Foto: Reprodução

São Luís completa hoje 406 anos. A ilha, que já foi enaltecida por poetas, escritores, cantores, pintores e fotógrafos apaixonados por sua beleza e riqueza cultural, já recebeu vários apelidos, entre eles: Ilha Grande, Ilha do Amor, Ilha Rebelde, Ilha Magnética, Ilha Bela, Cidade dos Azulejos, Jamaica Brasileira, Atenas Brasileira e tantos outros que tentam definir a Ilha de São Luís, que carrega em sua história tantas outras ‘ilhas’.

A cidade que é a única capital brasileira fundada pelos franceses, ocupada também por portugueses e holandeses, foi batizada pelos índios Tremembés no início de sua fundação, em 1612, com o nome “Upaon-Açu”, que em Tupi-Guarani significa “Ilha Grande”. A denominação indígena foi restabelecida pela Constituição do Estado do Maranhão, presente no Art. 8º – onde leia-se: “…a cidade de São Luís, na ilha de Upaon-Açu, é a capital do Estado”. E foi em busca de tentar entender essas tantas ilhas que habitam na Ilha de São Luís que O Imparcial fez uma pesquisa e descobriu algumas curiosidades sobre os seus apelidos.

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São Luís ficou conhecida como a “Ilha Rebelde”. Sobre o assunto escreveu o imortal da Academia Maranhense de Letras (AML) Benedito Buzar em 2016, no artigo De Ilha Rebelde à Ilha Do Amor, explicando que em 1951, como presente pelos seus 349 anos de fundação, a cidade recebeu a denominação de “Ilha Rebelde”, pela brava resistência oferecida, à época, aos detentores do poder. “Essa resistência ganhou visibilidade na greve política contra a posse do governador Eugênio Barros, que, segundo os oposicionistas, vencera a eleição de outubro de 1950, realizada sob os auspícios da fraude eleitoral e com o beneplácito da Justiça. Contra isso se levantou o povo de São Luís através de um fabuloso movimento popular que durou mais de seis meses e com presença nas ruas, dia e noite”, disse Buzar.

O imortal, que atualmente ocupa a Cadeira nº 13 da AML, ressaltou ainda que a cidade foi transformada em trincheira de luta contra o “Vitorinismo” [hegemonia política de Vitorino Freire que terminou em 1965 quando o então deputado federal José Sarney venceu as eleições para o governo do Maranhão pela UDN com o auxílio do presidente Humberto de Alencar Castelo Branco]. Benedito Buzar explica no texto que a cidade, pelo voto, massacrava os candidatos governistas, impondo-lhes derrotas memoráveis. “Se os governistas tinham o domínio político no interior do Estado, na capital, a situação se invertia. Aqui, só os candidatos oposicionistas tinham vez”, ressaltou o imortal.

Buzar lembra ainda no artigo que esse quadro político teve um prazo de validade relativamente curto. “Em menos de vinte anos, como se um processo de anestesia coletiva desabasse sobre São Luís, o eleitorado mudou, acomodou-se e perdeu aquela valentia que lhe era peculiar”, pontou o escritor.

Ilha do Amor, Magnética e Bela

Praia da Ponta d’areia. Foto: Reprodução

Benedito Buzar acrescentou também que, com o fim da Ilha Rebelde, despolitizada pelo regime militar, vislumbrava-se um espaço para São Luís conquistar outras qualificações, estas, impregnadas de louvação ao amor e à beleza da cidade. “Aproveitam-se dessa lacuna os cantores e compositores maranhenses João Sá ou Claudio Fontana, César Nascimento e Carlinhos Veloz”, disse Buzar.

Essa apologia musical a São Luís nasce e vinga entre os anos 1970 e 1990. Claudio Fontana, que morava em São Paulo, saiu na frente com uma declaração de amor à terra em que nasceu e se criou. Com letra e música de sua autoria, lança a canção intitulada Ilha do Amor, cujo estribilho caiu na boca do povo de modo impressionante: “Quero voltar, quero voltar para São Luís/Ilha do amor onde eu nasci/ onde em criança eu fui feliz”, cantou saudoso Fontana.

Buzar afirma ainda que, nesse mesmo caminho, veio César Nascimento, com residência em Petrópolis, Rio de Janeiro, que dedica a São Luís uma gostosa melodia, intitulada Ilha Magnética. Uma canção de endeusamento à cidade onde o amor e a natureza se misturam em versos como estes: “Ponta D’Areia, Olho D’Água, Araçagi/ Mesmo estando na Raposa/ Eu sempre vou ouvir/ A natureza me falando que o amor nasceu aqui”, diz a composição de César Nascimento.

