou “Donna Marie. Eu falei, muita gente espera você’, e daí eu entendi e pensei. Meu deus, o que tá acontecendo aqui!, e depois teve uma carreata pro hotel, uma loucura, foi como um carnaval!

Naifson, que já havia trazido pra São Luís nomes como Gregory Isaacs, não estava surpreso. A chegada foi coberta por TVs e Jornais, mas o administrador do aeroporto não permitiu entrevistas no saguão, segundo O Imparcial, por “temer que houvesse depredação por parte dos fãs. Ávidos por ter contato mais próximo com seu ídolo”, e vamo combinar que é mais um daqueles exemplos do preconceito do qual o reggae maranhense é vítima desde sempre.

Também por trás da empreitada estava Pinto Itamaraty. Pinto dá entrevistas medindo palavras, algo que parece ter refinado como político. Num áudio de Whatsapp me disse que “a ideia de trazer Donna Marie foi minha e do Naifson. Naquele momento o Melô de Poliana estava estourado, o Enéas Motoca foi a pessoa que contatou o empresário dela, em Londres, e eu e Naifson fomos até Londres e fizemos um contrato pessoalmente com ela e com o empresário dela. Naquele momento foi uma repercussão muito grande em São Luís, porque todas as emissoras de rádio tavam tocando a música dela, e o resultado foi altamente positivo, desde a chegada dela, os shows, tudo que aconteceu em torno dela”.

Marie era fonte de lucro certa. Jofran, o empresário, dono da Music Play e criador da coleção Reggae Roots, cujo primeiro volume sairia naquele mesmo ano, sacou a coisa: “quando a Donna Marie veio fazer show aqui, o CD era de Londres, o original dela. Eu fui pra Miami, de Miami peguei um avião com Adriana e fomos direto pra Londres, nós fomos só buscar esse CD. Eu trouxe de lá 1000 CDs da Donna Marie. Vendi todos”. O melô de Poliana, não à toa, foi a faixa de abertura do Primeiro Reggae Roots, que vendeu feito juçara no Maracanã. O acordo foi feito entre Music Play e Londisc. Segundo Marie, ela não viu um centavo dessa grana.

Todos os jornais deram destaque à presença da cantora, mas o que não se sabia era que por trás dos olhos amendoados e da voz angelical estava uma mulher capaz de gerar renda pra muita gente, mas vilipendiada de várias formas no seu próprio bolso. Segundo ela, quase não recebeu pelos primeiros discos, “me colocou no mapa do reggae”, mas foi só, e pouco viu do dinheiro de Think Twice (a canção, por exemplo, não está em seu Spotify, porque ela nada ganha com isso). O cachê para a viagem ao Brasil foi menor que um pagamento regular na Inglaterra, isso acendeu a luz vermelha: “um grande cantor não significa necessariamente alguém rico. O sucesso veio muito antes de qualquer dinheiro”. O acordo com a Londisc para o Brasil era para dois shows, Jeffrey Peart, o empresário inglês, “tentou incorporar outro show sem me dizer que era um show pago. Ele me falou ‘vamos pruma festa de praia’. Chegamos lá e do nada tinha estrutura e portões enormes, e tinha segurança e eu disse pra ele ‘o que tá acontecendo?’, ele disse ‘nada, é só pra ter certeza que você estará segura, sabe, porque tem muita gente tentando chegar perto de você, e aí e repente fui escoltada até uma porta e me vi num palco, um microfone foi posto na minha mão e tava tocando a faixa Gee Wiss e meio amedrontador, o que passou pela minha cabeça era que eu estava diante de 2000 pessoas na praia e eu pensei ‘esse pessoal deve ter pago pra vir pra cá’, então, ao invés de sair correndo do palco sem fazer nada, eu cantei um verso e um refrão da música, joguei o microfone pra direita e corri pra esquerda e deixei o palco”.

