FORRÓ EM ALEMÃO?

Amor por alemã fez maranhense levar forró nordestino à Alemanha

Caramuru, integrante do Forró de Ka, é ludovicense nato, criado no bairro do São Cristóvão, e embarcou para a Europa por amor. Conheça esta história!

De São Luís a Karlsruhe, na Alemanha, é muita terra e mar. 9.431 quilômetros, para ser exato. Foi esta a distância que um ludovicense, criado no bairro do São Cristóvão e forjado no teatro e na música, percorreu após apaixonar-se por uma alemã que fazia trabalho social em terras tupiniquins. Hoje, oito anos após investir às cegas na empreitada de viver em meio a uma cultura totalmente diferente, Ítalo Nalyson, o Caramuru, descobriu um jeito inusitado de manter viva a brasilidade na Europa e ganha destaque por dar aos germanos um aperitivo dos ritmos nordestinos com a banda Forró de Ka.

A travessia começou com o caminho inverso: Caramuru foi, adolescente, para Curitiba numa viagem que durou cinco dias de carona em carona, em caminhões. “Eu saí de São Luís numa época conturbada, onde eu descobri que eu precisava ver coisas novas e mudar meus horizontes”, conta. O maranhense morou durante cinco anos na cidade, onde trabalhou como musicoterapeuta num Centro de Atenção Psicossocial Infantil e conheceu Rika, alemã que, na época, fazia trabalho social no Brasil.

“A gente acabou se apaixonando muito rápido um pelo outro e depois de nove meses namorando a gente resolveu casar”, relembra Caramuru. A ida para a Alemanha aconteceu “sem ter muito o que decidir”. “Ela tinha que ir embora, não podia ficar, no contrato dela, ela precisava terminar o ano social voluntário e voltar pra Alemanha porque tinha uma multa absurda”, conta o artista. Em terras alemãs, a sensação foi de estar em casa, revela Caramuru. O maranhense trabalhou de tudo: da colheita de uvas ao cuidado de idosos. “Eu nunca tive medo do trabalho. Mas na cabeça deles [da família alemã] e na minha, sempre existia aquela obrigação de fazer aquilo que eu nasci pra fazer”, relata Caramuru.

Forró de Ka

O contato com a música na Europa aconteceu, num primeiro momento, através do convite de um conhecido que já trabalhava com música. “Eu comecei a ver a pressão de ter que tocar coisas muito conhecidas, um lance do pop internacional, e foi um grande choque pra mim. Até então eu tocava só MPB”, conta Caramuru. Foi então que o músico resolveu mesclar as coisas: “Fiz algo do cancioneiro pop internacional e misturei com aquilo que eu já conhecia, com a Bossa Nova, com o Forró. Isso me fez aflorar a musicalidade no exterior”. A mistura foi suficiente para que o cantor passasse a ganhar os corações alemães com o forró brasileiro.

Já o Forró de Ka surgiu quando em 2010 o flautista paraibano Vitor Diniz convidou Caramuru para dar uma palhinha no Forró de Domingo, a maior festa do gênero na Alemanha, em Stuttgard. Sete anos depois, a banda faz sucesso na Europa, e conta ainda, em sua formação, com Alex Almeida na sanfona, Johann Oliveira no baixo e no violino, e Mario Maradei na zabumba.

Grupo Forró de Ka. Foto: Reprodução

O grupo lançou em 2017 seu primeiro álbum, intitulado Revolution, totalmente independente e cantado em português, inglês e alemão. “Criamos um nome que todas as pessoas pudessem compreender. É um nome
também em alemão, escrito da mesma forma, e em português qualquer um sabe o que significa. Ele [o nome] precisava caracterizar nossa banda, que é uma banda diferente, feita por brasileiros e um colombiano que se
juntaram pra fazer todo tipo de música usando como desculpa o forró”, comenta o músico. O álbum está disponível nas plataformas digitais e também numa versão física inovadora: um bracelete com pen-drive acoplado.

Sobre fazer forró na Europa e levar o Brasil ao exterior, Caramuru revela: “O maranhense, o nordetino, nasce com o forró em si. Pra mim foi meio que cumprir a minha sentença, mostrar um pouquinho da cara da gente, um
pouco dos ritmos […] O Forró de Ka tem como obrigação fazer de tudo: do Maracatu, do Xote ao Baião, Xaxado… Fazemos exatamente a mistura que queremos, sem esquecer do Bumba-meu-boi”, completa.

De Karlsruhe a São Luís

Hoje, de volta a São Luís em visita, Caramuru revela que não conseguiria ser feliz se não fizesse forró. “Me emociona muito sempre voltar pra cá e ver que nada disso que eu vivi foi em vão. Sentir o calor desse lugar, sentir a verdade nas pessoas. Eu adoro vir pra cá e sentir que o Maranhão faz parte de mim onde quer que eu vá”, conta o artista. Na Alemanha, o maranhense vive de música e da arte. Trabalha também com audiovisual e como pedagogo, ajuda refugiados e faz trabalho voluntário. Caramuru foi, inclusive, estrela de uma campanha pela integração de imigrantes e tem sua foto estampada em outdoors pela cidade. “A Alemanha me deu espaço, me deu oportunidade de poder trabalhar na música, de fazer aquilo que eu quero. As pessoas não me veem pelo que eu visto, não me veem pelo meu cabelo […] Elas me veem pelo que eu sou”, afirma.

O artista dá a deixa para aqueles que querem seguir seus sonhos: “Você pode decidir ser feliz. Você pode decidir ser rico. Eu decidi pela minha vida e por aquilo que eu sou. O que eu posso dizer hoje como maranhense, como ludovicense, como um menino que não teve muitas oportunidades na vida, é que eu não deixei isso me abater. As oportunidades eu criei”. Caramuru diz, ainda, que acima das influências para o bem ou para o mal, “com um pouquinho de sorte e amor, não sobre as coisas, e decisão naquilo que a gente quer ser, é sempre possível alcançar os seu sonhos”. E ainda sobre os sonhos, o artista tem o dele delimitado. “O meu é que a Europa e o mundo conheçam o forró, que um dia eles ouçam e saibam exatamente do que se trata”, conclui.

Forró na Alemanha

O forró é inegavelmente nosso: brasileiro, nordestino. Parece improvável, mas o estilo invadiu a Europa nos últimos anos. “Hoje você tem festivais em todos os países da Europa. A Alemanha é o lugar que mais se toca
forró, tem festas praticamente todos os dias”, explica Caramuru. O artista conta que quando os europeus têm o primeiro contato com o forró, o choque é pelo som da sanfona. “Eles conhecem a sanfona como um
instrumento que toca outros ritmos tradicionais alemães, e quando eles ouvem a sandona fazendo o que ela faz com o forró, pra elas é algo extremamente novo”, comenta.

Agora, depois da explosão do ritmo no continente, é quase impossível não encontrar festas de forró nos países. Os europeus dançam, participam de workshops em festivais e chegam a vir ao Brasil para ter aulas com
dançarinos conceituados daqui.

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