O imortal lembrou ainda que, explorando a mesma temática, Carlinhos Veloz, cantor e compositor de Imperatriz, presenteia São Luís com a canção denominada Ilha Bela, na qual ressalta a beleza da cidade e o que ela tem de pujante – sua história e seu tropicalismo, que se manifestam nos casarões seculares, no clima e na sensualidade da dança e da música. De acordo com Benedito Buzar, quem ouve a música de Carlinhos se encanta com estes versos: “Quero juçara que é fruta rara, lambuza a cara e lembra você/ E a catuaba pela calçada na madrugada até o amanhecer/ Na lua cheia, Ponta D’Areia, minha sereia dança feliz/ E brilham sobrados, brilham telhados da minha linda São Luís”, enaltece a ilha Veloz.

Ilha dos Azulejos

No texto, Bendito Buzar explica que, segundo os historiadores, o azulejo chegou ao Maranhão, no final do século XVIII, pelas mãos dos portugueses, ferramenta de embelezamento estético para fazer de São Luís uma segunda Lisboa. “O sucesso do azulejo entre nós deu-se em grande escala, pelo aproveitamento nos revestimentos de igrejas, conventos, casas de saúde, escolas particulares e fachadas residenciais. A pesquisadora Dora Alcântara acha que os azulejos foram a solução encontrada pelos maranhenses, com vistas à decoração das fachadas residenciais e dos objetos domésticos, que, por motivos estéticos, ganharam status social. Uma preciosa peça, à vista de todos, que se realça pela beleza e singeleza, fez com que São Luís se tornasse conhecida por ‘Ilha dos Azulejos’”, lembrou o imortal.

Foto: Divulgação

Ilha dos Poetas e dos Azulejos

Além de Ilha Rebelde, dos Amores, Magnética e Bela, São Luís também se tornou conhecida nacionalmente por Ilha dos Poetas, dos Azulejos e Jamaica Brasileira. Benedito Buzar explica que “Ilha dos Poetas, pela quantidade e qualidade de seus vates. Ou seja, por conta de seus profetas, vaticinadores, ou videntes.No artigo, Benedito Buzar lembra ainda a escritora Stela Leonard criou esta frase lapidar: “Quem deseja ser poeta, basta dormir uma noite em São Luís”.

O imortal também no texto lembrou o seu confrade Jomar Moraes em uma de suas magníficas crônicas sobre São Luís. Assim, segundo Buzar, Jomar Moraes se expressou: “Dizem que São Luís é uma cidade de poetas. Bairrismos à parte, a afirmativa procede, tantos são os poetas que tivemos e continuamos tendo. Ou melhor – que temos, já que os poetas não morrem. Encantam-se. Embora fazendo a necessária advertência de que há poetas, é perfeitamente correto assegurar que esta Cidade, entre seus altos e honrosos privilégios, inclui o de possuir muitos e importantes poetas”, escreveu Jomar Moraes.

Benedito Buzar cita ainda o poeta Bandeira Tribuzi. O poema Louvação a São Luís, em homenagem a São Luís, foi transformado em Hino da Cidade. Em versos, Tribuzi diz sobre a ilha: “Cercada de águas e sonhos, / de glória, de maresia/ a Ilha é circundada de Poesia”, atestou o poeta.

Jamaica Brasileira

No livro Onde o Reggae é a Lei, lançado em 2012, a jornalista e antropóloga Karla Freire explica o porque da cidade ser conhecida como a “Jamaica Brasileira”. Na publicação, Karla Freire afirma que houve inicialmente resistência em associar o reggae a São Luís, que já havia sido identificada como a Atenas Brasileira, “pela evocação de um passado glorioso, de grandes nomes da literatura, artes e ciências, encarnado por jovens filhos de comerciantes e produtores agrícolas, que retornavam de seus estudos na Europa”. A jornalista cita no livro autores como Aluísio de Azevedo, Gonçalves Dias e Graça Aranha, que ajudam a compor a imagem dessa São Luís intelectual do século XXVIII. “Até a década de 1980, os jornais ligavam as festas de reggae sobretudo à criminalidade”, afirma. Desde os anos 2000, no entanto, essa resistência diminuiu, conta Karla. O estilo passou a ser reconhecido como uma marca da capital maranhense. O epíteto “Jamaica Brasileira” é adotado até mesmo pela Secretaria de Turismo de São Luís, que criou um guia turístico do reggae na cidade, explica Karla Freire. Vale aqui lembrar que São Luís é uma das três capitais brasileiras localizadas em ilhas (São Luís, Florianópolis e Vitória). O resultado de tantas misturas de raças e culturas dessa cidade, que faz parte do Arquipélago do Golfão Maranhense, é ser literalmente única e continuar despertando o interesse de quem a conhece.