Uma matéria do Imparcial espetou a cantora dizendo que “se o melô de Poliana é figurinha fácil (…) o mesmo não se pode dizer de sua intérprete”, e a acusou de cobrar para dar entrevistas, “as exigências são feitas pelo seu empresário, Jeffrey Peart”, que exigia parte dos lucros pelas vendas do jornal no dia da entrevista: “informações sobre a carreira de Donna Marie foram cedidas por um dos produtores praticamente de maneira ‘clandestina’, já que era proibido obter qualquer dado pessoal ou profissional gratuitamente”, completa a matéria.

Mandei o recorte para Marie e ela ficou de cara: “quem estava cobrando por entrevistas? É a primeira vez que ouço falar disso, eu não cobrei e não fui paga por isso”.

A relação com a gravadora não durou muito após a viagem a São Luís, mas a história de Marie diz algo sobre a indústria da música e do reggae em especial. Quando a entrevistei pela primeira vez ouvi que ela nascera em St. Elizabeth e que fora para Kingston aos dois anos, mudando na adolescência para a Inglaterra. Algumas matérias, contudo, confundiam as datas, mesmo tento a cantora como fonte direta. Fui checar as datas com ela novamente. A resposta levou algumas horas: “ok, vamos botar isso à limpo… desde o começo meus produtores e promotores sempre me venderam como ‘Donna Marie da Jamaica’, e eu só segui o fluxo. Eu cresci em St. Elizabeth, Jamaica, e então mudei pra Kingston aos dois anos, mas na verdade eu nasci na Inglaterra e fui levada para a Jamaica aos dois anos”.

Pois é, a cantora Jamaicana Donna Marie é inglesa e o nascimento jamaicano é uma mercadoria muito bem empacotada pra passar uma ideia de autenticidade e legitimidade à sua música. Marie é Jamaicana pra maranhense ver. Não consegui contato com Jeffrey Peart, um nome antigo do mundo do reggae me falou que ele saiu do mercado há alguns anos, deixando um rastro de dívidas: “esse tipo de gente, depois de roubar artistas, às vezes desaparece sem deixar vestígios. Ele me roubou muito!”

Entrevistas pagas ou não, no dia 2 de agosto de 2007, Donna Marie subiu ao palco do Grêmio Lítero Recreativo Português, antecedida pela banda Reprise, Trio Tubarão, radiolas Itamaraty e FM Natty Naifson. Os ingressos custavam salgados R$ 10,00 antecipados e R$  12,00 no local. Ela já esperava um bom público, mas se surpreendeu novamente quando viu a multidão. Ainda no backstage, “os membros da banda entraram no camarim e diziam ‘olha, deve ter 20 a 30 mil pessoal ali, não estamos recebendo o suficiente pra isso’, e eu nem dei ouvidos, pensei ‘ah, vocês tão malucos, eu só sorria e dizia ‘besteira!’. Mas quando eu subi no palco e percebi que não conseguia ver o fim da multidão, acho que eu gelei, nem sei se eu cantei direito naquela noite” eu subi no palco eu fiquei tão chocada que não achei que conseguiria cantar bem naquela noite”. O show inaugural em São Luís é, até hoje, o maior da carreira da cantora e o Melô de Poliana foi um momento de catarse coletiva. A massa cantando a letra sem saber, mas em sintonia com o sentimento melacueca, que me leva de volta, pra finalizar, ao Moments of love, à fossa braba, e à letra:

Não diga o que você está prestes a dizer

Olhe pra trás antes de deixar minha vida

Tenha certeza antes de fechar essa porta

Antes de jogar esses dados

Baby, pense duas vezes

Baby, pense duas vezes, em nome do nosso amor, pela memória

Pela fé e pelo fogo que fomos nós dois

Baby, eu sei que não é fácil quando sua alma quer sempre mais

Porque um copo meio cheio é também um copo meio vazio

Não faça o que você está prestes a fazer

Meu tudo depende de você

O que quer que precise, eu sacrificarei

Antes e você jogar esses dados

Baby, pense duas vezes

Donna Marie voltou outras duas vezes a São Luís, sempre com shows bombados e imenso carinho do público. Espera poder voltar em breve para mais um show.

Tomara que dessa vez ela consiga encontrar com Poliana.

Se der, quero estar junto.

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